Em curto período, futebolista trans tem duas vitórias pessoais

Mara Gómez detém o pioneirismo de ter se tornado a primeira trans a atuar na liga de futebol da Argentina.

Em dezembro, quando estava com 23 anos (hoje tem 24), com a camisa do modesto Villa San Carlos, ela enfrentou o Lanús, em partida pela primeira divisão do campeonato feminino.

Essa foi uma vitória inicial, já que Mara considera o futebol “metade de mim, é o que me faz caminhar pela vida”.

Neste ano, e em um intervalo de apenas 16 dias, ela conseguiu outras duas vitórias, bastante significativas, expostas em rede social.

A primeira foi o anúncio de que o Estudiantes de La Plata, um dos principais clubes da Argentina, a contratou. La Plata é a terra natal de Mara.

“Obrigada por abrir as portas para mim, por me receber com tanto carinho e ser hoje mais um clube que dá exemplo de inclusão, que entende que paixão não tem gênero nem sexo, que paixão é de todos”, escreveu ela.

A segunda, Mara deu a conhecer cinco dias atrás. Ela finalizou curso de enfermagem e poderá atuar na área de saúde.

“Nunca desisti, apesar de todas as adversidades que a vida me trouxe. Hoje cumpro meu segundo objetivo na vida, sou enfermeira profissional. Mais uma vez, mostro a mim mesma que posso e que, por mais difíceis que sejam os caminhos, nada é impossível.”

A Argentina é tida como um país que promove os direitos LGBTQIA+, sendo o primeiro da América Latina a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Também deu às pessoas a liberdade de mudar de gênero sem precisar passar por procedimentos judiciais, médicos ou psiquiátricos.

A argentina Mara Gómez, jogadora trans, vestida como enfermeira (maragomez.oficial no Instagram)

Há, entretanto, quem discorde da presença de Mara entre as futebolistas nascidas mulheres.

É o caso de Kirralie Smith, da organização australiana Binary, que almeja “promover e celebrar as igualdades e diferenças inerentes entre meninos e meninas, homens e mulheres”.

Segundo Kirralie, no caso de Mara, há uma vantagem científica comprovada.

“Existem categorias masculinas e femininas porque homens e mulheres diferem em tamanho, força e velocidade devido às realidades biológicas”, disse em artigo no site da Binary intitulado “Argentina permite homens na liga feminina”.

“Permitir que os machos biológicos compitam como mulheres rouba possibilidades das fêmeas e, em muitos casos, representa uma ameaça real para seus corpos.”

Mara Gómez conduz a bola no jogo do Villa San Carlos contra o Lanús, em dezembro de 2020, pelo Campeonato Argentino (maragomez.oficial no Instagram)

Juan Cruz Vitale, que treinou Mara no Villa San Carlos, discorda. “Não vejo uma vantagem. No quesito força, tenho [no time] pelo menos cinco ou seis meninas mais fortes do que ela”, afirmou em texto publicado no site News18.

Para poder atuar na liga feminina, Mara precisa tomar hormônios que regulem seus níveis de testosterona, com testes feitos antes e durante o campeonato, a fim de competir em condições similares às de suas companheiras que não são trans.

O Estudiantes estreou no Torneio Clausura na segunda-feira (16), com derrota por 3 a 1 para o Platense.

Dezenove equipes disputam o Campeonato Argentino, que existe desde 1991 e tem como maior campeão o Boca Juniors, com 24 títulos.

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