‘O futebol me ensinou a perder e o conceito de mediocridade’
Abro espaço no blog para o interessante e pertinente depoimento de Mateus Camillo, colega de Folha, retribuindo o convite recebido, e aceito, para participar há mais de dois anos do programa que ele pilotava, o Fale, Blogueiro, em edição especial sobre a Copa do Mundo da Rússia.
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Mais de duas semanas depois da derrota para o democrata Joe Biden nas eleições deste ano nos Estados Unidos, o presidente republicano Donald Trump recusa-se a aceitar oficialmente que perdeu.
Só nesta segunda (23) ele aceitou iniciar os protocolos de transição, mas ainda diz que “nosso caso continua forte, manteremos a boa luta, e acredito que venceremos”, sobre a batalha judicial para contestar o resultado.
A teimosia de Trump trouxe nas redes sociais diversos comentários de que talvez tenha faltado a ele a prática de esportes na infância.
Competições costumam, afinal, ser o primeiro contato de crianças com conceitos simples mas fundamentais de triunfos e tropeços.
Graças ao futebol, eu aprendi a perder e passei a entender que nunca vou ser bom em tudo que desejo.
A sofrida lição de derrota veio na Copa do Mundo de 1998. O Brasil de Ronaldo, Rivaldo e Roberto Carlos fez uma boa competição e chegou com certo favoritismo à final, ainda mais porque o tetra ainda estava fresco na memória.
No embalo da família, eu, com apenas 7 anos, tinha convicção de que veria a seleção brasileira ser campeã do mundo pela primeira vez (não guardo lembranças da final de 1994).
A apatia do Brasil em campo e os rumores sobre Ronaldo (que teve uma crise nervosa antes da decisão) causaram apreensão em todos na casa de campo da família. A atmosfera não estava boa. Os dois gols de cabeça de Zinédine Zidane quase replays foram um balde de água fria.
Fim de jogo e vivi uma sensação que hoje se assemelha à de um luto. Cada membro da família saiu para um canto diferente, cabisbaixo.
Meu tio, já um tanto alcoolizado, pegou os rojões que estavam guardados para o penta e soltou mesmo com o revés. “Acabou o bolo, cambada de filho da p…”, gritou. Esse grito até hoje é lembrado na família.
Restou a mim pegar a bola de futebol e marcar os gols que Ronaldo não fez.
Assim como milhares de meninos daquela idade, eu passei a sonhar ser um jogador de futebol e ganhar uma Copa do Mundo para o Brasil —Pelé também teve o mesmo desejo em 1950.
E então o esporte me ensinou uma segunda lição.
Por volta dos 11, 12 anos, as competições de futebol entre os meninos começam a ficar mais disputadas.
E eu, que amava jogar futebol, não conseguia ser titular do time de futsal da classe, que não tinha mais do que dez que se interessavam por jogar bola.
Ser reserva era uma decepção, mas de fato eu não merecia começar jogando.
Comecei a fazer aula extra de futebol em uma escolinha, e nem isso adiantou. Me faltava algo básico, o talento.
O único ano em que consegui ser titular foi quando assumi a mediocridade e virei o melhor marcador do time –tanto que meu apelido virou naquele período “Carrapato”.
Se ninguém da minha escola se tornou jogador profissional de futebol, e eu nem sequer conseguia ser titular do time da sala, note que há vários níveis de mediocridade, portanto, ao menos em ser ruim eu era muito bom.
Compreendi, graças ao esporte, que eu deveria procurar outro ofício da vida e jogar futebol poderia ser só pelo lazer.
Foi quando mergulhei em livros, revistas e jornais, me interessei pelo jornalismo e hoje escrevo este texto no blog O Mundo é Uma Bola, do meu colega Luís Curro, da Folha, em referência ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
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Ao ler o texto do Mateus, lembrei-me de mim, que também queria ser jogador de futebol quando criança –aposto que vários dos que leem estas linhas também quiseram.
A diferença é que, mesmo com a decepção da derrota da seleção brasileira na Copa de 1982, na Espanha, eu jamais me imaginei com a camisa da seleção brasileira.
Não me considerava medíocre, mas o máximo que consegui foi ser titular em times do colégio (futsal e futebol de campo) nos ensinos fundamental e médio, e um lateral-direito de bom fôlego em um clube paulistano, no fim dos anos 1980.
Olhando para os que jogavam no meu time, e para os que jogavam contra, tive a consciência, por vê-los superiores tecnicamente, de que seria perda de tempo querer virar boleiro.
Como Mateus percebeu, também percebi que minha vocação era outra. Que, mesmo amando o futebol, a chance de sucesso seria maior em outra profissão.
No caso dele, fico satisfeito que seja um “perna de pau”.
O futebol não ganhou um novo Pelé –que conseguiu em 1958 conquistar a Copa do Mundo que prometera ao pai anos antes–, porém o jornalismo pôde, e pode, ter no seu time um jovem e talentoso craque, que desfila sagacidade e ludicidade na abordagem de conteúdo das redes sociais no blog #hashtag.