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Renato Gaúcho erra feio na matemática ao reclamar do excesso de jogos

“Quanto às lesões, é o que eu falei: o Flamengo está em três competições, tem uma decisão a cada três dias, a gente vive dentro de avião, dentro de hotel. O desgaste tem sido muito grande.”

“Se você pegar os números nessa sequência, os jogadores que estão na seleção brasileira vão chegar a 95 jogos neste ano. É muita coisa, quando a média é de 55, 60 jogos. O desgaste proporciona, infelizmente, as lesões.”

Essas declarações são de Renato Portaluppi, o popular Renato Gaúcho, técnico do Flamengo.

Foram dadas na entrevista que ele concedeu depois da vitória por 3 a 0 do time carioca sobre o Fortaleza, no estádio Castelão, duas semanas atrás.

Renato, tido como um dos melhores treinadores em atividade no Brasil, muito pelo ótimo trabalho à frente do Grêmio antes de assumir o Flamengo, lamentava o excesso de partidas no calendário, relacionando-o à ocorrência de contusões nos atletas.

As três competições a que ele se referiu, nas quais a equipe mais popular do país tem chance de título, são a Libertadores (jogará a final contra o Palmeiras), a Copa do Brasil (faz semifinal diante do Athletico-PR) e o Campeonato Brasileiro (vice-líder completadas 27 rodadas, a 10 pontos do Atlético-MG).

Pode até ser que flamenguistas tenham sofrido lesões, ou venham a sofrer, pelo desgaste mencionado por Renato. Mas o treinador de 59 anos exagerou na quantidade de partidas que um comandado seu pode disputar neste ano. Errou, e errou por muito.

No momento em que eu escrevia este texto, o Flamengo tinha feito, desde o dia 6 de janeiro, data da primeira apresentação em 2021, 71 jogos. Tem mais 15 garantidos pela frente, e talvez outros dois, se avançar à decisão da Copa do Brasil. Total: 86 (ou 88).

Ah! Mas tem a seleção brasileira, e Tite pode chamar alguém da equipe rubro-negra. O Brasil irá a campo mais duas vezes neste ano, em novembro, contra Colômbia e Argentina.

No pior cenário, a partir do momento em que Renato abordou o tema, serão 90 as partidas.

Ah! Isso é pegar no pé. De 90 para 95 a diferença não é gritante.

De fato, não é. Só que nenhum jogador do Flamengo chegará perto de participar de 90 jogos. No máximo de 80.

Renato focou nos futebolistas rubro-negros que têm servido à seleção, e os com mais presença nela são o meia Éverton Ribeiro e o atacante Gabriel Barbosa, o Gabigol.

Gabibol está lesionado e é uma das preocupações do Flamengo para a reta final da temporada de 2021 (Silvia Izquierdo – 19.mai.2021/Reuters)

O primeiro, até este sábado (23), jogou neste ano 61 partidas –51 pelo clube, 10 pela seleção nacional. Caso participe das restantes pelo Flamengo, considerando a ida à final da Copa do Brasil, e jogue duas vezes pela seleção, terminará 2021 com 80.

O segundo entrou em campo 59 vezes –46 delas pelo Flamengo, as restantes pelo Brasil. Poderia atingir, no máximo, 78. Não irá, pois teve entorse no tornozelo na quarta-feira que deve tirá-lo de alguns confrontos.

Se é fato que Renato errou feio na matemática (de 80 para 95 há uma distância razoável), é fato também que os clubes brasileiros se sujeitam a um calendário mais árduo que o europeu.

O inglês Chelsea, por exemplo, atual campeão da Champions League, no último ano-calendário (julho de 2020 a junho de 2021) disputou 69 jogos. O Flamengo, desde janeiro, já fez dois a mais, e ainda falta um mês e meio para parar de jogar neste ano.

Renato afirmou que a média de partidas a ser jogada por um atleta é de “55, 60 jogos” por temporada.

A depender da força de uma equipe, de sua capacidade de avançar nas competições, e do número de amistosos na pré-temporada (normalmente times europeus os fazem), ela ultrapassará as seis dezenas de duelos. Em algumas ocasiões, até as sete dezenas.

No Brasil, essa possibilidade é maior que em países da Europa, já que são realizados campeonatos estaduais e, algumas vezes, regionais, além do Brasileiro e dos torneios continentais.

Assim, para que determinado atleta (titular, frise-se) fique nessa média (55 a 60), é necessário que o time que ele defenda não se destaque em torneios como Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil.

Como esse não é o caso do Flamengo, a solução para que o jogador fique na média propagada por Renato depende do próprio Renato: escalar menos esse jogador.

Esse é o grande desafio do treinador de um time de ponta, e que não é tão hercúleo dado o orçamento bem superior ao dos demais: montar um elenco (e treiná-lo para tal) capaz de, na necessidade de poupar um atleta para que ele jogue o necessário para não “se estourar”, render no mesmo nível.

Para Renato, que pecou na matemática, é fácil adequá-la ao que ele deseja. Depende só da vontade dele. Poupe aqueles que estão mais desgastados –afinal, como diz um ditado popular, “quem guarda tem”.

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