Clube mexicano tenta fazer dinheiro com dedada no olho

Qualquer ato de agressão no futebol é condenável, seja com a bola rolando ou não, e dessa vez a atitude foi feia.

Mais feio que o ato em si é tentar capitalizar com isso. Pior, só se as pessoas gostarem e aprovarem.

Em partida da décima rodada do Campeonato Mexicano, no célebre estádio Azteca (palco de duas finais de Copa do Mundo, uma em 1970, uma em 1986), na capital do país, América e Chivas empataram sem gols.

O momento memorável do duelo teve como protagonistas o lateral Miguel Ponce, do time de Guadalajara, que atuava como visitante, e o atacante Henri Martín.

No final do primeiro tempo, depois de um ataque infrutífero do América, com a jogada já paralisada, iniciou-se um empurra-empurra, causado por um esbarrão intencional de Ponce em Martín na linha de fundo.

Os ânimos se exaltaram e, durante o entrevero –do qual até reservas participaram–, Ponce enfiou os dedos no olho esquerdo de Martín, que imediatamente desabou.

O árbitro César Arturo Ramos decidiu dar o cartão amarelo para os dois jogadores.

A partida tinha o VAR (árbitro assistente de vídeo), porém esse não era um lance passível de consultá-lo –se fosse, e deveria ser, talvez o juiz optasse pela expulsão do atleta do Chivas.

Martín felizmente não teve nenhuma lesão ocular e pôde voltar para o segundo tempo, sendo substituído aos 29 minutos. Ponce atuou até o apito final.

O Chivas, entretanto, decidiu se promover por meio do episódio nada dignificante dos dedos no olho, que teve grande repercussão nas redes sociais.

Em uma postagem no Twitter, o clube assim escreveu, com o intuito de ampliar a venda das camisas da equipe: “Que não lhe custe o olho da cara! Miguel Ponce dá um desconto de 20% para que tenha a camisa mais bonita do México. Aproveite”.

A mensagem se encerrava com o endereço da loja virtual da equipe, cuja camisa número 1 tem listras verticais brancas e vermelhas, com as mangas em azul escuro.

Além de tentar faturar com a desgraça alheia, o Chivas usou um jogo de palavras forçado, tentando relacionar a atitude agressiva (dedos no olho) com a expressão (olhos da cara) que significa que algo custa muito caro.

Contestável, a ideia teve repercussão favorável. Até o momento em que escrevo, o post tinha 4.123 curtidas –pessoas que gostaram da ação– e 478 compartilhamentos.

Custa-me acreditar a que ponto chega uma estratégia de marketing.

Em vez de propagandear os feitos do time (gols, grandes jogadas, dribles, comemorações) para alavancar as vendas de produtos, recorre-se a um ato hostil, reprovável, indigno, que pode inclusive causar lesão ocular.

Custa-me também acreditar que colegas de time de Ponce apoiaram ou deram de ombros para o gesto, casos de Alexis Vega (“Bela dedada”) e Hiram Mier (“Nem notei”).

Custa-me mais ainda acreditar que muita gente achou sensacional a “sacada”, que é de mau gosto e em clara inconsonância com os valores esportivos.

Deixam todos esses (Ponce, companheiros de Ponce, clube de Ponce, marqueteiros do clube de Ponce, fãs do gesto de Ponce) um péssimo exemplo, não só para o mundo futebol mas para todo o mundo.