Ex-goleiro mexicano tem o mesmo pesadelo há 15 anos

A derrota faz parte do futebol. Ninguém gosta dela, mas ela está presente, como um dos três resultados possíveis, em toda partida.

Algumas derrotas causam maior sofrimento. São aquelas que significam a eliminação da equipe de determinada competição.

Há jogadores e treinadores que assimilam melhor o baque e logo estão prontos para encarar o próximo campeonato. Devem pensar, laconicamente: “Não deu. Já passou, sigamos”.

Outros têm dificuldade para esquecer o momento. Levam dias, semanas, meses remoendo lances do jogo, tentando entender os porquês do revés, algumas vezes se culpando pelo ocorrido. Devem pensar: “Como perdi aquele gol? Por que não evitei aquele gol?”.

Dois goleiros são exemplos extremos dessa dificuldade de superar uma derrota marcante.

Um deles já está aposentado. O mexicano Oswaldo Sánchez afirma que há 15 anos acorda à noite com o pesadelo do gol que a Argentina marcou na prorrogação, no dia 24 de junho de 2006, na Copa da Alemanha.

Na prorrogação, Maxi Rodríguez recebeu lançamento de Sorín na entrada da área, matou no peito e, sem deixar a bola cair, chutou de pé esquerdo.

A bola foi no ângulo de Sánchez. O gol, um dos mais bonitos daquele Mundial, significou o 2 a 1, de virada, e a queda do México nas oitavas de final.

“Ainda dói. Sonho e acordo chorando com a lembrança dessa imagem”, disse em entrevista à jornalista Adela Micha Zaga, sua compatriota, no programa Saga Live.

Sánchez tem 47 anos. Ou seja, em quase um terço de sua vida convive com um “fantasma” que o impede de dormir direito.

E ele não teve responsabilidade no gol. Considero o chute de Maxi Rodríguez indefensável. Nem Sánchez nem ninguém defenderia.

Oswando Sánchez salta, mas não consegue evitar o golaço do argentino Maxi Rodríguez no jogo em Leipzig em que o México foi eliminado da Copa de 2006 (Odd Andersen – 24.jun.2006/AFP)

O italiano Gianluigi Buffon, na ativa ao 43 anos, titular da Itália campeã na Copa de 2006, passa por situação similar ao do colega de posição mexicano.

Só que no caso dele, um dos melhores goleiros da história, a culpa o acompanha. Ou o acompanhava até uns meses atrás.

“É um jogo no qual penso de três a quatro vezes por semana e que me traz muito arrependimento”, declarou Buffon, em dezembro passado, ao jornal L’Équipe.

Fazia referência à eliminação do Paris Saint-Germain diante de um tremendamente desfalcado Manchester United na Champions League de 2018/19.

Depois de ter ganhado o jogo de ida das oitavas de final por 2 a 0, na Inglaterra, o PSG jogava em casa, no dia 6 de março de 2019, com ótima vantagem para avançar às quartas.

Aos 30 minutos de partida, o inesperado. Com 1 a 1 no placar, Rashford chuta de longe, e Buffon se agacha para uma defesa teoricamente fácil. Mas bateu roupa, e a bola sobrou para Lukaku colocar o United na frente.

A falha se mostrou decisiva somente nos acréscimos do segundo tempo, quando ao converter um pênalti –muito contestado pelo PSG– o time inglês fez 3 a 1 e eliminou o francês.

“Eu me culpo por um erro inacreditável. Um erro que, com a experiência que tenho, não deveria ter cometido.”

Se serve de consolo a Buffon, sua aflição tem duração bem menos prolongada que a de Sánchez –e, pelo que se saiba, não lhe tira o sono.

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Em tempo: Quem também se sentiu muito angustiado com um resultado adverso em uma competição importantíssima (a mais importante de todas) é o técnico da seleção brasileira, Tite. No programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, no fim de 2018, quatro meses depois de o Brasil perder de 2 a 1 da Bélgica nas quartas de final da Copa do Mundo na Rússia, ele afirmou: “Dia sim, dia não, eu acordava no meio da noite e dizia: ‘Nós empatamos!’.”.