A blindagem da arbitragem

Faz 15 dias que o Bayern de Munique conquistou o Mundial de Clubes.

Diante do Tigres, do México (o algoz do Palmeiras), a equipe alemã se mostrou muito superior, como era esperado de um time recheado de estrelas, porém o resultado final foi um magro 1 a 0.

E com um gol, de Pavard, irregular. Antes de a bola sobrar para o lateral francês (autor de um dos mais belos tentos da Copa do Mundo de 2018), em dividida pelo alto do goleiro argentino Guzmán com o atacante Lewandowski, a bola tocou no braço do artilheiro polonês.

A atual regra do futebol afirma que, independentemente de ter havido intenção, quando a redonda bate na mão ou no braço de um atleta do time que ataca, em jogada que resulte em gol, esse deve ser anulado.

Não foi. O árbitro uruguaio Esteban Ostojich não viu, nem nenhum de seus assistentes no campo, os bandeirinhas Nicolás Taran e Richard Trinidad, também uruguaios.

E, em princípio, “tudo bem não ver”. (Entre aspas porque o ideal é ver.)

Sendo essa uma partida importantíssima, a mais importante entre todas as disputadas por clubes na temporada, já que definia o campeão do mundo, havia, “dando cobertura”, a visão de quem tudo vê, pois amparado que está por uma dezena de ângulos de todos os lances: o VAR (árbitro assistente de vídeo).

No caso da decisão no estádio Cidade da Educação, em Doha (Qatar), o VAR era Julio Bascuñán, do Chile. Que certamente viu e reviu o lance. Mas não houve a orientação a Ostojich para que o gol fosse invalidado.

E, desse modo, com um gol ilegal, o Bayern amealhou seu quarto título mundial.

O que aconteceu? Bascuñán, mesmo tendo checado a jogada em várias câmeras, não enxergou que a bola encostou no braço de Lewandowski antes de chegar a Pavard?

Isso é possível, pois mesmo todo o aparato tecnológico pode ser insuficiente para que um ser humano, por mais preparado que seja –e um árbitro em uma final de Mundial sem dúvida é–, enxergue tudo sempre.

Deveria ter visto? Sim, estava lá para isso. Não viu? É o que suponho. Saberemos? Se ele ou a Fifa falarem sobre isso, sim.

Vão falar? Talvez. Mas não será agora.

Tentei obter da Fifa, a entidade máxima do futebol e organizadora do Mundial de Clubes, informações sobre esse gol.

Fiz as seguintes perguntas: Por que, depois de ver o lance em várias câmeras e ângulos, o VAR não recomendou a anulação do gol de Pavard? O que o VAR disse sobre essa jogada? Ele não viu a bola bater no braço de Lewandowski? A Fifa considera que houve erro do VAR nesse lance? Se sim, que providências podem ser tomadas?

Houve resposta. Aliás, nisso a Fifa deve ser elogiada. Não lembro de alguma vez a federação me ter deixado sem resposta. Mesmo que a resposta tenha sido improdutiva ou insatisfatória, como desta vez.

Por meio de um porta-voz, assim ela se manifestou: “A Fifa usualmente não faz comentários referentes às decisões dos árbitros em uma partida. Entretanto devemos lembrar que a Regra 5 [do futebol] diz que ‘o juiz deve ser auxiliado pelo VAR somente quando houver erro claro e óbvio ou um incidente sério não visto’”.

O gol do Bayern foi inicialmente invalidado, com a marcação do impedimento.

O VAR (Bascuñán) reviu esse apontamento, e a verificação concluiu que não havia essa irregularidade, fazendo com que o juiz de campo (Ostojich) voltasse atrás.

O problema é que a bola bateu no braço esquerdo do camisa 9 da equipe bávara. Não se tratava de um “erro claro e óbvio”, mas claramente e obviamente foi um “incidente sério não visto” pelo árbitro principal. E o VAR fez mal a cobertura. Falhou.

Por que falhou? Repito: ainda não há essa resposta.

A Fifa não ajudou, então tentei obter a versão de Bascuñán.

Solicitei por email, tanto à Federação de Futebol do Chile como à Confederação Sul-Americana de Futebol, o contato do árbitro, para que ele pudesse esclarecer. Não chegou resposta nem de uma nem de outra entidade.

O chileno Julio Bascuñán foi o árbitro assistente de vídeo (VAR) na decisão do Mundial de Clubes entre Bayern e Tigres (Luisa Gonzalez – 18.jun.2019/Reuters)

Claramente há uma blindagem à arbitragem. Os árbitros não falam sobre suas decisões nos jogos.

