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Seleção feminina dos EUA cogita greve por salários melhores

Luís Curro

A seleção feminina de futebol dos EUA pode deflagrar uma greve. A exigência é esta: salários similares aos pagos aos jogadores da seleção masculina de futebol.

O recado é de Alex Morgan, uma das melhores jogadoras norte-americanas em atividade. Hoje, ela defende o Lyon, da França.

Conforme relato da atacante de 27 anos em entrevista ao jornal britânico “The Guardian”, o salário das mulheres nos EUA, em média, é inferior ao dos homens na seguinte proporção: para cada dólar ganho por um homem, a mulher recebe, 73 centavos.

United States' Alex Morgan attends a press conference as part of her official presentation in Lyon, central France, Saturday, Jan. 7, 2017. Morgan signed a half-season contract with reigning European champions Olympique Lyon. (AP Photo)
Alex Morgan na entrevista em que foi apresentada pelo Lyon, da França, como reforço da equipe por um período de seis meses (7.jan.2017/Associated Press)

A problemática não é exatamente nova. Negociações entre representantes das atletas e a US Soccer (a federação de futebol dos EUA, que paga os salários das atletas da seleção) para firmar um novo contrato de trabalho, que expirou no fim de 2016, estendem-se há semanas, sem uma definição, favorável ou não, às jogadoras. Sem acordo, uma greve é provável.

Para Morgan, que citou que as australianas já se recusaram a jogar pela mesma razão, cruzar os braços tende a ser a única alternativa para que os cartolas se sensibilizem e passem a dar às mulheres o merecido valor.

“Você sabe que merece ganhar mais do que seu patrão está lhe pagando. Para forçar uma mudança, às vezes é necessário bater o pé.”

A popularidade da seleção feminina nos EUA conta a favor dela e de suas companheiras.

Por exemplo, a média de público que elas obtiveram em amistosos disputados em solo americano em 2016 foi de 18,5 mil torcedores – a da seleção masculina, de 9,2 mil.

Historicamente, a seleção feminina sempre foi uma potência, diferentemente da masculina. Elas ganharam a Copa do Mundo três vezes (1991, 1999 e 2015), mais que qualquer outra seleção. Eles conseguiram no máximo o terceiro lugar, e isso em 1930, na primeira edição do Mundial masculino.

O soccer (o nosso futebol, já que football para os estadunidenses é o futebol americano, aquele da bola oval), e isso eu ouço desde criança, sempre foi considerado um esporte “delas”, não “deles”, nos EUA – ao contrário do que se passa no Brasil e na maior parte do planeta, onde, até não muito tempo atrás, mulher boleira era malvista, tachada de “sapatão”.

Somente nos últimos 20 anos é que o soccer tem crescido no universo norte-americano masculino, e recentemente a MLS (Major League Soccer, o campeonato norte-americano de futebol) vem obtendo mais exposição e, com algumas atrações estrangeiras (o brasileiro Kaká entre elas), atraído mais interesse do público.

Mas ter a imagem do esporte mais ligada a elas e obter resultados esportivos significativos não bastam para igualar os salários.

É preciso pesar na balança o número de patrocinadores que querem ligar seu nome à seleção feminina dos EUA, o quanto de produtos licenciados (como camisas, bonés, agasalhos, copos, chaveiros, ímãs de geladeira e outros suvenires) ela tem vendido, o quanto a TV paga para a exibição dos jogos, qual a audiência das partidas.

Quanto mais dinheiro entra relacionado a elas, mais força elas têm para barganhar um reajuste nos vencimentos.

Um bom argumento é o número de pessoas nos EUA que assistiram pela TV à decisão da Copa do Mundo de 2015, no Canadá. Foram 26 milhões. As americanas golearam as japonesas por 5 a 2, em Vancouver.

“O Mundo é uma Bola” entrou em contato com a US Soccer duas vezes para obter uma posição sobre a questão salarial e a respeito das declarações de Morgan, mas a entidade não respondeu.

Morgan, na entrevista ao diário inglês, aproveitou para disparar críticas à Fifa. Para a jogadora, a entidade máxima do futebol relega as mulheres a um segundo plano.

