O milagre e a tragédia de Anfield

Incrível. Épico.

Com essas duas palavras um conhecido, profundo conhecedor de futebol, resumiu em mensagem de WhatsApp a goleada por 4 a 0 que o Liverpool aplicou no Barcelona e que, contrariamente a todos os prognósticos, classificou o time inglês para a final da Champions League.

Consequentemente, a equipe espanhola foi eliminada da mais badalada competição interclubes do planeta, seis dias depois de ter derrotado, no Camp Nou, o rival desta terça (7) por um expressivo 3 a 0, com atuação esplendorosa de Messi.

O mesmo Messi que sumiu na maior parte do jogo que, bem antes do término, eu já anunciava na Redação da Folha, para quem quisesse ouvir, que seria, caso o Liverpool se classificasse, conhecido eternamente como “O Milagre de Anfield”.

Anfield, informo ao leitor leigo, é o nome do estádio do Liverpool, palco da partida de volta da semifinal entre o time que veste vermelho e o que geralmente usa azul e grená.

Sucumbiu, porém, trajando amarelo, cor mais que conveniente para a tremenda pipocada de Messi e companhia.

“O Milagre de Anfield”, todavia, serve apenas para os torcedores/simpatizantes do Liverpool, ou para aqueles que, como eu, são neutros e querem tão somente fortes emoções e altas doses de divertimento a cada jogo.

Pois na ótica dos que amam o Barcelona, Messi, a Catalunha, essa partida ficará na memória como “A Tragédia de Anfield”.

Tragéfia pelo pífio futebol apresentado, muito, mas muito aquém daquele que o Barça costuma oferecer, com troca de bola envolvente e perigo constante ao gol adversário – viu-se o contrário.

Tragédia pela atuação horrenda de uma defesa que nos mata-matas desta Champions tinha sofrido, até a ida a Liverpool, um único gol em cinco partidas – e que nem doera, pois na goleada por 5 a 1 sobre o Lyon, nas oitavas de final.

Tragédia por ficar nos anais o seguinte registro: nunca em 64 anos de Champions League uma equipe foi eliminada tão perto da final ao ter vantagem tão grande de gols antes do jogo de volta. Só o Barcelona, agora.

Tragédia, mais que coletiva, particular para um dos melhores da história do ludopédio: Lionel Messi, que no início da temporada declarou à torcida azulgrana que a prioridade era levar de volta ao Camp Nou aquele “lindo e desejado troféu”.

O craque argentino, capitão do Barça, referia-se obviamente à taça da Champions League, longe do clube desde 2015 – e que assim permanecerá pelo menos até 2020.

Veja os gols da goleada do Liverpool sobre o Barcelona no jogo de volta da semifinal da Liga dos Campeões da Europa (Reprodução/Site da Uefa)

Em tempo: Messi, descrente em campo no que via, não abriu a boca, ao menos não publicamente, no tempo em que, encerrado o duelo, permaneceu no Anfield. Introspectivo que é, deve estar calado até agora. Uma hora, no entanto, pela insistência da imprensa, terá de falar dessa tragédia, claramente o pior revés de sua trajetória de quase 15 anos como profissional do Barcelona. Esperemos.