Com Superliga, Clube dos 12 racha Europa e ceifa sonho dos ‘zés-ninguém’

É a notícia do ano no futebol.

Estamos em abril ainda, e não sou profeta para prever o que ocorrerá de agora a dezembro, mas o anúncio da criação da Superliga europeia de clubes, no domingo (18), tem um impacto difícil de ser superado.

O futebol europeu rachou, e instaurou-se um cabo de guerra, com 12 dos mais poderosos clubes do velho continente (os ingleses Manchester United, Manchester City, Liverpool, Chelsea, Tottenham e Arsenal, os espanhóis Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid, e os italianos Juventus, Milan e Inter de Milão) de um lado e todo o resto da Europa do outro.

Ao leitor que não teve conhecimento do fato eis um resumo: essa dúzia de agremiações, que chamarei de Clube dos 12, em uma espécie de movimento separatista, decidiu criar um novo campeonato, gerenciado por elas mesmas, que terá ainda, de acordo com o divulgado, mais oito clubes.

Desses 20, 15 serão fixos –três não foram anunciados–, sem risco de rebaixamento, e os outros cinco, que podem mudar a cada ano, escolhidos por critérios a serem estipulados pelos membros fundadores.

Dessa competição, com a nata das equipes da Europa, passaria a sair o campeão europeu, e não mais da badaladíssima, popularíssima, consagradíssima e tradicionalíssima Champions League, disputada desde 1955, tendo sido o Real Madrid seu primeiro vencedor.

Logicamente a Uefa, entidade máxima do futebol europeu e organizadora da Liga dos Campeões, posicionou-se contra.

Seu presidente, o esloveno Aleksander Ceferin, desferiu ataques ferozes aos dissidentes, chamando-os de “cobras” que “cuspiram na cara de todos os amantes do futebol” ao apresentar um projeto “alimentado acima de tudo pela ganância”.

A revolta de Ceferin baseia-se no que ele apontou como traição de dirigentes como Ed Woodward e Andrea Agnelli, de Manchester United e Juventus, respectivamente.

“Nunca vi uma pessoa que mentisse tantas vezes, com tanta persistência”, afirmou, em referência a Agnelli. “Falei com ele no sábado, e ele disse que havia apenas rumores [acerca da criação de uma Superliga], nada acontecendo. A ganância é tão forte que todos os valores humanos se evaporam.”

O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, durante entrevista na qual abordou a criação da Superliga de clubes (Richard Juilliart – 19.abr.2021/Uefa/AFP)

Ceferin tem sua razão, que deve se mesclar com sua preocupação. O negócio gira basicamente em torno de (muito) dinheiro. Se a Superliga vinga, a Uefa perde sua galinha dos ovos de ouro.

São dezenas de contratos de TV e patrocinadores de diversos países, em todos os continentes, que rendem milhões de dólares anualmente à federação.

(É válido ressaltar que parte dos ganhos é destinada pela Uefa a desenvolver o futebol em praças com parcos recursos, algo que não mais ocorreria, em tese, se o montante migrasse para a Superliga.)

E o temor de Ceferin certamente é tão grande quanto sua revolta.

Afinal, se você é dono de uma emissora de TV e quer audiência, prefere ter na sua grade, em toda rodada, duelos como Real Madrid x Juventus e Liverpool x Manchester United, ou outros como Sevilla x Atalanta e Leicester x Lazio?

Pela vontade do Clube dos 12, esses acordos comerciais serão desfeitos, e refeitos com eles como beneficiários, isso se juridicamente não houver inviabilidade, já que a Uefa tem acertos contratuais até 2024 para a exibição da Champions League.

Aliás, se há uma certeza nisso, a menos que ocorra uma improvável reviravolta e os inimigos se entendam, é que os tribunais serão acionados, cedo ou tarde.

Se há outra certeza, caso a Superliga seja mesmo levada adiante –e seus fundadores dificilmente voltarão atrás, primordialmente pelo dinheiro, mas também com a premissa de que, antipática em um primeiro momento, a ideia dará certo e será celebrada futuramente–, é que o sonho dos pequenos de fazer parte da elite europeia, mesmo que uma vez a cada, digamos, dez anos, ruirá.

Na Champions atualmente em disputa, cujas semifinais são Real Madrid x Chelsea e Manchester City x Paris Saint-Germain, avançaram à fase de grupos, por exemplo, o húngaro Ferencváros e o dinamarquês Midtjylland.

Campeões nacionais em seus países, encararam, respectivamente, três e dois mata-matas duríssimos (o último deles em jogos de ida e volta) antes de chegar à etapa em que podem duelar com os gigantes continentais.

O Ferencváros pôde enfrentar Barcelona e Juventus, duas vezes cada um, e o Midtjylland desafiou, também duas vezes, Ajax e Liverpool.

Jogadores do Ferencváros, da Hungria, reúnem-se antes do início de partida contra a Juventus pela Champions League, em Turim (Miguel Medina – 20.nov.2020/AFP)

A diferença dos jogadores, na capacidade individual, é enorme, mas uma das graças do futebol é a possibilidade de a zebra, em um dia de felicidade coletiva, aprontar.

Não é comum, mas acontece, e eu me delicio quando um endinheirado do futebol, “um Warren Buffet”, é surpreendido por “um zé-ninguém” –possivelmente devido à tendência do ser humano (originada talvez em Davi x Golias) de apoiar o mais fraco.

Com a Superliga, os Davis seriam devidamente extintos; afinal, devem pensar os poderosos cartolas do Clube dos 12, para que nos juntarmos a esses “pobretões” se podemos nos misturar somente com os nossos iguais, da mais fina estirpe?

Qualquer semelhança com a realidade social (nossa, no Brasil, e em muitos lugares do mundo) não é mera coincidência.

Em tempo: Quem tiver mais músculos –leia-se força nos bastidores– ganhará o cabo de guerra. Fã que sou do futebol que proporciona o encontro constante entre grandes e pequenos (sem deixar de apreciar demais os duelos entre os superclubes, desde que eles eliminem os nanicos em campo, e não com uma canetada), torço para que a Superliga seja derrotada. Para isso, os contrários a ela, que na teoria têm certos poderes, devem exercê-los na prática, sem hesitar, punindo os dissidentes com a exclusão de suas competições, isolando-os e forçando-os a avaliar se só a nova competição, mais nenhuma, será suficiente para suas ambições. Se não o fizerem, tudo não passará de intimidação fajuta, e o Clube dos 12, com um puxão bem dado no cabo, derrubará centenas de opositores e será o instaurador de uma nova ordem no futebol.