Viveremos em breve a era do futecbol

Por Luís Curro

A decisão partiu da International Board, o órgão que tem o poder de modificar as regras do futebol.

Serão feitos nos dois próximos anos testes para avaliar a implantação de mais tecnologia no esporte, a fim de ajudar a arbitragem a elucidar jogadas duvidosas, potencialmente evitando erros crassos. No Brasil, a CBF já quer pôr a medida em prática em alguns meses.

Escrevo “mais tecnologia” porque há algum tempo o juiz já se comunica com os auxiliares via áudio, por intermédio de um discreto microfone e de fones de ouvido.

Agora a novidade será a implementação de um sistema de vídeo, com a presença de um assistente fora das quatro linhas que dará sua posição em lances polêmicos.

Sempre fui bastante avesso à introdução da tecnologia no futebol, por considerar que tira um dos componentes (os erros de arbitragem) que caracterizam o jogo.

Com os recursos de vídeo, com certeza o futebol ficará mais justo, mas será o mesmo esporte? Eu tendo a concluir que não. Claro que com (quase) tudo nós, seres humanos, nos acostumamos na vida, porém, nesse caso, a que preço?

Um dos grandes atrativos de uma partida de futebol é a dinâmica.

Não existem, como no futebol americano, no basquete e no vôlei, entre outros esportes coletivos, pedidos de tempo dos técnicos durante o período de bola rolando de cada tempo (45 minutos mais acréscimos). Se existissem, seriam uma interrupção brusca que certamente aborreceria os torcedores, especialmente aqueles que estão no estádio.

Pois se o jogo for paralisado em momentos de dúvida, e a dúvida é frequente em muitas das partidas de futebol, causará irritação, ou sono, ou ambos.

Um exemplo: surge a dúvida se um jogador que, ao receber um passe ou lançamento e concluir a jogada com sucesso, fazendo um gol, estava ou não em impedimento. Há lances em que centímetros definem isso – e nem dá para culpar o bandeirinha por um suposto erro. Quanto tempo levará para o árbitro e o assistente de vídeo chegarem a uma conclusão? Menos de um minuto? Improvável. Enquanto isso, nada acontece… a bola fica lá, os jogadores ficam lá, parados.

Ainda pensando no torcedor que está vendo o jogo no estádio, há um agravante. Ou se implementa um sistema (pode ser via alto-falantes) em que ele fica sabendo, claramente, o que está sendo analisado pela arbitragem, ou ele ficará perdido, sem ter a menor ideia do que está acontecendo e sendo deliberado.

Quem fica em casa, vendo pela TV, terá a ajuda do narrador, do comentarista, do repórter, da própria geração de imagens (com replays em meia dúzia de ângulos), então não deve enfrentar, ou enfrentar em nível bem menor, essa dificuldade.

Friso que não sou conservador a ponto de não aceitar mudanças no futebol.

A troca de informações via áudio entre juiz e bandeirinhas já se mostrou eficaz, pois não afeta praticamente nada a fluência da partida.

Outra boa (ótima) introdução, e essa não relacionada com tecnologia, foi o uso de sprays pelos árbitros, para demarcar a distância da barreira nas cobranças de falta.

Em relação ao uso do vídeo, defendido em editorial pela Folha, o que se anuncia é que ele será uma medida para lances capitais, que será empregada com parcimônia. Será mesmo? Isso precisará ser muito bem regulamentado, ou se dará margem para discutir o que é ou deixa de ser um “lance capital”. Dependendo do lado em que você está, a ótica é diferente.

De toda forma, a tendência, pois é praticamente inútil lutar contra o avanço implacável da tecnologia, é que “o futebol como ele é” esteja morto.

Será outro esporte, tremendamente influenciado pelo mundo tec, e que pode ser rebatizado.

Futecbol. Muito em breve, viveremos a era do futecbol.

A tecnologia ajudou a validar gol de Benzema (dir.), da França, em jogo contra Honduras, do goleiro Valladares, na Copa-2014 (Jon Super - 15.jun.2014/Associated Press)
A tecnologia ajudou a validar gol de Benzema (à dir.), da França, em jogo contra Honduras, do goleiro Valladares, na Copa de 2014 (Jon Super – 15.jun.2014/Associated Press)

Em tempo: Sou a favor do sistema que confirma que a bola ultrapassou a linha de gol, em lances que gerem esse tipo de dúvida – desde que seja confiável. Na Copa do Mundo-2014, no Brasil, ele ajudou o árbitro brasileiro Sandro Meira Ricci na marcação de um gol da França. E essa tecnologia não tira a dinâmica do jogo, já que o árbitro recebe de imediato, eletronicamente, a informação. Sem esse artifício, na Copa de 2010, a arbitragem cometeu erro grotesco ao não validar lance pró-Inglaterra – em chute de Lampard, a bola, após bater no travessão, entrou pelo menos um palmo no gol defendido pelo alemão Neuer.