Médicos de Fifa e Uefa divergem sobre a retomada do futebol
As últimas notícias sobre o reinício dos campeonatos nos principais polos futebolísticos do planeta, em meio à luta contra o coronavírus, não têm sido encorajantes.
Primeiro, a Holanda deu por encerrada a Eridivisie, sem que um campeão fosse declarado.
Depois, a França, onde joga Neymar, também decretou a impossibilidade de dar sequência à Ligue 1. Nesta quinta (30) houve a definição sobre o vencedor –o troféu será dado ao PSG, que liderava com folga.
Na América do Sul, a Argentina seguiu o mesmo caminho e até já definiu classificados para a próxima Libertadores: Boca Juniors, River Plate, Racing e Argentinos Juniors.
Fica a dúvida: conseguirão Alemanha, Espanha, Itália e Inglaterra reiniciar seus respectivos campeonatos nacionais?
No campo esportivo, clubes (com poucas exceções, na Itália) e federações desses países querem porque querem que isso aconteça, o quanto antes.
Obviamente, não só pelo desejo de encerrar as competições mas também para recuperar os ganhos financeiros, com receitas de TV e bilheteria, por exemplo.
No campo médico há, contudo, uma divisão. E entre as principais autoridades do setor em duas das principais entidades do futebol: a maior delas, a Fifa, que rege o futebol no mundo, e a Uefa, que administra o futebol na poderosa e endinheirada Europa.
“Não é uma questão de dinheiro. É uma questão de vida ou morte”, sentenciou ao jornal The Daily Telegraph, da Inglaterra, o belga Michel D’Hooghe, chefe do departamento médico da Fifa, para quem “subitamente, o futebol não se tornou mais uma coisa importante na vida”.
Ele alerta que a retomada dos campeonatos nas próximas semanas poderá causar um segundo pico da pandemia de Covid-19.
“Na minha longa carreira, vi muitas situações em que pesaram na balança os lados financeiro e de saúde. Na maioria, o financeiro venceu, seja em relação ao fuso horário, à altitude ou a condições de poluição extrema. Se há uma ocasião em que os argumentos médicos deveriam derrotar os econômicos, é agora.”
Para D’Hooghe, só o fim de agosto ou o começo de setembro seriam momentos em que se poderia jogar com riscos reduzidos.
Porém a visão do belga de 74 anos não é unânime.
Um dos que discordam dele é o alemão Tim Meyer, 22 anos mais jovem, chefe do comitê médico da Uefa.
“Todas as organizações futebolísticas que planejam recomeçar suas competições estão elaborando protocolos que ditem as condições operacionais e sanitárias para assegurar que a saúde dos envolvidos nos jogos esteja protegida”, disse ele em um comunicado.
“Nessas condições, e respeitando as legislações locais, é perfeitamente possível planejar o reinício dos torneios suspensos.”
A divisão de opiniões não se restringe aos médicos diretamente ligados ao esporte.
Na Itália, Franco Locatelli, que preside o Conselho Superior de Saúde, órgão consultivo do governo, assegura que a chance de um atleta contrair o coronavírus durante uma partida é mínima.
“O contato não é suficientemente intenso”, declarou em recente entrevista à imprensa.
Não sei o que Locatelli considera intenso. Só sei que o futebol é um jogo de muito contato físico, com disputas terrenas e aéreas entre os adversários, que se tocam e se chocam constantemente ao longo dos 90 minutos mais acréscimos.
Só que o vice-ministro da Saúde italiano vai na contramão de Locatelli.

“Não é tênis ou Fórmula 1. No futebol o contato entre os jogadores existe, e com ele o risco de disseminar o vírus”, afirmou Pierpaolo Sileri à rádio Rai 1.
Nesse cenário, ele considera seriamente a possibilidade de a temporada 2019/2020 da Série A não ser retomada. “Neste momento, é improvável.”
Enquanto os debates progridem, com as decisões finais a serem tomadas oportunamente pelos governos de cada país, a expectativa (agonia para alguns) dos fãs do futebol, que têm vivido de reprises por semanas, vai se estendendo.
Pelas mais recentes projeções dos que controlam os campeonatos, a bola deve voltar a rolar até a metade de maio na Alemanha; no começo de junho na Inglaterra e na Itália; e no fim de junho na Espanha.

Itália (mais de 205 mil casos e quase 28 mil mortes) e Espanha (239,6 mil casos e 24,5 mil mortes) são os países do velho continente em que o coronavírus mais se expandiu e foi mais mortífero.
No Brasil, onde os campeonatos estaduais estão paralisados e o Brasileiro deveria começar neste sábado (2 de maio) –não vai, e não há nova data estipulada–, são até agora 5.901 pessoas mortas e 85.380 infectadas, segundo o Ministério da Saúde.
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