Ícone da Espanha fica fora da Eurocopa em temporada desditosa

Sergio Ramos é um dos melhores zagueiros que já vi jogar. Isso não só em relação à seleção da Espanha, ou ao Real Madrid, mas mundialmente falando.

Ramos é a melhor personificação do xerife em sua posição: não há beque mais durão, que tenha presença mais imponente, do que ele.

Joga tão sério e tão firme que muitas vezes aparenta ser violento, e tenho uma forte percepção de que não seja só aparência, mas realidade, já que ele é um dos campeões de advertências no futebol.

Eu, se fosse atacante, teria receio de confrontá-lo.

Mohamed Salah, do Liverpool, que o diga. O astro do Liverpool, na decisão da Champions League de 2018, em Kiev (Ucrânia), deixou o campo contundido, no primeiro tempo, depois de um enrosco com Ramos, que pareceu aplicar-lhe um golpe de judô.

Dentre os jogadores em atividade, não sei de um que tenha recebido mais cartões vermelhos (26) ou amarelos (265, de acordo com o site Soccerway) do que ele.

Esse estilo rude não o impediu de ser nove vezes incluído na seleção do ano na Europa, em eleição da Uefa (entidade que rege o futebol no continente), atrás apenas das sumidades Cristiano Ronaldo (15) e Messi (12).

Por quê? Porque Ramos tem qualidades capazes de ofuscar seu lado “mau”. Tem boa técnica, passe de qualidade, excelência no jogo aéreo, maestria nas cobranças de pênaltis e liderança nata.

Além disso, é um dos maiores zagueiros-artilheiros da história (129 gols) e uma “garantia” de resultados positivos.

Com a Espanha, foi campeão mundial (2010) e bicampeão da Eurocopa (2008 e 2012). Com o Real Madrid, cinco vezes campeão espanhol (2007, 2008, 2012, 2017 e 2020) e quatro vezes campeão europeu e mundial (2014, 2016-2018), entre outros títulos.

Com todo esse currículo e toda essa mística em torno de si, era esperado que mais uma vez estivesse à frente da Espanha que em junho agora disputará a Eurocopa multissede –haverá jogos em 12 países.

Sergio Ramos, com a tarja de capitão, comemora em Madri gol de pênalti que marcou pela Espanha contra a Suécia, em jogo das eliminatórias para a Eurocopa (Pierre-Philippe Marcou – 10.jun.2019/AFP)

Para ele, seria especial, já que a seleção espanhola jogará na fase de grupos em Sevilha, distante apenas 15 minutos de carro de Camas, cidade onde Ramos nasceu há 35 anos. Foi no Sevilla, aliás, que o jogador atuou na juventude, até 2005.

Não será especial. Ramos teve o pior ano de sua carreira, que culminou com sua não convocação para a Euro pelo treinador Luis Enrique. Problemas físicos foram a alegação.

“Recomendei [a Ramos] que fosse egoísta, que pensasse em si e se recuperasse 100%, para recobrar seu nível e prosseguir jogando pelo clube e pela seleção futuramente”, declarou o técnico da Fúria.

E por que o pior ano profissional? Porque Ramos sofreu seguidamente com lesões –ao todo foram sete, e de quebra ainda contraiu o coronavírus–, que o afastaram de boa parte da temporada.

O capitão do Real Madrid nunca jogou tão pouco pelo time. No Campeonato Espanhol, foram só 15 partidas de 38 possíveis.

Títulos? Zero. O Espanhol ficou com o Atlético de Madrid; a Copa do Rei, com o Barcelona; a Supercopa da Espanha, com o Athletic Bilbao. Na Liga dos Campeões da Europa, queda na semifinal ante o Chelsea, que disputará a final neste sábado (29) com o Manchester City.

Antes titular absoluto do Real Madrid, Sergio Ramos ficou na reserva na última partida do time no Espanhol 2020/21; ao seu lado, o brasileiro Marcelo (Javier Soriano – 22.mai.2021/AFP)

Em meio à penúria física e aos fiascos esportivos, o próximo baque que Ramos deve sofrer se aproxima rapidamente.

Seu contrato com o Real expira no mês que vem, e as negociações pela renovação têm sido infrutíferas.

Para ficar, ele terá de aceitar uma drástica redução salarial –recebe cerca de 15 milhões de libras por ano (R$ 113,2 milhões pelo câmbio atual).

Se não, dará adeus ao clube e encerrará a carreira –caso não decida parar já– sem a camisa 4 merengue, que sobre a sua pele tornou-se uma das mais vitoriosas e aclamadas da história.