A banalização da Copa do Mundo
A Fifa decidiu neste ano se engajar em uma campanha com a qual almeja mudar a periodicidade da Copa do Mundo.
A sugestão partiu, em maio, da federação da Arábia Saudita, uma das mais ricas entre as 211 associadas à entidade máxima do futebol, e foi recebida com ótimos olhos pelo presidente Gianni Infantino.
Desde então, ficou a cargo de Arsène Wenger, ex-treinador do Arsenal, hoje funcionário da Fifa (é chefe do Departamento Global de Desenvolvimento do Futebol) e um entusiasta da ideia, disseminá-la.
A Fifa declara contar com a simpatia de ex-jogadores famosos, que já disputaram Copa(s) do Mundo.
Ronaldo Fenômeno, Lothar Matthäus (Alemanha), Javier Mascherano (Argentina), Michael Owen (Inglaterra), Marco van Basten (Holanda), Didier Drogba (Costa do Marfim), entre muitos outros, estiveram com Wenger em reunião em Doha (Qatar) neste mês.
Há poucos dias, a entidade publicou em seu site um texto intitulado “A maioria dos torcedores é a favor de Copas do Mundo masculinas mais frequentes”.
Diz a Fifa ter realizado pesquisa global online que levou a esse entendimento, trazendo as seguintes conclusões: a maioria dos fãs gostaria de ver a Copa do Mundo masculina em menor intervalo de tempo; a preferência da frequência é bienal; os mais jovens são mais abertos a mudanças que os mais velhos.
Feito isso, anunciou nesta semana que começará as conversações sobre o tema com os clubes, com as ligas que organizam as competições (tantos as de clubes como as de seleções) e com os sindicatos de futebolistas.
Haverá quem apoie, haverá quem condene, e é cedo para saber se a proposta vai ou não vingar.
O certo é que, caso vingue, haverá uma espécie de overdose de Copa do Mundo –a masculina é o foco aqui. E o consumo excessivo dela pode trazer efeitos maléficos.

O que mais me preocupa, como analista e aficionado do esporte, é a banalização do principal evento futebolístico que existe.
Com o hiato de quatro anos, a Copa do Mundo é um torneio valorizadíssimo em termos esportivos.
Todos que adoram futebol –e até quem não gosta tanto– esperam avidamente por ela, e é essa distância de uma edição para outra que a torna tão aguardada e enaltecida.
Pelo menos um jogador em atividade concorda: Gareth Bale, capitão e craque do País de Gales, cuja seleção disputou uma única Copa, a de 1958, quando foi vítima do Brasil de Pelé nas quartas de final (1 a 0, gol do rei do futebol).
“Gosto da tradição dos quatro anos. Traz prestígio [à Copa do Mundo]. Como os Jogos Olímpicos acontecendo a cada quatro anos, há o sentimento de que é mais especial.”
Em quase um século, ocorreram 21 Copas do Mundo. A 22ª será no final do ano que vem, no Qatar.
Os verdadeiros amantes do futebol sabem de cabeça todos os campeões, na ordem cronológica, desde o Uruguai em 1930 (venceram também a Itália, a Alemanha, o Brasil, a Inglaterra, a Argentina, a França e a Espanha), bem como todos os países-sedes.
Sendo ela de dois em dois anos, a tendência é aumentar o número de vencedores (pois haverá um número maior de tentativas), e será necessário mais espaço na memória para guardar todas as seleções vencedoras e todas as nações anfitriãs.
Justamente por não ser algo trivial, a Copa do Mundo atrai e empolga –qualquer um que não queira torná-la comum deve se opor a ampliar o número de edições.
Aliás, a Fifa já tomou uma decisão ruim para a Copa, que foi a de ampliar o número de participantes. A partir de 2026, não serão mais 32, mas 48.
Com o intuito de ampliar o interesse global no futebol, será implantado um formato esdrúxulo (com 16 grupos de três seleções na fase inicial) e haverá o risco considerável de reduzir o nível técnico da competição.
Voltando à possibilidade da Copa bienal, há resistência forte dos maiores clubes europeus, que são os mais endinheirados do futebol.
Eles teriam que ceder seus astros (ou mesmo os não astros), muito bem remunerados, a suas respectivas seleções por um período a mais –de cerca de dois meses– e sujeitá-los a cansaço físico e lesões.
Outra questão a ser exposta é se os próprios jogadores terão tanta vontade de vestir a camisa da seleção se a Copa for realizada em um intervalo menor.
Atualmente, a chance de triunfar é pequena. Um futebolista de alto nível consegue participar de uma a três Copas em sua carreira, alguns poucos em quatro –mais que isso é exceção.
“Bienalizando” o Mundial, a oportunidade de atuar no evento cresce, bem como a de ser campeão.
Atualmente, o atleta enxerga a Copa como uma chance rara de tentar chegar ao título mais significativo que existe.
Se ela for banalizada, não será surpresa alguns abdicarem de uma edição para, por exemplo, tirar férias com a família. “Fico fora desta, logo, logo já tem outra.”
Até porque, com a Copa do Mundo nesse modelo, a lógica indica que seria nos (poucos) anos em que ela não é realizada que teriam de ocorrer a Eurocopa e a Copa América, entre outras disputas continentais.
Uefa e Conmebol, as confederações europeia e sul-americana, correriam risco de ver seus torneios esvaziados e com cartaz reduzido.
Ademais, como se encaixaria no calendário, de forma a oferecer visibilidade, a Copa do Mundo feminina? E o Mundial de Clubes ampliado, já anunciado pela própria Fifa? Como fica? Ou melhor: quando fica?
“Devem ser realizadas apenas as competições relevantes. Que as outras sejam descartadas”, declarou Wenger, o missionário da Fifa, à rede de TV BeIN Sports. “Essa é a razão pela qual devemos realizar a Copa do Mundo a cada dois anos.”
Indo ao ponto: importante mesmo para a Fifa é a Copa do Mundo. A masculina. O resto é o resto, e o resto é irrelevante e desprezível.

Afinal, como enfatizou em entrevista pré-jogo o respeitado Jürgen Klopp, alemão que treina o inglês Liverpool, é nesse evento que está o dinheiro.
“Todos nós sabemos o que está acontecendo. Por mais que digam que se trata de dar oportunidades a diferentes países, no final tudo se resume a dinheiro. É assim que funciona.”
Com mais edições de Copa, a Fifa ganhará mais em patrocínio, em direitos de transmissão, em venda de ingressos, em comercialização de produtos.
A Copa de 2018, na Rússia, que teve audiência mundial de 3,752 bilhões de pessoas, rendeu à entidade uma receita recorde de US$ 5,357 bilhões (na conversão pelo câmbio atual, R$ 28,41 bilhões).