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Preterido por Tite, Fabinho busca ser mais decisivo no Liverpool

Titular do meio-campo do Liverpool, o volante Fábio Henrique Tavares, o Fabinho, viveu no dia 17 de maio, há menos de três meses, uma inesperada frustração.

Em ótima fase no clube, que o contratou do Monaco (França) no meio do ano passado, ficou fora da lista da Copa América, quando julgava ser merecedor de estar nela.

“Pelo momento que eu estava no Liverpool, eu acreditava que estaria na lista”, disse o jogador de 25 anos, por telefone, a este blogueiro. “Fiquei um pouco surpreso por não estar nela.”

Os brasileiros colegas de time, o goleiro Alisson e o atacante Firmino, foram lembrados pelo técnico Tite.

Polivalente – joga atualmente no meio-campo, mas por muito tempo foi lateral-direito –, Fabinho buscou rapidamente esquecer o fato, pois tinha uma importantíssima final pela frente, a da Liga dos Campeões da Europa.

Com ele em campo, o Liverpool derrotou o Tottenham por 2 a 0, no dia 1º de junho, e se sagrou campeão da mais badalada competição interclubes do planeta pela sexta vez – a melhor marca entre equipes da Inglaterra.

Para a Copa América, Tite optou pelos volantes Casemiro, Arthur, Allan e Fernandinho, e pelos laterais Daniel Alves e Fagner.

“O Tite achou no momento que devia contar com aqueles jogadores. E deu certo, porque a seleção saiu com o título da Copa América”, conforma-se Fabinho, que é natural de Campinas (SP).

Ele não desistiu, entretanto, de buscar espaço na seleção.

Para isso, planeja se manter em alta no Liverpool e evoluir em aspectos que não considera ideais: finalizar mais de fora da área e ser mais decisivo nos passes para os perigosos atacantes do time (Salah, Firmino e Mané).

Em sua temporada de estreia pelo Liverpool, Fabinho participou de 28 jogos da Premier League (o Campeonato Inglês), fez apenas um gol e deu duas assistências.

Em 2017/2018, pelo Monaco, em 34 partidas no Campeonato Francês, ele balançou as redes sete vezes e contribuiu com três passes que resultaram em gols.

Na entrevista, o camisa 3 falou também sobre o longo jejum do Liverpool no Inglês, do qual não é campeão desde 1990, da estreia do VAR (árbitro de vídeo) na competição que começa nesta sexta (9), dos jogadores em que busca, ou buscou, se espelhar e de sua vida extracampo na Inglaterra.

Ladeado pelo goleiro Alisson e pelo atacante Roberto Firmino, Fabinho segura o troféu da Champions League depois da vitória por 2 a 0 sobre o Totenham, em Madri (Javier Soriano - 1º.jun.2019/AFP)
Ladeado pelo goleiro Alisson e pelo atacante Roberto Firmino, Fabinho segura o troféu da Champions League depois da vitória por 2 a 0 sobre o Tottenham, em Madri (Javier Soriano – 1º.jun.2019/AFP)

Qual sua avaliação sobre a temporada 2018/2019 do Liverpool?
Fabinho: Foi uma temporada muito boa, a minha temporada de estreia no Liverpool. O começo não foi tão fácil, eu tive que ter um pouco de paciência. Na Inglaterra as competições são bem duras, exigem muito fisicamente, e eu não estava pronto. Mesmo não sendo titular, eu entrava nos jogos, tive uma sequência boa e consegui me adaptar bem à equipe e ao ritmo da liga, que é totalmente diferente do que eu estava acostumado. Principalmente nos últimos seis meses passei a ter uma posição de destaque, comecei a jogar quase sempre, era a primeira opção para ser titular, e terminei a temporada muito bem. Coletivamente foi muito bom também, o Liverpool construiu essa equipe para conquistar coisas importantes, e nós sabíamos que com a qualidade que tínhamos poderíamos chegar às finais das competições. Fizemos uma Premier League excelente, 97 pontos, e em qualquer ano normal nós seríamos campeões, mas tivemos um concorrente que teve um nível espetacular, que foi o Manchester City [que terminou com 98 pontos]. E nós conseguimos ganhar a Champions League [a Liga dos Campeões]. Então os números da temporada foram realmente espetaculares, e seria uma pena terminar sem ganhar nada. Esse título da Champions foi um prêmio por tudo o que nós fizemos.

