Uma carta a Buffon

Sob o título “Uma carta a Buffon”, o clube Os Belenenses, de Lisboa, publicou em seu site dias atrás uma longa mensagem, exposta a seguir, endereçada sem assinatura a Gianluigi Buffon, goleiro titular da Itália na conquista da Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, e um dos melhores da história do futebol em sua posição.

“Caro Gigi,

Ouvimos dizer que você está em busca de um novo desafio e está receptivo para ouvir uma proposta ‘louca e estimulante’.

Por isso, decidimos apresentar-vos algo irresistível: que tal mudar para Lisboa e ajudar-nos a regressar rapidamente ao nosso lugar no futebol português, a Primeira Liga [primeira divisão]?

Nossa amizade não vem de hoje. Conheces-nos desde pelo menos 2004, ano em que com a equipa italiana treinaste diariamente no Estádio do Restelo, a nossa casa e o mais belo dos recintos desportivos.

Temos certeza de que você não se esqueceu –como poderia?–, bem como a incrível vista que o nosso complexo desportivo tem sobre o rio Tejo.

Por ser um homem do futebol e um cidadão do mundo, provavelmente já nos conheceu antes.

O Clube de Futebol Os Belenenses é um clube desportivo de base associativa fundado em Belém, Lisboa, Portugal, em 23 de setembro de 1919 e que, desde o início da sua atividade, tem vindo a jogar o futebol como uma motivação central.

Somos um dos cinco clubes portugueses que já conquistaram a Liga portuguesa.

Temos quatro campeonatos e três Taças na nossa história, e também fomos o clube convidado pelo Real Madrid para inaugurar o Estádio Santiago Bernabéu. O sobrinho do seu amigo Cristiano Ronaldo começou a jogar nas nossas escolas de futebol.

Ao longo da nossa história centenária, o clube tem crescido para além das fronteiras de Belém e da zona oeste de Lisboa, afirmando-se em todo o território nacional, tendo várias sucursais –em Portugal Continental, Ilhas e no estrangeiro– e delegações oficiais. Já perdemos a conta dos jogadores que formamos para as seleções portuguesas…

Apesar da nossa rica história e de sermos o quarto clube com mais adeptos em Portugal, estamos neste momento a competir na quinta divisão nacional. Você se lembra da rota que seu querido Parma fez? O nosso é de alguma forma semelhante.

Fomos para o inferno quando em 2018 nos separamos da sociedade esportiva que compete na Primeira Liga, em nosso nome, e fomos forçados a descer para a última divisão, a sétima.

Desde então, sempre subimos na primeira posição e no momento lideramos a nossa categoria.

A nossa trajetória no futebol é inédita tanto a nível nacional como internacional. Desistimos do nome associado a uma ‘sociedade desportiva de responsabilidade limitada’, que compete na Primeira Liga, e optamos por fazer uma ‘escalada’ baseada em valores e princípios, rumo às Ligas Profissionais.

Ao associar-se aos Belenenses e ao nosso percurso, verá o seu nome associado a uma história já conhecida e reconhecida internacionalmente, bem como a palavras e princípios inalienáveis ​​como a honra, a verdade, o amor pela camisola e os valores da fundação de Os Belenenses, em data de 1919, numa época em que a pureza do futebol prevalecia sobre todas as outras dimensões do jogo.

Somos humildes, realistas e honrados. Não é dinheiro que temos para lhe oferecer, mas sim a possibilidade de ter o seu nome associado a mais um desafio que só lendas vivas –como você– podem abraçar com sentido de oportunidade.

Você já ocupa um lugar de excelência na história do futebol, mas aqui pode ascender ao Olimpo.

Você vai trabalhar com a melhor vista da cidade de Lisboa, no mais belo estádio do mundo (e nisso você vai concordar com a gente, com certeza).

Temos uma casa para nossos atletas. É um espaço humilde, mas todos estão disponíveis para lhe dar a sua própria cama. Claro, pode sempre escolher uma casa com vista para o rio Tejo, mas isso é contigo.

Poderá jantar confortavelmente nos excelentes restaurantes localizados no Estádio do Restelo, mas, claro, também poderá visitar um dos 12 restaurantes com estrelas Michelin na cidade de Lisboa.

No contrato não deixaremos de incluir um passe anual para o Maat (já conhece essa obra de arte em arquitectura?) e um bilhete familiar, por semana, para visitas ao Museu dos Coches, ao Monumento aos Descobrimentos, à Torre de Belém e ao Mosteiro dos Jerónimos, estes dois últimos patrimônios mundiais da Unesco.

O contrato vai incluir ainda um pacote de seis pastéis de Belém por semana, uma das especialidades mais apreciadas da doçaria portuguesa, que irá certamente saborear sem alterar a sua dieta alimentar.

Tudo a ‘curta distância’ do Estádio do Restelo. E por falar em palco onde vai jogar: vai ter um camarote privado para a sua família, embora gostemos de contar contigo no banco, entre a nossa família…

Sabe que as nossas cores são as da Azzurra? Lindo, não é? No clube todos estão ansiosos para recebê-lo e garantimos que encontrará uma equipe com uma qualidade humana e técnica que o irá surpreender.

Neste momento, estamos a disputar os últimos dias do campeonato da Primeira Divisão Distrital (quinto nível) e esperamos poder celebrar em breve a ascensão –finalmente– aos campeonatos nacionais.

Quem sabe se você pode comemorar conosco agora… Certamente que contigo na equipa chegaremos rapidamente ao lugar que por direito nos pertence na Primeira Liga e poderemos fazer alguns grandes jogos na Taça de Portugal –competição que já conquistamos três vezes.

Teremos o maior prazer em conhecê-lo pessoalmente em Turim, mas, se já quiser nos visitar em Belém, teremos o maior prazer em recebê-lo.”

Capitão da Juventus, Buffon ergue o troféu da Copa da Itália depois da vitória sobre o Atalanta (Miguel Medina – 19.mai.2021/AFP)

Buffon terá seu contrato encerrado com a Juventus no fim deste mês e já avisou que não fará uma renovação.

Aos 43 anos, declarou, contudo, que ainda não é o momento de se aposentar, ou seja, está no mercado, para ser contratado por quem se interessar e por quem lhe interessar.

Mesmo já longe do auge, o currículo, liderança, a tarimba e a técnica ainda contam muito a favor de Gigi, e interessados não faltarão.

Um desses interessados são Os Belenenses.

Conforme a carta –cujo conteúdo tenta seduzir Buffon pelo lado emocional– relata, um clube que tem história no futebol português e que, por questões administrativas, viu-se relegado às divisões inferiores do país.

É perto de zero a chance de Buffon aceitar o convite, já que relatos recentes dão conta de que ele planeja continuar em um clube que esteja na elite, e de um campeonato de bom nível.

Estaria inclinado a acertar com outra agremiação de Lisboa, o Benfica, ou retornar ao Parma, equipe que o projetou profissionalmente.

Caso opte por rechaçar a oferta de Os Belenenses, infelizmente não contará –ao menos não em contrato– com benefícios como a gratuidade para os deliciosos –dizem que são, eu nunca provei– pastéis de Belém e para visitar famosos pontos turísticos lisboetas.

Além de ficar sem “a incrível vista” que o complexo desportivo do clube, segundo o próprio clube, tem sobre o Tejo, o rio mais extenso da Península Ibérica.

Havendo a esperada negativa, certamente Buffon poderia, assim que decidir pendurar as luvas, jogar antes meia temporada que seja nos Azuis do Restelo, que tanto o elogiam e tanto o querem.

Seria um encerramento de carreira, no mínimo, pitoresco.