Americano que apitou jogos de Corinthians e Palmeiras comete erro crasso

Nenhum jogador que defendia o Corinthians ou o Palmeiras naquele momento irá se lembrar, não claramente, de Jonathan J. Bilinski, conhecido como JJ.

Afinal, o encontro entre eles ocorreu já faz tempo, no começo de 2020, nos EUA, em época pré-pandemia de coronavírus.

Os dois times paulistanos estavam em Orlando, para a disputa da Florida Cup, torneio preparatório para a temporada. Os corintianos eram treinados por Tiago Nunes, e os palmeirenses, por Vanderlei Luxemburgo.

Tanto no dia 15 de janeiro, quando o Corinthians ganhou de 2 a 1 do New York City (gols de Luan), como no dia 18, quando o Palmeiras superou o mesmo oponente também por 2 a 1 (gols de Lucas Lima e William Bigode), o árbitro foi Bilinski.

JJ teve atuações consideradas normais, sem polêmicas registradas. Alguns cartões amarelos mostrados, nenhum vermelho.

No máximo, se questionados, os atletas dirão se recordar de um juiz careca que tinha certa semelhança com o brasileiro Anderson Daronco.

De lá para cá, JJ, árbitro associado à US Soccer Federation (a federação de futebol dos EUA) desde 2010, não mudou a aparência e continuava apitando nos campeonatos em que era escalado.

Incógnito, repentinamente isso mudou. Infelizmente para ele, a fama veio não por ter apitado uma partida importante e/ou por ter tido um desempenho digno de elogios.

Dizem que o juiz de futebol bom é aquele que consegue ser discreto, que não aparece, que quase não tem seu nome mencionado pelo narrador em uma partida.

Pois em Miami FC x Pittsburgh Riverhounds, pela USL Championship (a segunda divisão norte-americana), no estádio da Universidade Internacional da Flórida, em Miami, JJ cometeu um dos erros mais clamorosos que eu já vi no futebol.

Ele deixou de validar um gol legal do time visitante, aos 22 minutos do segundo tempo, quando o duelo estava 0 a 0.

Não era uma jogada difícil.

O Miami tinha uma falta no seu campo de defesa. Um jogador a cobrou, dando um passe lateral para um companheiro, que recuou a bola para o goleiro Connor Sparrow.

O guarda-metas esticou a perna direita e, bizarramente, não alcançou a pelota, que passou vagarosamente por ele e… gol contra.

Inacreditavelmente, JJ, que acompanhava a jogada a uma distância adequada, anulou o gol, surpreendendo jogadores, comissões técnicas, torcedores (eram 1.083 naquela noite).

JJ considerou que o alemão János Löbe, que passou a bola para o goleiro, o fez diretamente da cobrança da falta, sem tê-la recebido de um colega.

Nesse caso, se a bola vai para o gol sem tocar em ninguém, deve-se marcar escanteio para a outra equipe. JJ assim o fez.

O mais incrível é que nenhum dos auxiliares (bandeirinhas) dele, Justen Lopez e Juan Pablo Casas, discordou da marcação estapafúrdia. A partida não tinha VAR (árbitro assistente de vídeo).

“[Os árbitros] disseram que tinha sido o primeiro passe [na batida da falta], mas nitidamente não foi. Nós vimos, Paul Dalglish [técnico do Miami] viu, e inclusive falou que era gol. Um gol legítimo”, declarou depois do jogo o treinador Bob Lilley, do Pittsburgh.

A Organização de Árbitros Profissionais (OAP) revisou o lance alguns dias depois e, diante de tão escandalosa evidência, não teve escolha a não ser reconhecer o erro crasso de JJ e dos bandeirinhas.

Resultado dessa conclusão, a USL (United Soccer League), controladora da segunda divisão: confirmou o gol; decidiu que os minutos do jogo posteriores ao gol deveriam ser disputados de novo; colocou JJ e os auxiliares “na geladeira” (suspensão por determinado período).

“Os juízes aplicaram uma lei que não coincidia com os eventos no campo, e isso ultrapassou o grau aceitável de erro humano que é inerente às partidas. Esse acontecimento extraordinariamente raro nos fez pedir aos clubes que repetissem o resto da partida, com o placar em 1 a 0”, disse Jake Edwards, presidente da USL.

OAP e USL ainda promoveram uma investigação, a fim de tentar descobrir se haveria indícios de manipulação de resultado na partida, porém nada foi encontrado. Ou seja, não houve má-fé ou arranjo, mas “cegueira coletiva” mesmo da arbitragem.

Onze dias depois, no dia 27 de outubro, com um novo árbitro, Elvis Osmanovic (que não é careca), e sem público, o jogo teve a metade final do segundo tempo “rejogada”, e não houve incidentes até o seu encerramento.

O Pittsburgh resistiu à pressão do Miami e assegurou a vitória pela vantagem mínima, com um gol que lhe foi concedido pela USL no dia 22, ou quase uma semana após a insólita lambança de JJ.