O que faltou para o título da Premier?
Fabinho: Eu conversei com os jogadores, principalmente com os brasileiros, depois do final do campeonato, e nos perguntamos em qual momento cada um achava que perdemos o título. E a gente não achava esse momento. O City nos ultrapassou quando nós tivemos dois empates, contra o West Ham e contra o Leicester, e depois empatamos contra o Manchester [United] e contra o Everton. Mas fizemos um campeonato quase perfeito [uma só derrota em 38 partidas, 2 a 1 para o Manchester City], tivemos a melhor defesa e um dos melhores ataques, o artilheiro [Salah e Mané fizeram 22 gols cada um, assim como Aubameyang, do Arsenal] e o melhor jogador [Van Dijk]. Então não houve muito o que lamentar, só o título não ter vindo.

O Liverpool não é campeão inglês desde 1990. Você sente que há pressão da torcida e dentro do clube em relação a isso?
Fabinho: Pressão tem um pouco, é normal, o Liverpool é um grande clube. Eu acredito que os torcedores preferiam ganhar a Premier League do que a Champions League, havia um pouco de ansiedade neles. Estamos tranquilos, sabemos da dificuldade que é ganhar esse título, é o campeonato mais disputado que tem na Europa. Nosso elenco está preparado, e vamos ver se dessa vez será a nossa vez.

A equipe joga em alta velocidade, e você tem como característica um jogo mais cadenciado. Como lida com isso?
Fabinho: Com a bola talvez eu seja um pouco mais cadenciado, gosto de trabalhá-la um pouco mais. Mas creio que me adaptei ao estilo do Liverpool, uma equipe que realmente tem na intensidade a sua força, principalmente sem a bola tenta pressionar a todo momento, e nesse aspecto eu tive que melhorar, que me adaptar, e eu acho que consegui estar no nível do resto da equipe. Mas há momentos no jogo em que não só eu, mas outros jogadores, tentam circular mais a bola. É natural no jogo ter momentos em que se precisa cadenciar mais, mas na maior parte do tempo a gente tenta fazer tudo com alta intensidade.

Com os cabelos pintados com as cores do Monaco, Fabinho celebra gol diante do Rennes no ano em que a equipe conquistou o Campeonato Francês (Damien Meyer – 20.mai.2017/AFP)

Como foi a sua mudança da lateral para o meio de campo?
Fabinho: Essa mudança foi no Monaco. O treinador, Leonardo Jardim, gostava muito de me alternar nas posições. Em alguns jogos na lateral, em outros no meio-campo. E na temporada 2016/2017, antes de começar a temporada, ele chegou e falou: ‘Ó, Fabinho, eu contratei um lateral-direito porque quero que você jogue no meio-campo nesta temporada’. E naquele momento eu vinha sendo convocado para a seleção brasileira, já era muito conhecido como lateral, meu mercado era como lateral, mas eu aceitei o desafio. E acho que foi uma das melhores decisões que eu tomei porque aquele ano foi um dos meus melhores, nós jogamos muito bem e fomos campeões com o Monaco na França. O Monaco não era campeão fazia 17 anos. Eu fui um dos destaques da equipe, e portas começaram a se abrir para mim como meio-campo. Um ano depois, eu estava no Liverpool. Sempre acreditei que eu pudesse chegar à seleção como volante também, e cheguei e fiquei muito feliz por isso. E agora eu busco evoluir sempre nessa posição. Claro que eu não desaprendi a jogar de lateral, a polivalência é uma das minhas forças. No Liverpool eu ainda não atuei de lateral, mas cheguei a atuar de zagueiro, o treinador [Jürgen Klopp] sabe que pode contar comigo nessas posições. Isso só me ajuda.

