Regra da mão na bola confronta ação natural do corpo humano

Há um sério problema na atual regra do futebol que trata da mão na bola/bola na mão.

No ano passado, o Ifab (International Football Association Board), órgão que cuida das leis do mais popular esporte do planeta, modificou a redação do artigo que versa sobre o tema.

Foi incluído que o time deve ser punido com a marcação de falta se um de seus jogadores “tocar a bola com sua mão ou braço quando o braço tornar seu corpo não naturalmente maior”.

O que intriga/confunde é esse esquisitíssimo “não naturalmente maior”.

Explicando: se o braço estiver afastado do corpo do atleta (isso tornaria o corpo “não naturalmente maior”) e a bola bater nele (ou na mão), o árbitro deve assinalar a falta.

Não importa se o ato do jogador é intencional ou não. Tempos atrás, o juiz interpretava se era “mão na bola” (falta, para o jogo) ou “bola na mão” (nada, segue o jogo).

O argumento do Ifab para a alteração na redação foi justamente o de tirar a subjetividade dos lances.

Uma bobagem, já que qualquer um que olhe para uma jogada em que a bola toca na mão/braço de alguém sabe se houve dolo ou não do jogador em cuja mão/braço ela tocou. Basta olhar o movimento, verificar se o atleta mexe o braço ou a mão para ir ao encontro da redonda.

Mas adianta querer que os ditos entendidos enxerguem o óbvio? Não, pois para esses expertos nem todo óbvio é óbvio.

De todo modo, o que vale atualmente é “toda bola na mão (lance fortuito) é mão na bola (lance faltoso)”, a não ser que a mão (ou braço) esteja grudada ao corpo.

Ora, no futebol isso é impossível.

O que não é natural (já que a regra atual fala em “naturalmente”), como pertinentemente escreveu Henry Bushnell no Yahho! Sports, é o jogador manter o braço colado ao corpo o tempo todo.

Não dá para correr desse jeito (nem andar dá), é complicadíssimo saltar desse jeito. Só é realizável com uma manobra restritiva: se todos jogassem amarrados, com as mãos esticadas e unidas, nas costas, na altura das nádegas.

Aí se terá 100% de certeza de que ninguém vai tocar a mão na bola. E aí muda-se o nome do esporte para “atadobol”, “amarradobol” ou algo similar.

Escrevo isso com base em diversos lances que vêm ocorrendo, especialmente os dentro da área, os quais, com ou sem a intervenção do VAR (árbitro assistente de vídeo) –essa tecnologia “justiceira” (entre aspas porque nem sempre é justa) já incorporada ao futebol–, resultam em polêmicas fundamentadas.

Com a ajuda da tecnologia, árbitro checa lance de possível pênalti por bola na mão em Tottenham x Newcastle, pelo Campeonato Inglês (Reprodução/Canal do Tottenham no YouTube)

Tomo o Campeonato Inglês (Premier League), que é a competição que mais acompanho, como exemplo.

No fim de semana que passou, o Tottenham ganhava por 1 a 0 do Newscastle até os acréscimos do segundo tempo.

Falta para o Newscastle, bola alçada na área, o atacante Carroll cabeceia, e a bola é desviada no braço do zagueiro Dier. Que estava centímetros à frente do rival, pulando para igualmente cabecear a bola, e de costas para ele.

O braço direito do defensor, sim, estava um pouco afastado do corpo. Por quê? Porque, ao pularem, os jogadores usam os braços para ajudar no impulso, e eles se descolam do corpo. Nada é mais natural que isso.

Nem que quisesse Dier teria tempo para recolher o braço. Enfatizo: ele estava de costas para Carroll. Nem viu a bola tocar nele, só sentiu.

O árbitro (Peter Bankes) nada marcou, mas, alertado pelo VAR (Lee Mason), reviu o lance e apontou para a marca da cal. Pênalti batido: gol. Fim de jogo: 1 a 1.

Bankes não errou. Nem Mason. Seguiram a regra. O árbitro está certo, tanto o de campo como o de vídeo.

A regra é que está errada. Pois pune inocentes. Pune quem não tem a intenção de botar a mão na bola, quem não tem a intenção, naturalmente, de prejudicar o próprio time.

Naturalmente é impossível concordar com essa regra. É necessário bom senso e que ela seja revista. Ou, então, que se dê por morto o futebol e se instaure o “amarradobol”.

O tamanho do ridículo se encaixaria perfeitamente em um jogo que se vê amarrado a uma determinação ilógica, irritante, ridícula.