Lille capitaliza ato sexista de torcedor rival e oferece ingresso grátis para mulheres
Até quando o machismo e o sexismo vão existir no futebol? Até quando “ogros” falarão de peito aberto que “futebol é coisa pra homem, lugar de mulher é na cozinha”?
Faz uns meses, escrevi, em um texto que relatava que dois jogadores tchecos tinham mandado uma bandeirinha “pilotar o fogão” depois de ela ter cometido um erro em uma partida, o seguinte: “A verdade é que, no futebol, nunca foi visto com bons olhos pela maioria dos praticantes masculinos a presença de mulheres no ambiente “deles”. Na torcida, tudo bem. Mas como árbitras, assistentes, dirigentes, treinadoras, preparadoras etc., não”.
Pois bem. O “na torcida, tudo bem” não é assim tão tudo bem, não.
Veja o que aconteceu na França, país aclamado por seus ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade” (o lema da Revolução Francesa), em Lyon x Lille, no sábado (28), pelo Campeonato Francês (Ligue 1).

No local destinado à torcida do Lyon, a TV captou imagens de um torcedor exibindo duas bandeiras: uma indicando que as mulheres não deveriam estar na cozinha e outra mostrando que o estádio era lugar dos homens. Em bom português: “Caiam fora do nosso território e cozinhem para nós”. As mulheres ao redor eram minoria.
Pelas informações publicadas nos sites de vários meios de comunicação, ninguém se manifestou contrariamente, naquele momento, ao rapaz machista.
Também não se divulgou se ele estava acompanhado de outros que pensam como ele, mas possivelmente sim; gente desse tipo precisa de companhia para se sentir destemida e protegida.
Como ele chegou à arquibancada com essas bandeiras? Não se sabe. É algo que as autoridades francesas deveriam investigar, pois uma revista minuciosa na entrada do estádio seria suficiente para que o material fosse identificado e recolhido.
Como os times que disputavam a partida reagiram ao fato? Ambos, e assim era de se esperar, condenaram a atitude.
O Lyon, mandante, prometeu identificar e processar o manifestante. Correto. Clube e polícia têm de se mexer. Se houver impunidade, haverá repetição.
Melhor fez o visitante, que, aliás, ganhou o jogo por 2 a 1.

O Lille ofereceu às mulheres ingresso de graça para o jogo deste sábado (4). A equipe, 11ª colocada na tabela, recebe o lanterna Lorient (20º) no estádio Pierre Mauroy.
“Mulheres aqui são bem-vindas”, tuitou, com certa dose de humor, o clube.
Nesta sexta (3), o Lille informou que mais de 3.000 bilhetes já tinham sido reservados.
E disparou uma nova mensagem na rede social: “Oh, quanto entusiasmo, madames! Obrigado e até amanhã!”.

Criativa e repleta de cavalheirismo a sacada do Lille – logicamente há marketing na ação, mas mesmo assim é digna de aplausos.
E a valorização da mulher pelo clube ocorre justo em uma semana na qual a autoestima das francesas deve estar nas alturas, já que a representante do país, Iris Mittenaere, de 24 anos e 1,73 m, venceu o concurso de Miss Universo.
Miss Universo à parte, o Lille fez bonito ao mostrar que a igualdade de gênero está mais em alta do que nunca e deve prevalecer, sempre.