Qual foi sua reação ao não ser convocado para a Copa América?
Fabinho: Eu esperava ser convocado. Desde as primeiras convocações após a Copa do Mundo eu estive presente, consegui jogar alguns jogos e tive boas atuações. Também por estar vivendo um bom momento no Liverpool, que tinha acabado de vencer o Barcelona [4 a 0] e ido para a final da Champions League. Então eu esperava estar na lista do Tite. Quando saiu a lista, fiquei um pouco surpreso de não estar nela. Mas não podia ficar me lamentando muito, pois tinha que me preparar para a final da Champions League. Procurei não pensar nisso.

Se continuasse a jogar na lateral, não teria mais chance na seleção, já que no meio a concorrência é maior?
Fabinho: Olha, pelo momento que eu estava no Liverpool como meio-campo, eu acreditava que estaria na lista como meio-campo, ou como lateral, pois já tinha sido convocado para jogar ali. Mas eu estava bem confiante de ir como meio-campo. Como você disse, a concorrência é grande. O Casemiro joga no Real Madrid, o Arthur no Barcelona, o Fernandinho no Manchester City. São jogadores que atuam em alto nível e estão acostumados à pressão dos grandes jogos. Mas mesmo assim eu acreditava que merecia um lugar ali. O Tite achou no momento que devia contar com aqueles jogadores. E deu certo, porque a seleção saiu com o título da Copa América.

Na sua carreira você tenta, ou tentou, espelhar-se em algum jogador?
Fabinho: Eu procurava me espelhar, quando era mais jovem e lateral-direito ainda, em dois jogadores, que eram o Cafu [capitão da seleção pentacampeã mundial, em 2002] e, principalmente, o Maicon [presente nas Copas do Mundo de 2010 e 2014]. Eu me espelhava muito no Maicon porque fisicamente ele era muito parecido comigo e eu gostava muito do estilo dele de jogar na lateral. Era um cara de muita força, muita potência. Depois eu mudei para o meio-campo. Gosto muito do Sergio Busquets [Barcelona]. Ele não aparece muito, mas é essencial ali. A maneira de ele jogar, dificilmente se encontra alguém parecido. Gosto do Kanté [Chelsea] também.

O lateral Maicon, em quem Fabinho procurava se espelhar quando atuava nessa posição, vibra em Brasil x Coreia do Norte na Copa do Mundo da África do Sul (Valery Hache – 15.jun.2010/AFP)

O que falta no seu jogo? Em que você precisa evoluir para se tornar um jogador melhor?
Fabinho: Um dos aspectos que quero evoluir, que todos falam que eu posso melhorar para ser um jogador de um nível melhor, é a minha finalização de fora da área. Eu creio que eu tenho que arriscar mais. Também tenho que ser mais decisivo no último passe, ali no meio-campo [do Liverpool] temos muita oportunidade de meter uma bola em profundidade, nas costas da defesa, é algo que eu quero melhorar. A minha perna ruim é algo que também quero melhorar. São as coisas em que eu tenho focado mais.

Você teve passagens por Fluminense (2012) e Real Madrid (2012/2013). O que se lembra delas?
Fabinho: Fui para o Fluminense depois de ter jogado uma Copa São Paulo [de juniores, a Copinha] pelo Paulínia e fiquei um ano e meio. Foi uma experiência muito boa, a equipe era muito boa, chegamos em quatro finais de campeonatos que disputamos. Final de Brasileiro sub-20, uma final da Copinha. Eu não cheguei a jogar no profissional do Fluminense. Eu gostaria, mas isso não aconteceu. Mas é uma equipe pela qual tenho muito carinho, foi uma vitrine pra mim, pude demonstrar meu futebol e aparecer para outros clubes. Depois da Copa São Paulo eu fui convocado para a seleção sub-20, fui disputar um campeonato na África do Sul, e depois desse campeonato eu fui vendido. Fui para o Rio Ave, de Portugal, onde fiquei muito pouco tempo. Fui para o Real Madrid. Foi impactante. Um mês e meio antes eu estava em Xerém [onde treinam a categorias de base do Fluminense, em Duque de Caxias] e, agora, em Madri. Foi uma mudança bem rápida, e esse ano no Real Madrid foi o meu primeiro como profissional. Fui para a segunda equipe [Real Castilla], e nós jogávamos a segunda divisão do Campeonato Espanhol. A segunda divisão lá tem um nível muito bom. Eu pude jogar bastante, me desenvolver bastante e conhecer um pouco do que é o Real Madrid. É incrível a estrutura, o centro de treinamento que eles têm. É um clube gigante, tudo que envolve o Real Madrid tem uma proporção gigantesca. Ver isso de perto foi realmente algo muito legal.

