A época em que Gabigol foi Gabi-não-gol

Pode parecer absurdo, mas Gabriel Barbosa, o Gabigol, principal artilheiro do Campeonato Brasileiro, com 22 gols em 26 partidas, um dia foi chamado de Gabi-não-gol.

Pelo menos é o que relatou o holandês Frank de Boer, o primeiro treinador de Gabigol na Inter de Milão, de agosto de 2016 a novembro do mesmo ano.

Depois de três temporadas muito boas pelo Santos, coroadas ainda com o inédito ouro olímpico para o futebol do Brasil na Rio-2016, Gabigol partia para a Europa em alta, e a expectativa de que tivesse sucesso imediato era ampla.

Não foi, todavia, o que aconteceu.

“Chamavam-no de Gabigol, mas para nós ele era o Gabi-não-gol”, declarou um surpreso De Boer, hoje treinador do Atlanta United (EUA), entrevistado pela Fox Sports depois da decisão da Libertadores, no sábado (23).

Em Lima (Peru), no intervalo de três minutos, no final do segundo tempo, a estrela de Gabigol brilhou, e ele marcou os dois gols que asseguraram ao Flamengo a vitória, de virada, por 2 a 1 sobre o River Plate.

O atacante de 23 anos terminou a competição como o maior goleador, com nove gols.

Gabigol comemora à la Gabigol seu gol, o segundo contra o River Plate na final da Libertadores, que deu o título ao Flamengo no estádio Monumental de Lima (Guadalupe Pardo – 23.nov.2019/Reuters)

Só em 2019, com a temporada ainda por terminar – o Flamengo tem três jogos para fazer no Brasileiro, do qual já é campeão, e o Mundial de Clubes a disputar –, Gabigol acumula 40 gols em 54 partidas, média de 0,74.

Melhorou o desempenho registrado pelo Santos em 2018, quando balançou as redes 27 vezes em 53 jogos (média de 0,51, ou um gol a cada dois jogos).

Na Europa, em um ano na Inter, que o comprou por cerca de € 25 milhões (R$ 117 milhões pelo câmbio atual), e em cinco meses no Benfica, em uma passagem por empréstimo, Gabigol fez míseros três gols – dois pelo time italiano e um pelo português.

Afirmou De Boer na entrevista, sobre a impressão deixada por Gabigol no começo da estadia em Milão: “Ele chegou com dois editores de redes sociais e um guarda-costas, mas não rendia nada. O técnico que chegou depois de mim [Stefano Pioli] também não o colocou para jogar”.

Gabigol festeja o único gol que marcou com a camisa da Inter de Milão em uma partida oficial pelo time italiano, contra o Bologna, pela Série A (Filippo Monteforte – 19.fev.2017/AFP)

Essa talvez seja a principal razão para a seca de gols de Gabigol. A falta de tempo em campo. Pois no Benfica Rui Vitória tampouco lhe deu espaço.

Na Inter, esteve em campo, excluindo os jogos de pré-temporada, somente 11 vezes, e começou jogando uma única, um amistoso.

O total de minutos em jogos oficiais, ao longo de 12 meses? Irrisórios 183, ou pouco mais que duas partidas de 90 minutos.

No Benfica, situação parecida. Cinco aparições, tendo começado apenas duas vezes e não atuado nenhum jogo inteiro. Ao todo, 236 minutos em campo e um gol.

Em todo esse tempo, Gabigol deve ter ficado com as nádegas doloridas de tanto que esquentaram o banco de reservas… No Campeonato Italiano de 2016/2017, começou 32 partidas nele, entrando em nove.

Pela Champions League, como na partida diante do Basel em Lisboa, Gabigol jogou duas vezes pelo Benfica, sempre começando na reserva e entrando na segunda metade do segundo tempo (Rafael Marchante – 5.dez.2017/Reuters)

E por que Gabigol não conseguia jogar?

Em relação a De Boer, está claro que desde o início criou aversão ao brasileiro. Mas e os outros, Pioli e Vitória?

Teria sido Gabigol um desastre nos treinos? Possivelmente não. Houve casos de indisciplina? Nenhum grave chegou ao conhecimento da mídia.

O que havia era uma tremenda concorrência.

Novato na Europa, Gabigol tinha de disputar posição com o argentino Icardi (hoje no Paris Saint-Germain), capitão, superartilheiro e ídolo da Inter, e com o argentino Palacio, também goleador e no clube desde 2012.

No Benfica, o panorama não melhorou. Até piorou.

A equipe lisboeta contava, no grupo para a temporada 2017/2018, com o brasileiro Jonas, com o suíço Seferovic e com o mexicano Jiménez (atualmente destaque na Inglaterra). Todos à frente de Gabigol na lista de preferência do técnico.

Sendo escalado, tendo uma sequência, percebe-se, Gabigol rende. Faz gols. É Gabigol.

Sem oportunidades, nem ele nem ninguém têm como se destacar. Fazer gols de que jeito?

Assim é natural, e compreensível, Gabigol ter sido na passagem europeia o Gabi-não-gol.

Em tempo 1: Uma curiosidade. Nesses 17 meses de Europa, conforme escrito, Gabigol marcou três gols. Todos eles resultaram na vitória por 1 a 0. Pela Inter, um amistoso no meio da temporada contra o Lugano (Suíça), em outubro de 2016, e uma partida do Italiano diante do Bologna, em fevereiro de 2017. Pelo Benfica, jogo da Taça de Portugal contra o Olhanense, em outubro de 2017.

Em tempo 2: Gabigol é jogador da Inter, com contrato até a metade de 2022. Se não houver acordo que prorrogue o empréstimo dele com o Flamengo, no fim deste ano ele terá de retornar à Itália e negociar seu futuro com os dirigentes milaneses.

Erramos: o texto foi alterado

Icardi é argentino, e não italiano. O texto foi corrigido.