Cacoetes de narrador

Neymar não conseguiu jogar seu melhor futebol contra o Manchester City na derrota do Paris Saint-Germain por 2 a 1, na quarta (28), na França, que complicou a vida do seu time nas semifinais da Champions League.

Não pude ver o jogo na íntegra e fui buscá-lo na internet, a fim de analisar melhor o desempenho do camisa 10 e das duas equipes envolvidas.

Ao tentar assistir à versão brasileira, deparei-me não com as imagens da partida exibida pela TNT. A câmera ficava fixa no locutor; no caso, André Henning.

Ok, pensei, certamente será uma experiência diferente, quiçá inédita para um jornalista, acompanhar a partida desse jeito. Estilo rádio, mas com o narrador na tela, dentro do estúdio.

Fiquei imaginando se Henning demonstraria cansaço, ou falta de fôlego, se pigarrearia ou teria sede. Se suaria, se deixaria o microfone cair, se ocorreria qualquer cena surpreendente.

Pois bem. Afora a sede (Henning bebeu líquido, que suponho tenha sido água, de uma garrafa rubro-negra), nada de espetacular ou pitoresco aconteceu.

Porém pude descobrir que Henning, nos momentos de intervenção do comentarista (Vitor Sérgio Rodrigues) ou da repórter (Isabela Palhares), evidenciou uma série de tiques.

Aparentemente involuntariamente, fez movimentos corporais que eu jamais imaginaria que fizesse no decorrer da narração.

Um deles saltou muito à vista. A procura pelo nariz foi constante.

Na soma do primeiro e do segundo tempo, Henning levou uma das mãos ao órgão responsável pelo olfato pelo menos 32 vezes (15 no primeiro tempo, 17 no segundo). Talvez tenham sido mais, essas foram as que contabilizei.

Henning leva a mão ao nariz a 1min15s de PSG x Manchester City; ele repetiria o gesto ao menos 31 vezes nessa partida (Reprodução/TNT Sports Brasil no YouTube)

Esse ato, o de tocar ou coçar o nariz, superou por boa margem outros, como:

  • mexer na boca (lábios);
  • fungar;
  • ajustar o fone de ouvido;
  • arrumar os óculos;
  • acomodar-se melhor na cadeira;
  • gesticular com uma das mãos;
  • fazer caretas;
  • mexer no olho;
  • dar risada;
  • falar com a produção pelo microfone acoplado ao fone;
  • mexer o pescoço;
  • anotar os cartões aplicados pela arbitragem e as substituições feitas;
  • hidratar-se;
  • coçar a careca;
  • mexer no queixo;
  • desviar o olhar da tela para ler um anúncio da programação ou passar dados relacionados à partida.

Henning não precisa, contudo, envergonhar-se de suas mãos procurarem insistentemente o nariz.

A atitude repetitiva não soou mal-educada, pois ele jamais teve a intenção de limpar os orifícios. Eram toques sutis, de um segundo de duração, algo muito provavelmente instintivo.

Henning talvez nem saiba que tem esse cacoete e só terá essa informação caso leia este texto ou caso alguém que o leia notifique-o.

Ademais, uma narração muito boa. Precisa, sem erros, informativa, com alternância constante com o comentarista.

Eu, que anos atrás critiquei o estilo de Henning, hoje devo elogiá-lo. Ele mudou para melhor? Ou eu que me tornei mais tolerante, menos exigente e/ou mais acostumado ao seu estilo meio espalhafatoso? Sim e sim.

Ainda sobre acompanhar uma partida olhando só para o locutor, decidi fazer o mesmo com Real Madrid x Chelsea, a outra semifinal da Liga dos Campeões da Europa, aos cuidados de Jorge Iggor.

Queria saber se a busca pelo nariz era exclusiva de seu colega Henning.

No mesmo estúdio, na mesma cadeira, na mesma posição, só que 24 horas antes… Iggor mostrou ter o mesmo cacoete!

Jorge Iggor narrou na TNT Real Madrid 1 x 1 Chelsea, jogo de ida de uma das semifinais da Liga dos Campeões da Europa (Reprodução/TNT Sports Brasil no YouTube)

Terá, entretanto, de se contentar em ser vice-campeão no quesito, já que levou uma das mãos ao nariz “somente” 20 vezes, somados primeiro e segundo tempo.

De diferente de Henning, Iggor pode se gabar de ter tocado o nariz com o mindinho, sem dúvida um diferencial.

De ter coçado a orelha, a bochecha e a barba rala, coisa que o companheiro de profissão não poderia fazer por ser imberbe.

E de não ter sede –nada bebeu no período da narração–, se é que essa seja uma razão para enaltecimento.

Outra distinção entre eles foi no grito de gol. Henning, cuja duração do ato é mais extensa, o fez olhando para o alto, demonstrando mais intensidade e emoção do que Iggor.

Deixei o elogio a Henning, deixo a Iggor. Narração igualmente de alta qualidade, sem dever nada à de gente mais famosa de emissoras de renome maior.

Perdoe-me, leitor, se você considerou este texto uma cultura inútil, mas creio que vale pela bisbilhotice –certamente você nunca leu nada parecido.

Lamento apenas deixar sem resposta uma questão que talvez jamais seja respondida: será que Galvão Bueno, o mais famoso locutor esportivo do Brasil, tem tiques durante suas narrações?

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