Mas você deixou o Real Madrid sem conseguir uma vaga no time principal.
Fabinho: Eu era jovem ainda, podia ter esperado um ano mais lá, tive uma reunião e eles queriam que eu ficasse. Disseram que tinha a possibilidade de eu subir para a primeira equipe, mas que eu iria começar na segunda equipe. Como na época apareceu o Monaco, que tinha acabado de voltar para a primeira divisão do Campeonato Francês e estava investindo muito na equipe, com um planejamento muito bom, eu decidi que era a oportunidade de eu começar já de um nível mais alto, e foi uma escolha certa a que eu fiz.

Quais as diferenças do futebol francês para o inglês?
Fabinho: Primeiro, a intensidade, a velocidade. Aqui na Inglaterra é algo incrível, eu nunca tinha visto em nenhum outro lugar. Se você demorar um pouco mais pra pensar, já tem dois jogadores roubando a bola. Depois, a questão financeira. Todas as equipes têm a possibilidade de contratar bons jogadores, isso ajuda para que a qualidade do campeonato seja muito grande. Independentemente da equipe que seja, ela dificulta o jogo. Na França tinha bastantes jogos que nós sabíamos que íamos ganhar, que pela nossa qualidade individual nós íamos ganhar. E aqui isso dificilmente acontece, as equipes têm um estilo de jogo bem duro e jogadores de qualidade em todas as equipes.

O VAR, o árbitro assistente de vídeo, fará sua estreia na Premier League neste ano. Qual sua expectativa?
Fabinho: O VAR demonstrou nos outros campeonatos que é algo que pode ajudar bastante. Só não gosto quando o jogo fica muito parado. As decisões têm que ser tomadas um pouco mais rápido, pelo espetáculo, pois são decisões que não precisam de tanto tempo. Ou chamam o árbitro [para checar o lance no monitor] ou não. Eles têm a imagem rápido lá, têm o replay bem rápido. Aqui, como é um campeonato com muito contato, com uma força diferente da de outras ligas, vamos ver como vai funcionar. Não sabemos como será o critério dos árbitros, se vão querer parar bastante. Mas isso eu não acredito, porque os árbitros aqui gostam de deixar rolar bastante a bola.

O que você almeja para a temporada 2019/2020?
Fabinho: Quero dar prosseguimento ao meu crescimento. Desde que cheguei ao Liverpool, tive um crescimento muito grande, consegui ter uma importância grande na equipe, quero dar neste ano uma continuidade nisso, seguir sendo importante para a equipe. E coletivamente seguir lutando pelos títulos, que é o que a gente tem em mente no Liverpool. Fomos campeões, e isso nos dá mais confiança para lutar pelos títulos. Acho que se eu estiver bem no clube, jogando e mantendo um bom nível, as portas vão se abrir para uma futura convocação para a seleção.

Fabinho e a esposa, Rebeca, no Réveillon de 2019 (Reprodução/Instragram de Fabinho)

Como é a sua vida fora do gramado na Inglaterra?
Fabinho: Sou casado, vivo com minha esposa. Liverpool é uma cidade em que faz bastante frio, chove bastante, não tem tanta coisa para fazer. Nós, brasileiros, estamos sempre juntos aqui. Eu moro bem perto do Firmino, estou sempre enchendo o saco lá na casa dele. Eu e minha mulher gostamos muito de ir a restaurantes quando temos tempo livre, comer um sushi. Sou um cara bem caseiro também, então não tenho problema de ficar em casa, não. Mas às vezes dá para dar uma saidinha, levar a esposa para algum lugar. Vamos a Manchester, que é perto, tem um shopping legal. Quando tem um dia livre, essas são as coisas que costumamos fazer.

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