Chelsea usa vídeo próprio para contestar eficiência do VAR
Mal começou o ano e ele, o famigerado VAR (video assistant referee, o árbitro assistente de vídeo), voltou – e, claro, trazendo polêmica.
Na terça (8), o estádio de Wembley recebeu o jogo de ida das semifinais da Copa da Liga Inglesa entre Tottenham e Chelsea, um duelo londrino.
Aos 23 minutos do primeiro tempo, o artilheiro Harry Kane recebeu um lançamento que partiu da defesa do Tottenham.
Os defensores do Chelsea olharam para o bandeirinha, viram que ele apontou impedimento e desaceleraram na jogada.
Kane, no entanto, prosseguiu e, dentro da área do Chelsea foi derrubado pelo goleiro Kepa, que não tinha visto auxiliar erguer a bandeira.
O árbitro Michael Oliver marcou o pênalti. Na sequência, dando-se conta de que o assistente Simon Bennett considerara Kane impedido, e diante das reclamações dos atletas dos Blues, recorreu ao VAR.
É importante abrir um parêntese aqui.
O VAR, que pode ser ativo (alertar o árbitro de campo) ou passivo (ser requisitado pelo árbitro de campo), pode ou deve atuar em quatro situações:
- Gol: houve falta ou impedimento no lance?
- Pênalti: foi incorretamente marcado ou deixou de ser marcado?
- Expulsão: o cartão vermelho foi exagerado ou faltou aplicá-lo?
- Erro de identidade: o árbitro advertiu o jogador errado?
Entre esses tópicos, há os que são interpretativos (o árbitro de campo pode ou não concordar com o árbitro de vídeo), casos do pênalti e da expulsão, e há os que são objetivos, como o impedimento.
Com o uso da tecnologia, em 100% das vezes haverá (ou deveria haver) acerto nos lances de impedimento. Por quê? Porque o sistema é (ou deveria ser) feito para verificar com exatidão a posição do jogador no momento em que parte para receber a bola, suprimindo qualquer dúvida.
Fecho o parêntese.
No caso em questão, não é necessário o juiz ir à margem do campo conferir o replay, tanto que Michael Oliver não foi. Ao consultar a imagem congelada, o VAR dá o veredicto, que foi este, passado um interminável minuto e meio do início do lance (na verdade, um pouco mais, quase 1min40s): o lateral direito Azpilicueta, camisa 28 do Chelsea, deixava Kane, o camisa 10 do Tottenham, em condição de jogo.
O próprio Kane converteu o pênalti, e esse gol foi o único do jogo.
Encerrada a partida, o treinador do Chelsea, o italiano Maurizio Sarri, contestou em público a eficiência do VAR.
A seu favor, mais do que a marcação de campo (os olhos humanos, do bandeirinha, viram impedimento), exibiu um vídeo.
O Chelsea tem uma equipe de analistas que grava as partidas e ferramentas capazes de checar lances de possíveis irregularidades.
A imagem congelada do Chelsea aponta Kane em posição avançada, claramente à frente do último homem de defesa (Azpilicueta).
“Nossa câmera estava na linha com Kane, foi impedimento. Impedimento com a cabeça e o joelho. Impedimento”, declarou Sarri, assertivamente.
O vídeo do VAR, por seu lado, aponta que o centroavante estava – no limite – em posição legal.


Abro um outro parêntese, desta vez mais curto.
Quando o jogador está impedido?
Quando, estando no campo de ataque, há apenas um adversário (que normalmente é o goleiro), ou nenhum adversário, entre ele e o gol na hora da execução do passe, dado geralmente com a bola em jogo (não há impedimento em escanteios, tiros de meta ou arremessos laterais, mas na cobrança de faltas, sim).
Assim, ao ser lançado, o atacante precisa estar pelo mesmo na mesma linha do penúltimo defensor. Isso vale para o corpo, a cabeça, as pernas e os pés. Se os braços e/ou as mãos estiverem adiantados, não deve ser marcado o impedimento.
Fecho o parêntese.
Dada a conclusão de Sarri – pela câmera do Chelsea Kane está mesmo impedido –, decidi aprofundar o assunto, levá-lo para análise da FA, a federação inglesa de futebol, e para a Hawk-Eye, a empresa responsável pelos equipamentos da videoarbitragem.
O Chelsea tinha razão? Esse era o meu questionamento.
Se houvesse uma improvável resposta positiva, seria a desmoralização do VAR. O seu fim.
Nem a FA nem a Hawk-Eye se manifestaram oficialmente, o que mostra, no meu entendimento, que é um incômodo para ambas lidar com esse caso.
Obtive com uma pessoa próxima à comissão de arbitragem da FA as seguintes informações:
- a imagem que o Chelsea divulgou para a imprensa era de um ângulo ao qual o VAR não tinha acesso;
- a linha traçada na imagem do Chelsea para aferir a posição de impedimento não estava calibrada, o que questionaria a precisão da mesma;
- a imagem que o VAR usou para tomar a decisão mostra Kane impedido.
Nebuloso isso.
Depreendo que, caso a imagem utilizada pelo VAR fosse de um outro ângulo, seria possível haver uma deliberação distinta.
O que leva a crer que a propalada infalibilidade do VAR em ocorrências de impedimento, uma das grandes bandeiras dos defensores do celebrado sistema, não é infalível.
Os leigos e os entendidos que tirem suas conclusões.
Eu paro por aqui, ou pode parecer que volto a pegar no pé da tecnologia – já cansei de fazê-lo, estou em processo de aceitação, sei que existem prós, porém quando vir algo que possa questioná-la soarei o alarme.
Em tempo 1: Há uma outra questão nesse episódio. O bandeirinha Simon Bennett agiu acertadamente? Pois há a recomendação aos auxiliares para que, em caso de dúvida, não levantem a bandeira, que deixem a jogada terminar, já que o VAR está lá para auxiliá-los em lances difíceis. Se Bennett recebeu essa orientação, posso concluir que ou ele se esqueceu dela – pouco verossímil – ou teve certeza de que Kane estava em posição irregular.
Em tempo 2: Nada me fará mudar em relação a considerar o VAR, mesmo acertando na maioria dos casos, uma tremenda chatice. Acostuma-se com ele, sem dúvida, mas que estraga a dinâmica do jogo, ah, estraga – e sempre estragará.
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