A maior zebra da história da Liga dos Campeões da Europa

Nem o mais pessimista torcedor do Real Madrid poderia imaginar o que estaria por acontecer na noite da terça-feira, 28 de setembro, na capital espanhola.

No estádio Santiago Bernabéu, o todo-poderoso time merengue notabilizou-se de forma desmesurada ao perder para o Sheriff Tiraspol, da Moldova, um calouro na fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa.

O resultado pode ser considerado a maior zebra dos 66 anos de disputa do principal interclubes europeu, chamado a partir de 1992 de Champions League e que antes era European Cup (Copa Europeia).

Houve outros resultados imprevistos na competição, que é realizada desde 1956? Sim. Mas nenhum da magnitude de Real Madrid 1 x 2 Sheriff.

Feita uma pesquisa, ano a ano, pode-se concluir que as maiores surpresas na Copa Europeia, que confrontava as equipes em jogos eliminatórios de ida e volta, foram:

  • a queda do então hexacampeão Real Madrid diante do belga Brugge, nas oitavas de final da edição 1976-77 (0 a 0 na Espanha, 0 a 2 na Bélgica);
  • a queda desse mesmo Real Madrid ante o suíço Grasshopper, nas oitavas de final da edição 1978-79 (3 a 1 na Espanha, 0 a 2 na Suíça, sendo o critério de desempate o gol fora de casa);
  • a queda do então bicampeão Liverpool diante do georgiano Dinamo Tbilisi, estreante na competição, no mata-mata inicial da edição 1979-80 (2 a 1 na Inglaterra, 0 a 3 na Geórgia, então uma república soviética);
  • a queda da Inter de Milão, então campeã nacional, ante o sueco Malmö no mata-mata inicial da edição 1989-1990 (0 a 1 na Suécia, 1 a 1 na Itália).

Todas essas eliminações não eram esperadas, os triunfos dos azarões causaram espanto, porém o único embaraço de primeiríssima linha foi o do Liverpool.

O Real Madrid caiu com derrota fora de casa nas duas vezes, e a Inter perdeu pelo placar mínimo como visitante na ida e empatou o duelo de volta.

Na fase moderna da Liga dos Campeões, coube ao Barcelona, maior rival do Real Madrid, o papel de principal vítima de um azarão. Duas vezes.

  • A primeira em 1992. Oitavas de final. Sob o comando do lendário Johan Cruyff (1947-2016), o Barça empatou por 1 a 1 com o russo CSKA, em Moscou. Na Espanha, depois de estar vencendo por 2 a 0, levou três gols, dois no segundo tempo, e sucumbiu.
  • A segunda em 2009. Fase de grupos. No Camp Nou, com Messi titular, o Barça de Pep Guardiola recebia o estreante russo Rubin Kazan. Saiu atrás (Ryazantsev), empatou com Ibrahimovic, porém tomou mais um gol (Karadeniz) e sucumbiu. O revés não impediu que o time catalão avançasse –o Rubin não se classificou.

Outro resultado inesperado que se tornou famoso data de 2012, quando, nas oitavas de final, o APOEL, do Chipre, em seus domínios, eliminou nos pênaltis o francês Lyon.

Dessa lista de desfechos tremendamente improváveis, por que a derrota do Real Madrid para o Sheriff é a maior de todas as zebras, superando Dinamo Tbilisi 3 x 0 Liverpool e Barcelona 1 x 2 Rubin Kazan?

Porque, além de atuar em casa (o Liverpool perdeu fora), o Real é disparado o maior vencedor da Liga dos Campeões da Europa (13 troféus; o Liverpool tem seis, e o Barcelona, cinco), ou seja, é mais que todos “o” time a ser batido.

E porque o Sheriff é de um país, a Moldova (ex-república soviética), que está na periferia da bola (jamais ficou perto de se classificar para Copa do Mundo ou Eurocopa), ocupando a 180ª posição (de 210) no ranking da Fifa –está logo atrás de “potências” como Montserrat, Camboja e Cuba.

Como não bastasse, o gol da vitória do Sheriff (que marcou primeiro, com Yakhshiboev, tendo Benzema, de pênalti, empatado) saiu perto do fim, aos 44 minutos do segundo tempo, em um dos ataques esporádicos do azarão.

E foi marcado por um jogador de um país sem nenhuma expressão no futebol. O volante Sébastien Thill, que ganhou fama repentina ao acertar de canhota o ângulo do goleiro Courtois, é nascido em Luxemburgo.

Thill, assim como o goleiro grego Athanasiadis, que fez dez defesas na partida, calaram o Santiago Bernabéu e astros do Real Madrid como Modric, Kroos e Vinicius Júnior, além do vitorioso treinador Carlo Ancelotti.

Em silêncio, 24,5 mil torcedores (30% da capacidade do estádio, devido às restrições da pandemia de Covid) presenciaram a zebra zurrar alto como jamais se ouviu na Liga dos Campeões da Europa.

O goleiro grego Athanasiadis, que fez defesas importantes, e o compatriota Kolovos festejam no gramado do Santiago Bernabéu a histórica vitória do Sheriff sobre o Real Madrid (Javier Soriano – 28.set.2021/AFP)

Em tempo: Sete brasileiros participaram do histórico jogo em Madri. Pelo Real, os selecionáveis Éder Militão, Casemiro, Vini Jr. e Rodrygo. Pelo Sheriff, Cristiano (que fez o cruzamento no primeiro gol), Fernando Costanza (ex-Botafogo) e Bruno Souza.