Um exemplo, afirmou ela, é a disputa da última Copa do Mundo em gramados artificiais. “Aquilo foi um insulto. Nunca fizeram isso com os homens, e nunca farão. Pensamos em levar o caso à justiça, mas já era tarde.”

Para a americana, cabe à Fifa a responsabilidade de promover, globalmente, uma igualdade maior entre os sexos.

Ela diz entender que “há muito mais dinheiro” girando no futebol masculino, mas considera que esse panorama só mudará se houver mais foco (leia-se investimento em massificação, marketing e divulgação) no futebol feminino de quem comanda o esporte.

Falta vontade, segundo a atleta, de se reduzir o abismo entre homens e mulheres.

Um exemplo é a premiação paga para o campeão da Copa do Mundo: as americanas ganharam US$ 2 milhões em 2015; os alemães, R$ 35 milhões em 2014.

2016 Rio Olympics - Soccer - Preliminary - Women's First Round - Group G USA v New Zealand - Mineirao - Belo Horizonte, Brazil - 03/08/2016. Meghan Klingenberg (USA) of United States of America and Alex Morgan (USA) of United States of America celebrate a goal of Alex Morgan (USA) of United States of America (not pictured). REUTERS/Mariana Bazo
Morgan (13) e a compatriota Meghan Klingenberg na partida dos EUA contra a Nova Zelândia na Olimpíada do Rio; as americanas caíram nas quartas de final, diante da Suécia, nos pênaltis (Mariana Bazo – 3.ago.2016/Reuters)

A Fifa, ao menos no discurso, afirmou estar atenta a trabalhar para que a diferença entre homens e mulheres no futebol seja paulatinamente reduzida.

“A premiação da Copa do Mundo de 2015 cresceu 50%, para um total de US$ 15 milhões”, declarou a “O Mundo é uma Bola”, por meio de um porta-voz, a entidade, acrescentando que o Mundial canadense foi o sétimo, na história, disputado por mulheres, ao passo que a Copa masculina caminha para sua 21ª edição. “Contudo, é importante não somente elevar o prêmio em dinheiro, mas também levar em consideração a situação geral do futebol feminino, incluindo a meta de igualar o nível entre homens e mulheres.”

“O que a Fifa tem feito para que o futebol feminino cresça mundialmente?”, questionei.

Em resposta, houve a solicitação para que eu lesse um comunicado do dia 13 de outubro de 2016, no qual a Fifa apresenta um projeto para o futuro chamado de Fifa 2.0.

Um dos tópicos versa a respeito do futebol feminino.

De acordo com a Fifa, foi traçada a meta de dobrar para 60 milhões, até 2026, o número de jogadoras de futebol no mundo “por meio do desenvolvimento e execução de uma estratégia que deixe o futebol feminino em evidência”.

“Durante a próxima década, a Fifa se comprometerá a repassar US$ 315 milhões para seus membros associados com a finalidade de incentivar o investimento no futebol feminino, incluindo fundos para a bem-sucedida organização de ligas das categorias de base e ligas profissionais, e a criação de uma estratégia de desenvolvimento do futebol feminino. Isso se somará aos recursos destinados à recém-criada Divisão de Futebol Feminino.”

Na teoria, soa promissor. É preciso saber se na prática funcionará.

Em tempo: Em meio às negociações salariais, a seleção dos EUA tem um torneio internacional, a Copa SheBelieves, agendado para o início de março (dias 1º a 7), em solo americano. Participarão, além da equipe anfitriã, Alemanha, França e Inglaterra. Isso se as norte-americanas jogarem, já que, sem um acordo, essa é uma oportunidade para a greve ser iniciada. Para não manchar a imagem do país internacionalmente, é quase certo que elas entrem em campo. Porém, se um novo contrato trabalhista não for firmado na próximas duas semanas, é bem provável que as americanas boicotem a NWSL, a liga de futebol feminino dos EUA. As equipes iniciam os treinamentos para o campeonato no dia 13 de março.

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