Tchecos mandam bandeirinha pilotar fogão e são obrigados a treinar com mulheres

Por Luís Curro

“Lugar de mulher é na cozinha, pilotando um fogão.”

Há dezenas de comentários sexistas mundo afora, e esse é um dos mais populares.

Dois jogadores do Sparta Praga, da República Tcheca, Tomas Koubek, de 24 anos, e Lukas Vacha, de 27 anos, recorreram a esse expediente para atacar uma bandeirinha no jogo entre a equipe e o Brno, no domingo (2), pelo campeonato nacional do país.

Quarto colocado na tabela, o time da capital ganhava por 3 a 2 até os 47 minutos do segundo tempo, fora de casa, quando Hycka, do Brno, antepenúltimo colocado, empatou.

O gol saiu em jogada de escanteio. Vavra cruzou na grande área, Polak cabeceou na direção da pequena área, e Hycka, em claro impedimento, girou o corpo para mandar para as redes.

Bastou para Koubek, goleiro do Sparta e da seleção tcheca (na qual é reserva), condenar a assistente Lucie Ratajova, de 36 anos, pela não marcação da irregularidade.

E disparar o ataque vil: “Na minha opinião, mulheres devem permanecer no fogão e não participar de jogos masculinos de futebol”.

Sparta Praha v Inter Milan - UEFA Europa League Group Stage - Group K - Generali Arena, Prague, Czech Republic - 29/09/2016. Goalkeeper Tomas Koubek of Sparta Praha celebrates victory. REUTERS/David W Cerny ORG XMIT: INK871
Koubek, goleiro do Sparta Praga (República Tcheca), em jogo na Liga Europa contra a Inter de Milão; para ele, “lugar de mulher é no fogão” (David W. Cerny – 29.set.2016/Reuters)

Ele teve o apoio do meia Vacha, que nem esteve na partida contra o Brno por estar contundido. “Para as panelas”, escreveu em rede social, junto com uma foto de Ratajova.

Erros de arbitragem acontecem no futebol, fazem parte do esporte (as autoridades querem minimizá-los por meio da introdução da tecnologia, e já expus minhas restrições a essa mudança), e os árbitros erram tanto quanto as árbitras – não conheço estudo ou estatística que mostre que elas cometem mais falhas que eles.

Ratajova, além disso, tem vários anos de carreira, não é uma novata (calouros e calouras ficam mais sujeitos a falhas, devido à inexperiência), e desde 2009 pertence aos quadros da Fifa. Cometeu um erro. Ponto.

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Lucie Ratajova, alvo de sexismo de Vacha, do Sparta: “Para as panelas” (Reprodução/Twitter Lukas Vacha)

A verdade é que, no futebol, nunca foi visto com bons olhos pela maioria dos praticantes masculinos a presença de mulheres no ambiente “deles”. Na torcida, tudo bem. Mas como árbitras, assistentes, dirigentes, treinadoras, preparadoras etc., não.

Minha opinião: não vejo problema nenhum.

“Mulher não entende de futebol” é uma definição antiquada e machista. Basta que ela se prepare. Que esteja bem fisicamente, conheça as regras e tenha personalidade para suportar eventuais críticas – e as inevitáveis cantadas e/ou grosserias que vêm das arquibancadas.

De toda forma, avalio que não haja um grande interesse das mulheres em exercer essas funções futebolísticas (árbitras, assistentes e outras). Com algumas poucas exceções, elas preferem outros tipos de atividades na vida.

Mas que há preconceito contra as que se aventuram, há.

Felizmente, as ofensivas de Koubek e Vacha não escaparam ilesas. Mesmo depois de ambos terem pedido desculpas pelas atitudes sexistas, a punição aplicada pelo Sparta foi exemplar. A direção fez com que os jogadores treinassem com a equipe feminina do clube.

Mesmo que não tenham exposto o sentimento ao passar por isso, estou certo de que Koubek e Vacha sentiram-se humilhados, tendo sido alvo de brincadeiras de colegas. Outra certeza: pensarão muito bem antes de adotar condutas ofensivas a uma mulher, dentro ou fora do futebol.

Em relação a Ratajova, e a qualquer outro árbitro(a) e/ou assistente que cometa erros frequentes ou um erro que influencie no resultado de uma partida, cada federação deve agir para que isso seja minimizado. Qual a melhor punição? A famosa “geladeira”: afastamento por um período (o tempo deve depender da gravidade da falha), no qual deve ser feita uma reciclagem para que aquele(a) que falhou volte a atuar com mais preparo e atenção. A pena para Ratajova foi de quatro jogos.

Em tempo: No Brasil, lembro-me da desconfiança em relação a Silvia Regina de Oliveira, até hoje a única juíza brasileira de grande renome, que despontou no início dos anos 2000 e arbitrou por vários anos nas divisões de elite de São Paulo e do Brasil. Ela foi uma pioneira ao superar barreiras e firmar-se na carreira – apitou até 2007, aos 42 anos. Os de boa memória hão de se lembrar do erro mais grave dela: em Santacruzense x Atlético Sorocaba, em 2006, pela Copa FPF, ela validou um “gol de gandula”. Isso mesmo. Em um ataque do time da casa, o chute foi para fora, perto da trave esquerda do goleiro. Um gandula pegou a bola segundos depois e a colocou dentro da meta sorocabana. Inacreditavelmente, Silvia Regina deu o gol! Depois pôs a culpa no auxiliar, afirmou que validara o gol antes da intervenção do gandula… mas nada se justificava (até porque a bola tinha ido para fora). Foi um erro muito, mas muitíssimo mais grave que o impedimento não marcado pela tcheca Ratajova em Brno x Sparta. E nem por isso alguém mandou (ao menos não abertamente) Silvia Regina “pilotar fogão”.