Ex-Arsenal, hoje Fifa, Wenger tem ideias para mudar (mais) o futebol

Treinador do Arsenal por mais de 20 anos (de 1996 a 2018), tendo ganhado com o clube londrino três Campeonatos Ingleses e sete Copas da Inglaterra, Arsène Wenger trabalha hoje para a Fifa.

Ele é o chefe do Departamento Global de Desenvolvimento do Futebol na máxima entidade do esporte.

Na função, tem o papel de tentar tornar o jogo mais atrativo, para fãs, TV, patrocinadores –afinal, infelizmente para os nostálgicos (no sentido de saudoso, não de melancólico) como eu, o futebol mais do que nunca é também negócio.

O francês Wenger, de 70 anos, tem ideias para mudar o futebol.

Se depender dele, o jogo implantará uma nova forma de bater os arremessos laterais. Saem as mãos, entram os pés, em uma imitação do futebol de salão (futsal).

Atualmente, segundo ele, o time que cobra o lateral tem muita desvantagem, perdendo a posse da bola 80% das vezes em que ela é reposta em jogo.

Nunca me atentei a esse aspecto, mas minha impressão é a de que Wenger está errado e na maioria das vezes a equipe que bate o arremesso manual mantém a bola em seu domínio.

Outra modificação proposta por ele refere-se aos escanteios.

O ex-treinador deseja que a partida não mais seja interrompida se, na batida, a bola sair pela linha de fundo.

Algumas vezes, quando o cobrador coloca um efeito na bola, ela sai, voltando depois, em curva, para o campo. Nesse caso, o árbitro interrompe o lance e dá tiro de meta.

Wenger quer que o jogo prossiga, a fim de ampliar a chance de gol do time atacante nos escanteios.

A intenção é válida, porém, se existem as quatro linhas no futebol, a bola para estar em jogo deve estar dentro delas. Bola fora de jogo é bola fora de jogo, ponto.

Cabe ao batedor do córner praticar para que a redonda chegue à cabeça ou aos pés de um companheiro na área adversária sem que ela saia do campo. Não é necessário dar auxílio extra a fulano ou beltrano para que seja competente. Treino é a palavra.

O terceiro plano do francês é relacionado às faltas.

Ele deseja que o jogador possa bater a falta para si mesmo, sem necessidade de tocar para um companheiro.

Seria uma maneira de ampliar a dinâmica da partida, evitando que o infrator atravanque-a.

O atleta que sofre a falta teria a opção de se levantar rapidamente, dar um toque na bola para ele mesmo e seguir adiante.

Essa talvez seja uma alternativa interessante, que poderia ser testada para que os resultados sejam observados. Teoricamente, o defensor faltoso atrasará menos o avanço do oponente, o que é positivo para o futebol.

Arsène Wenger, ainda sem os cabelos grisalhos, em sua apresentação como técnico dos Gunners, 24 anos atrás (Ian Waldie – 22.set.1996/Reuters)

Wenger tem as ideias, sendo elas boas ou não, mas não possui poder para implantá-las.

Suas proposições, caso sejam de agrado do presidente da Fifa, Gianni Infantino, serão levadas adiante, para o Ifab (International Football Association Board), que é o órgão responsável por regulamentar as regras do futebol.

Como o Ifab tem flexibilizado seu histórico conservadorismo –a entrada em vigor do VAR (árbitro assistente de vídeo) é a maior prova–, é possível que pelo menos uma das inovações seja aprovada a curto prazo.

E o futebol vai se transformando, se transformando, se transformando… Dizem ser evolução. E até nos acostumamos com as mudanças, rapidamente ou nem tanto, gostando delas ou não.

Mas o futebol é tão popular, tão visto em todo o planeta, que é um tanto quanto absurdo que somente oito membros (um da Inglaterra, um da Escócia, um da Irlanda do Norte, um do País e Gales e quatro da Fifa) decidam o que deve ser mudado no esporte.

Sendo assim, espera-se que haja bom senso, até porque ainda estamos nos habituando ao VAR, que está bem longe de ser unanimidade, já que provoca polêmica atrás de polêmica, e distantíssimo de cumprir o seu objetivo original, o de corrigir apenas “erros claros e óbvios”.

Que Wenger e o Ifab se conscientizem de que não há urgência para se criar ou mudar nenhuma regra. Como diz um velho ditado, “devagar com o andor, que o santo é de barro” (na explicação de Ana Scatena, “não se apresse, pois a precipitação pode causar problemas”).