“Proteção”, “roubo” e impunidade na Champions League
Pude assistir nesta semana a dois dos jogos de ida das quartas de final da Liga dos Campeões da Europa: Barcelona 2 x 1 Atlético de Madri e Paris Saint-Germain 2 x 2 Manchester City.
Ambos jogaços. Ótimos jogadores, grandes lances, esquemas táticos bem definidos, muitos gols, enfim, para quem gosta de futebol, um prato cheio.
Meu foco aqui será a partida no Camp Nou, vencida de virada pelo Barcelona com dois gols de Luis “El Pistolero” Suárez, depois de o Atlético sair na frente em finalização de Fernando “El Niño” Torres entre as pernas do goleiro Ter Stegen.

Torres e Suárez, aliás, foram protagonistas de polêmicas. O espanhol, depois de dar a vantagem ao time da capital, fez duas faltas tolas, porém dignas de cartão amarelo, em um intervalo de dez minutos e acabou expulso.
Companheiros de equipe e o treinador Diego Simeone se irritaram e se desesperaram, considerando ter havido exagerado rigor do árbitro alemão Felix Brych.
Torres, no entanto, reconheceu que poderia ter sido mais prudente. “Foi um dos piores dias da minha vida como jogador. Estou triste por ter deixado a equipe com dez (em campo). De alguma forma sinto-me responsável por o time não ter conseguido vencer.”
Cada árbitro avalia alguns lances em campo sob sua ótica, e o importante é não haver dois pesos e duas medidas. O Atlético pode até reclamar em relação a Torres, mas ficará por isso mesmo.
A queixa que faz sentido é a complacência com o uruguaio Suárez. Em duas jogadas, uma no primeiro tempo, outra no segundo, ele poderia ter recebido o cartão vermelho direto, pois foram, claramente, agressões.
Na primeira, chutou o lateral direito Juanfran sem bola, de forma escandalosa. Na segunda, atingiu com um tapa o rosto do lateral esquerdo Filipe Luís. Foram lances na área do Atlético, em momentos em que o Barcelona atacava. Pela falta em Filipe Luís, Suárez recebeu o cartão amarelo. Saiu barato.
Se nenhum dos integrantes do quinteto de arbitragem viu a primeira jogada (sim, são cinco em campo, o juiz principal e quatro auxiliares, dois nas laterais, dois atrás dos gols), eles precisam ou de óculos ou de um choque de atenção. Se um deles viu e ignorou, aí é preciso deixar em aberto a hipótese, repulsiva e na qual reluto em acreditar, de ter sido caso de má-fé.

Depois da partida, Filipe Luís não se conteve e indicou haver favorecimento da Uefa ao Barça. “Há proteção ao Barcelona. Você percebe o medo quando o Barcelona pode ser eliminado. Isso machucaria muito a Uefa”, disse o brasileiro.
Juanfran, visivelmente contrariado, preferiu não conceder entrevistas. Entretanto, ao passar rapidamente pela zona mista (onde o jogador solicitado pelos jornalistas interrompe seu trajeto caso queira falar), não aguentou e soltou um “baita roubo!”.
Haverá sanção da Uefa aos dois laterais do Atlético?
Há relatos de que Simeone ficou furioso com as declarações de Filipe Luís, temendo uma suspensão dele. O próprio treinador se conteve: “Não posso dizer o que que quero. Preciso pensar no que estou falando para não falar o que não devo”.
A Uefa, anteriormente, puniu dois treinadores de renome por críticas feitas à arbitragem na Champions League: José Mourinho, então no Real Madrid, recebeu cinco jogos de suspensão em 2011, e Manuel Pellegrini, do Mancheter City, três em 2014.
Até esta quinta (7), contudo, reinava o silêncio na entidade que controla o futebol na Europa.
Como a partida de volta é já na semana que vem, parece que os jogadores sairão incólumes. Algo perigoso, porque as declarações podem servir como precedente para futuras críticas e insinuações. Um convite à “boca livre”.
Perigoso porém, diga-se, razoável. Será bom para o espetáculo que o Atlético tenha esses dois titulares, Juanfran e Filipe Luís, na partida decisiva de quarta (13).
E Felix Brych, o árbitro? Está claro que não foi bem ao subestimar os lances de Suárez, que merecia, sim, a expulsão.
Irá para a geladeira, junto com os quatro camaradas que o auxiliaram no jogo em Barcelona?
Irá para uma reciclagem, que inclui assistir à partida umas dez vezes para identificar os erros?
Irá ouvir pelo menos um comentário do tipo: “Você não viu mesmo aquele pontapé escandaloso?”. (E aí o uso da tecnologia no futebol conquistará pontos valiosíssimos.)
Deveria, tudo isso. Mas duvido.