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Neymar e o sangue de barata

Luís Curro

Expressão das mais antigas, ter sangue de barata significa manter a calma em situações difíceis. Sob pressão, ter  sangue-frio, tranquilidade, controle.

Muita gente não consegue e, em determinados momentos, perde a serenidade. Diz-se que essa pessoa tem sangue quente: a temperatura do corpo se eleva e ela age impetuosamente, sem raciocinar.

Neymar é uma dessas pessoas.

No domingo (22), em Olympique de Marselha x Paris Saint-Germain, recebeu dois cartões amarelos no final do segundo tempo, em um intervalo de apenas três minutos, e foi expulso.

Ele não cometeu faltas violentas ou praticou o antijogo para ser advertido pelo árbitro. Porém, irritado com a marcação implacável dos atletas do Olympique, que se revezavam para fazer faltas nele, descontrolou-se e agrediu adversários.

O camisa 10 do PSG primeiro pisou sutilmente em Sanson, que estava caído após ser derrubado por Kurzawa – ou tentou pisar, não tenho certeza, pois a imagem é inconclusiva). Depois, ao sofrer falta por trás de Ocampos, levantou-se e deu um encontrão no argentino.

Resultado: expulsão.

Em entrevista depois da partida, que terminou 2 a 2, Neymar declarou: “Fui tirar satisfação, é errado, assumo meu erro, mas ninguém tem sangue de barata”.

No início desta semana, estive a convite no “Redação SporTV”, onde comentei a expulsão de Neymar e deixei minha opinião: ele tem, sim, que ter sangue de barata diante das constantes faltas que sofre. Ou aprender a ter. Se não, será mais vezes excluído dos jogos por não conseguir domar o temperamento na adversidade.

Neymar caiu em uma armadilha. O volante Anguissa, do Olympique, afirmou ao jornal “L’Equipe” que o treinador Rudi Garcia lhe pediu para irritar o craque brasileiro.

“Era meu trabalho incomodá-lo, cutucá-lo. O técnico nos disse que ele (Neymar) tem um talento supremo, mas pode perder a cabeça”, disse o camaronês.

O volante Anguissa, do Olympique de Marselha, persegue Neymar, do PSG, no duelo entre as equipes pelo Francês (Boris Horvat – 22.out.2017/AFP)

Perdeu mesmo. Mas não podia, não pode, não poderá. Já pensou se na Copa do Mundo Neymar é expulso por revidar a uma falta? Prejudicará imensamente o Brasil, que com ele é um time, sem ele é outro, menos perigoso.

Como eu disse no programa comandado por André Rizek, Neymar tem de ter sangue quente com a bola nos pés.

Partir para cima dos rivais com seu enorme talento (une velocidade, inteligência e habilidade como poucos), definir as partidas com grandes jogadas e gols. No um contra um, Neymar é dos melhores. E sua capacidade de dar assistências, de deixar os companheiros na cara do gol, cresce a cada dia.

Com todos esses predicados, precisa de algum jeito manter o autocontrole.

Tite, o técnico da seleção, tem defendido  Neymar, considerando-o mais maduro. Não está. Seu comportamento contra o Olympique prova o contrário.

Unai Emery, treinador do PSG, disse ter alertado o atacante antes da partida em Marselha: “Falei com ele (Neymar) para que não caísse nas provocações. Os jogadores são humanos, mas eles precisam ficar calmos e manter o equilíbrio em campo”.

Não adiantou. Pior. Ao ser expulso, Neymar ainda aplaudiu ironicamente o árbitro.

A mesma atitude no Campeonato Espanhol, no primeiro semestre deste ano, quando ainda defendia o Barcelona, rendeu a ele dois jogos de gancho, além da suspensão automática por ter recebido o cartão vermelho diante do Málaga. Ficou fora do clássico contra o Real Madrid.

Desta vez, parece que as palmas não terão consequência maior, porém é outra atitude a ser evitada. É preciso aprender com os erros, e não repeti-los.

Em defesa de Neymar, é necessário afirmar que nem sempre os árbitros são rígidos o suficiente com os adversários que insistem em não deixar o brasileiro jogar. Ele é um dos atacantes mais caçados, não apenas do Campeonato Francês, mas do mundo. É falta atrás de falta.

Só que Neymar não tem poder para controlar a cabeça dos juízes. Então tem de controlar a própria.

Leia também: A cabeça de Gabriel Jesus

Em tempo 1: A expulsão de Neymar contra o Olympique é a oitava em sua carreira profissional. Foram cinco pelo Santos, uma pela seleção brasileira, uma pelo Barcelona e esta, agora, pelo PSG. Ele está com 25 anos. Eis a comparação com os dois melhores do mundo: Cristiano Ronaldo, aos 32 anos, soma dez cartões vermelhos (o último, há dois meses e meio, por empurrar o árbitro, custou-lhe cinco jogos de suspensão); Messi, aos 30 anos, exemplo de sangue-frio, tem uma única expulsão – pela seleção argentina, 12 anos atrás.

Em tempo 2: Sem Neymar, o PSG, líder invicto do Francês (em dez jogos acumulou 26 pontos, quatro a mais que o Monaco), recebe nesta sexta (27) o Nice, às 16h45 (de Brasília). ESPN Brasil e SporTV exibem a partida.

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