A cabeça de Gabriel Jesus

Por Luís Curro

Gabriel Jesus viveu, e ainda vive, uma ascensão vertiginosa no futebol.

Com apenas 19 anos (hoje tem 20), teve papel relevante na conquista do inédito ouro olímpico pelo Brasil, na Rio-2016, e fundamental no triunfo do Palmeiras no Campeonato Brasileiro do ano passado.

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Negociado com o Manchester City, da Inglaterra, causou impacto imediato no começo deste ano e, antes de ter uma lesão no pé que o afastou dos jogos por algumas semanas, colocou o argentino Kun Agüero, de 29 anos, um dos grandes atacantes do futebol mundial, na reserva.

Na seleção brasileira, já é visto como titular incontestável na equipe de Tite. É o dono da camisa 9, e não sem motivo. Desde que o ex-técnico do Corinthians assumiu, Gabriel Jesus marcou cinco gols nos seis jogos em que atuou pelas eliminatórias da Copa do Mundo da Rússia.

Seu desempenho ajudou demais o Brasil a sair de uma situação delicada e a se classificar com antecedência – ganhou essas seis partidas.

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Tudo isso faz do jovem artilheiro uma das grandes esperanças na caminhada do Brasil rumo ao desejado hexacampeonato.

E, estando Gabriel Jesus nesse patamar de importância, causa uma dose de apreensão uma declaração que ele deu nesta semana no programa “Noite dos Craques”, do canal Esporte Interativo.

Ladeado pelo apresentador Vitor Sérgio Rodrigues e por Rivellino (campeão mundial em 1970) e também na presença do ídolo flamenguista Zico, Gabriel Jesus afirmou, ao comentar uma cabeçada de Henrique Dourado, centroavante do Fluminense: “Eu não sou bom de cabeça, não. Estou treinando para melhorar. Tenho só dois gols de cabeça, um pelo Palmeiras e um pelo City”.

“Mas por que isso?”, questionou Vitor Sérgio, citando que Ronaldo Fenômeno, um dos melhores atacantes da história, “dizia que não era bom de cabeça porque tinha medo de cabecear”.

“Medo eu não tenho de cabecear. Tenho um pouco de trauma. Bati muito a cabeça quando era pequeno”, disse Gabriel Jesus, sem explicar a razão de tantas pancadas na cuca quando criança.

Talvez incidentes no pega-pega ou no esconde-esconde. Quedas ou distrações fazem as crianças baterem a cabeça no chão ou na parede nesse tipo de brincadeira.

A revelação de Gabriel Jesus importa, e muito. Sabedor dessa deficiência – e ele certamente ficou sabendo, pois o atleta é um de seus xodós –, o treinador do Manchester City, o perfeccionista Pep Guardiola, trabalhará para que o brasileiro aperfeiçoe o cabeceio.

Tite também poderá agir, porém tem limitações de tempo. Quem convive com Gabriel quase diariamente é Guardiola. A seleção se reúne a cada dois ou três meses, para as eliminatórias ou para amistosos, e os treinos são poucos.

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De olhos fechados, Gabriel Jesus cabeceia a bola em treino da seleção olímpica do Brasil em Teresópolis, no ano passado (Vanderlei Almeida – 19.jul.2016/AFP)

A pergunta que fica é: se Gabriel Jesus tem um trauma, o quanto esse trauma o impede de ser um cabeceador melhor?

Eu entendo que muito. Apesar de ele declarar que tem se dedicado nos treinos a esse fundamento, a pequena quantidade de gols de cabeça indica que, nos jogos, prefere não se arriscar muito, mesmo que inconscientemente.

O dicionário Aulete, em uma das acepções para a palavra “trauma”, que é sinônimo de “traumatismo”, diz: “Choque emocional que pode causar perturbações psíquicas”.

Cabe ao jogador se autoanalisar e a Guardiola analisá-lo, para identificar se a questão psicológica em relação às cabeçadas é séria ou se há exagero nela.

Uma das alternativas para tentar solucionar um trauma de infância é o trabalho com um profissional da área de psicologia. Seria o caso nesse caso?

O certo é que para o Brasil, na Copa do Mundo, é bastante desejável que a segunda maior aposta ofensiva da seleção (a primeira é Neymar, que, ressalte-se, não é grande cabeceador) esteja confiante e seja destemido na hora de meter a cabeça na bola.

Das cinco Copas que o Brasil ganhou (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), em três delas um jogador marcou um gol de cabeça na decisão.

Um deles é ninguém mais, ninguém menos que o Rei do Futebol, Pelé, contra a Suécia, em 1958, e contra a Itália, em 1970. O outro é Zito, contra a Tchecoslováquia, em 1962.

E quem hoje está na casa dos 3o anos ou mais há de se lembrar da final da Copa de 1998, na França, quando Zidane destruiu a seleção brasileira ao fazer dois gols no primeiro tempo – ambos de cabeça.

Cabecear bem não é um detalhe. É uma virtude que os craques, e os postulantes a craque, devem fazer questão de portar.

Em tempo 1: Já que o assunto é cabeça, fica uma recomendação a Gabriel Jesus. Esforce-se para aprender inglês o quanto antes, pois será de grande valia na carreira profissional e na vida pessoal, especialmente se continuar a atuar na Inglaterra, onde a comunicação nos clubes geralmente é feita na língua local e é regra, obviamente, nos demais lugares. No programa do Esporte Interativo, ele deixou escapar que pôs “um pouco de lado” o estudo, apesar de o Manchester City disponibilizar professor. Alegou ter ficado “sem cabeça” quando se machucou. Ruim essa falta de foco no idioma – por estar afastado dos campos, essa era a oportunidade ideal para se dedicar mais.

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Em tempo 2: Se Ronaldo Fenômeno não cabeceava bem por suposto medo, outro atacante brasileiro bastante conhecido superou um temor que era escancarado. Luis Fabiano, ex-Ponte Preta e São Paulo e hoje no Vasco, declarou em 2004 que um choque com um zagueiro durante um jogo em 2000, que o deixou desacordado, o traumatizou. “Tento esquecer o acidente que eu sofri, que me marcou muito. Tenho que perder o medo”, disse à época. Conseguiu. Tanto que um dos pontos fortes do artilheiro, titular do Brasil na Copa de 2010, é o cabeceio.