Não há norma que impeça que se pronunciem, mas não se quer, por algum motivo, da parte deles e/ou da parte de seus superiores, que eles tenham voz.

Depois de cada jogo, os treinadores falam, jogadores falam (cada vez menos, mas falam). Jamais alguém da equipe de arbitragem fala.

Para aproximar essa questão do leitor, no nosso campeonato, o Brasileiro, que se encerrou nesta quinta (25), em toda rodada comentaristas de rádio, TV e internet tentam explicar marcações (ou não marcações) polêmicas.

São tentativas válidas, mas que acabam se restringindo a achismos, a possibilidades. Não há certezas, e sim confabulações.

Para exemplificar, duas marcações recentes, que ocorreram na segunda metade deste mês.

1) Em São Paulo 1 x 1 Palmeiras, na sexta (19) no Morumbi, Leandro Vuaden deixou de dar um pênalti no palmeirense Luiz Adriano.

Ele pode ter achado que não foi pênalti? Pode. Seria um argumento válido.

Seria. Perde sua força porque em Palmeiras 0 x 2 São Paulo, no primeiro turno, o mesmo Vuaden deu um pênalti para o São Paulo em um lance, se não idêntico, parecidíssimo.

2) Em Flamengo 2 x 1 Internacional, no domingo (21) no Maracanã, Raphael Claus expulsou o lateral Rodinei, do time gaúcho, depois de ter sido chamado pelo VAR, Rodrigo Guarizo do Amaral, para observar jogada dele com o lateral flamenguista Filipe Luís.

Claus não deu nem falta no lance em que Rodinei claramente pisou no tornozelo do adversário. Possivelmente, não viu. Alertado pelo VAR, constatou a falta no equipamento de vídeo que fica na lateral do campo e constatou também que o agressor deveria ser expulso.

Só que em 2019, em um Flamengo x Botafogo, o mesmo Claus, em lance igualmente de pisão, de Cuéllar em Marcinho, até mais violento que o de Rodinei em Filipe Luís (com o agravante de ter pegado por trás), mostrou somente cartão amarelo ao flamenguista.

O VAR, Thiago Peixoto, que poderia intervir e solicitar revisão a Claus, aparentemente não o fez.

Sem ouvir Claus, sem ouvir Vuaden, sem ouvir Peixoto, ninguém nunca vai compreender o critério utilizado pelos juízes.

Só eles podem explicar, e seria ótimo que explicassem, para que jornalistas e torcedores tenham esclarecimento, saibam qual é a lógica (se é que existe uma).

Porém, infelizmente, isso não aconteceu e não acontecerá.

Questionei a Confederação Brasileira de Futebol acerca do motivo de os árbitros não darem entrevistas depois dos jogos, com a finalidade de comentarem suas atuações.

A CBF afirma seguir uma orientação do Ifab, órgão que regulamenta as regras do futebol, segundo a qual os árbitros não devem dar declarações na véspera dos jogos nem ao término dos mesmos.

A entidade ressalta que não há nenhum documento que comprove essa recomendação do Ifab, mas que ela é passada nos encontros anuais do órgão com as confederações nacionais.

Não tenho por que duvidar dessa versão, até porque não tenho uma que a conteste, só que é heterodoxo não existir nada por escrito a respeito de um tema tão em evidência e é estranho que os responsáveis por tratar das regras do esporte sejam aqueles a “amordaçar” os árbitros (por que fariam isso?).

Um motivo mais plausível para a blindagem seria simplesmente este: uma questão de preservação.

Árbitros erram, sim, e nem a tecnologia de vídeo os tornará infalíveis. Isso é fato, e ocorre com muita frequência.

Não falando, eles ficam menos sujeitos a confrontações que podem, se bem embasadas, escancarar suas deficiências e, principalmente, a tremenda falta de critério, não só coletiva como, muito pior, individual. Muitas carreiras certamente iriam pelo ralo.

Se for pensado assim, a blindagem da turma do apito faz todo o sentido. Pois, para tentar explicar o inexplicável, é melhor nem tentar.

O silêncio, nesse caso, age como contenção de danos, como autoconservação do profissional.

Se for pensado assado, a blindagem torna a arbitragem menos transparente, dando a nítida impressão de que é ruim, mal orientada ou até mal-intencionada, impressão que em nada ajuda os já tão criticados e mal falados juízes de futebol.

O silêncio, nesse caso, é confissão de culpa, atestado de incompetência e delator de suposta má-fé.