Bronze é ouro

Na semana passada, a Fifa realizou virtualmente, devido à pandemia de coronavírus, a edição de 2020 do prêmio The Best, na qual são eleitos os melhores jogadores e treinadores do período.

Divulgou-se amplamente que o polonês Robert Lewandowski, do Bayern de Munique, ganhou (merecidamente, diga-se) pela primeira vez, na categoria masculina, superando Cristiano Ronaldo (Juventus) e Messi (Barcelona), os maiores nomes do esporte desde o fim da década passada.

O que não se divulgou amplamente, ou não teve repercussão maciça, foi que a inglesa Lucy Bronze, de 29 anos, do Manchester City, faturou, também de forma inédita, o prêmio entre as mulheres.

Nada surpreendente, já que o interesse pelo futebol praticado entre os homens sempre foi, é, e por algum tempo ainda será, superior ao entre as mulheres.

É uma questão histórica e, por que não, de preferência mesmo. O ritmo e a intensidade de um jogo masculino são evidentemente maiores, devido ao fator físico, e para a maioria dos aficionados por futebol isso conta muito.

Além disso, a oferta de confrontos de futebol feminino a serem vistos pela TV é mínima.

Eu não tenho o hábito de ver partidas delas. Não é preconceito, é falta de encanto –os jogos parecem acontecer em câmera lenta.

Acompanhei no mês passado o duelo de volta de uma das semifinais do Campeonato Brasileiro, Avaí Kindermann x São Paulo, e devo ter dado azar, pois o nível técnico esteve péssimo. No segundo tempo, era raro ver uma sequência de três passes certos. Muito chutão, tática zero. Desanimador.

É diferente, contudo, na Copa do Mundo, recomendável a todos, pois o nível sobe de forma extraordinária. Dá gosto ver as mulheres nesse evento –só que ele só é realizado a cada quatro anos.

Sobre Bronze, gostaria de enaltecer os atributos dela como jogadora, mas é preciso ser honesto e relatar que a vi jogar uma única vez, em partida da Inglaterra no Mundial de 2019, na França, a semifinal contra os EUA.

As norte-americanas ganharam por 2 a 1, e a lateral-direita, que já era badalada, não teve grande atuação.

Não duvido de que seja ótima e consistente, já que na premiação da Fifa teve votos suficientes para superar a artilheira dinamarquesa Pernille Harder, do Chelsea –atacantes, por fazerem mais gols, o que lhes dá mais visibilidade, quase sempre ganham eleições desse tipo.

Bronze, que defendeu o Lyon até setembro, ganhando neste ano a Champions League, faz bonito também fora das quatro linhas.

Quando estava na França, ela fez visita a hospital focado nos cuidados a mulheres (ginecologia) e crianças (pediatria), que conta com um programa de orientação educacional e cultural aos pequenos, e expôs sua experiência em postagem na internet.

Jogadores e jogadoras devem dar bons exemplos à sociedade, pois são admirados e idolatrados. Assim, é válido e importante enaltecer as atividades realizadas por eles e elas, dimensionando-as, para que ecoem, atraiam, estimulem, conscientizem.

No caso de Bronze, ela dedica-se rotineiramente a causas infantis.

“Coisas realmente próximas a mim são [as relacionadas a] crianças, embora eu também ame os animais”, disse, em entrevista publicada em agosto no site da Associação dos Futebolistas Profissionais de seu país.

No Reino Unido, a atual melhor jogadora do mundo atua na Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade contra Crianças.

“Amo dar apoio às crianças, e me envolvo, faço pequenas coisas para ajudar: colaboro para promover a filantropia e incentivo as pessoas a se doarem mais.”

Lucy Bronze conversa com criança em visita ao hospital Femme Mère Enfant, em Lyon, em dezembro de 2019 (Reprodução/Instagram de Lucy Bronze)

Bronze também colabora com uma organização que arrecada fundos para amparar a população jovem da cidade de Ndhiwa, no Quênia (África).

“A Team Kenya orienta predominantemente as meninas, ajudando-as a superar algumas experiências horríveis”, afirmou a atleta. Educação, segurança, princípios morais e direitos humanos são prioridades.

E ela se mantém atuante nas redes sociais (tem 254 mil seguidores no Instagram, 105,7 mil no Twitter e 52,2 mil no Facebook), por onde almeja, afirma, “expandir a mensagem”.

“Uso para compartilhar minhas experiências e ajudar em ações de caridade. Muita gente pede ajuda, e gostaria de ajudar todos, mas faltam horas no dia. Os fãs ampliam esse alcance.”

Por essas e outras, não somente em campo mas fora dele, Bronze merece a medalha de ouro.

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Em tempo: Na eleição da Fifa, uma inglesa (Bronze) ocupou o primeiro lugar, uma dinamarquesa (Harder), o segundo, e uma francesa (a zagueira Wendie Henard), o terceiro. Nenhuma brasileira ficou entre as 11 mais votadas, o que mostra uma carência na lacuna que está sendo deixada por Marta, ganhadora dessa láurea em 2018. Debinha, de 29 anos, meia-atacante do North Carolina (EUA), é considerada hoje a melhor jogadora do Brasil, de acordo com rankings do jornal The Guardian (13ª entre 100) e do site Goal (9ª entre 25).

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