Cidadãs de segunda classe

É constante a luta das mulheres por igualdade nos direitos. Isso de maneira geral, mas o espaço aqui trata de futebol.

Nesse esporte, elas lutam por melhores salários, por melhores condições profissionais (como infraestrutura adequada para treinamento), por mais visibilidade nos meios de comunicação. Por respeito e por reconhecimento.

As conquistas são poucas, vêm a passos lentos, e a diferença escancarada para o universo masculino gera insatisfação.

Uma das queixas recentes partiu de Emma Hayes, treinadora do time feminino do Chelsea, da Inglaterra, um dos clubes mais poderosos do mundo.

Emma tem 44 anos, nunca foi jogadora, porém sua ligação com o futebol é antiga. Desde 2001 comanda equipes –começou no Long Island Lady Riders e passou por Iona College e Chicago Red Stars (todos dos EUA) antes de assumir o Chelsea, em 2012.

A londrina Emma Hayes comanda treinamento do Chelsea antes da final da Champions League deste ano, vencida pelo Barcelona (Jonathan Nackstrand – 15.mai.2021/AFP)

Ela reclamou da falta de ferramentas tecnológicas nas partidas do Campeonato Inglês feminino, a saber, o VAR (árbitro assistente de vídeo), com múltiplas funções, e a tecnologia da linha de gol, que indica se a bola entrou ou não na meta.

Esses dois recursos estão disponíveis nos jogos da Premier League, a versão masculina (primeira divisão) do Inglês.

“Todos nos acostumamos com o VAR e a tecnologia na linha do gol, então acho que não tê-los no jogo feminino é como sermos relegadas a cidadãs de segunda classe”, declarou Emma à Sky Sports depois do jogo em que o Chelsea perdeu de 3 a 2 do Arsenal, no dia 5.

O gol de Beth Mead, que ampliou para 3 a 1 a vantagem do Arsenal no segundo tempo, foi irregular. A atacante estava em claro impedimento, não anotado pela bandeirinha. Sem o auxílio da videoarbitragem, o gol foi validado.

“Ela [Beth Mead] estava dois metros à frente”, constatou a técnica do Chelsea. “Devíamos exigir isso [o VAR]. Não devemos esperar padrões mais baixos para o futebol feminino.”

“Dizem que [a tecnologia nos jogos femininos] não é prioridade porque é muito cara. Mas eu considero que estamos vendendo barato nosso produto”, completou Emma.

Mana Iwabuchi, do Arsenal, no momento do lançamento para Beth Mead, que está em posição de impedimento (Reprodução/Arsenal no YouTube)

O VAR é controverso e está longe de resolver todas as falhas da arbitragem de campo. O próprio árbitro assistente de vídeo comete erros, algumas vezes incompreensíveis.

Porém, no caso mencionado por Emma, se houvesse a tecnologia, que almeja evitar “erros claros e óbvios”, não há dúvida de que o gol do Arsenal seria anulado.

Independentemente desse lance, a treinadora do atual bicampeão inglês está coberta de razão.

Em uma sociedade que almeja a igualdade entre os gêneros, a falta do VAR nos campeonatos femininos é relutância inequívoca a esse objetivo.

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Em tempo: No Brasil, a comparação é esta: enquanto o Campeonato Brasileiro masculino da Série A conta com o VAR em todos os jogos (380), o da Série B em 190, o da Série C em 26 e o da Série D (quarta divisão) em 14, o Brasileiro feminino, que já está na decisão (Corinthians x Palmeiras), só pôde tê-lo a partir das semifinais, em um total de seis partidas.