Técnico sem título está no mesmo time há quase 10 anos

Renato Portaluppi, o Renato Gaúcho, deixou o cargo de treinador do Grêmio na semana que passou, depois de quatro anos, seis meses e 28 dias.

Tendo feito um trabalho muito bom –ganhou uma Libertadores, uma Copa do Brasil e três Campeonatos Gaúchos–, durou bem mais do que geralmente duram os técnicos nos clubes brasileiros.

O Internacional, arquirrival do Grêmio no Rio Grande do Sul, pode ser citado como exemplo de agremiação que tem tido alta rotatividade na função.

No período em que Renato Gaúcho dirigiu o time tricolor, seguraram a prancheta na equipe colorada nove profissionais: Celso Roth, Lisca, Antônio Carlos Zago, Guto Ferreira, Odair Hellmann, Zé Ricardo, Eduardo Coudet (argentino), Abel Braga e Miguel Ángel Ramírez (espanhol), que assumiu no mês passado.

Maus resultados e/ou a falta de títulos obviamente contribuíram para que eles não permanecessem. É o que ocorre em quase todas as equipes: está ruim, a diretoria troca, mesmo que o trabalho tenha sido iniciado há pouco tempo.

Certo? Errado? Muitos analistas de futebol defendem a continuidade, acreditando que por meio dela, de um trabalho duradouro, resultados positivos virão.

Isso pode acontecer, como aconteceu com Renato Gaúcho, mas também acontece de técnico recém-chegado a um clube ter sucesso. O Flamengo está aí para mostrar.

Em 2019, o português Jorge Jesus causou impacto imediato no rubro-negro carioca, ganhando Campeonato Brasileiro e Libertadores. Em 2020, Rogério Ceni chegou em novembro e só três meses depois já foi campeão brasileiro.

Nas principais ligas da Europa, não é incomum a troca de treinadores. Lá, como cá, os resultados costumeiramente determinam a permanência ou não de um treinador.

Tanto que são raros os que, nos países com os campeonatos mais badalados, se perpetuam no cargo.

Diego Simeone é o mais famoso deles. Sua identidade com o clube é tal que é difícil imaginar um dia o Atlético de Madrid, atual líder do Espanhol, sem o argentino no banco de reservas, orientando os jogadores.

Se não sair até o final deste ano, Simeone, contratado em 1º de janeiro de 2012, completará dez anos no comando do time madrilenho.

Ganhar mais do que perder –o aproveitamento de vitórias de Simeone, em mais de 500 partidas, beira os 60%– e conquistar títulos –com Simeone, o Atlético venceu um Espanhol, uma Copa do Rei, duas Ligas Europa, duas Supercopas da Europa e uma Supercopa da Espanha– ajudam a manter o prestígio, indubitavelmente.

Diego Simeone, desde o início de 2012 como técnico do Atlético de Madrid, abraça o compatriota Ángel Correa depois de partida contra o Betis no Campeonato Espanhol (Cristina Quicles – 11.abr.2021/AFP)

Mas o treinador mais longevo nos campeonatos de elite da Europa é um ponto (muito) fora da curva. Por quê?

Porque em quase dez anos sob sua gestão o clube não ganhou nada. Zero título. Zero grito de “é campeão!” de seus torcedores.

O clube em questão é o Angers, da França, e o treinador em questão é Stéphane Moulin.

Jogador do time de 1984 a 1990 (atuava no meio-campo), Moulin treinou a equipe B do Angers de 2005 a 2011, ano em que assumiu, no dia 1º de julho, a equipe A.

De lá até aqui, ele teve como maior conquista levar o time alvinegro à primeira divisão. Obteve o feito ao terminar em terceiro lugar a temporada 2014/2015.

Depois disso, até chegou perto de erguer uma taça, ao chegar à decisão da Copa da França em 2017. Na final, contudo, deu Paris Saint-Germain.

Com um aproveitamento de vitórias de 37%, em mais de 400 partidas, Moulin, que tem 53 anos, anunciou que deixará o Angers na metade deste ano.

Sem um único título, porém com o mérito de ter mantido o clube na elite francesa desde o acesso, mesmo com um dos menores orçamentos e com um time sem estrelas.

Troyes e Ajaccio, que subiram no mesmo ano que o Angers, duraram só uma temporada na Ligue 1.

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Em tempo 1: Segundo levantamento do Lance!, publicado em setembro último, só um treinador estava havia mais tempo que Renato Gaúcho à frente de uma equipe brasileira: Gerson Gusmão, do Operário-PR, contratado em março de 2016. Ele deixou o clube paranaense, demitido, em outubro, tendo ficado, em uma incrível coincidência, exatamente o mesmo tempo no cargo que o agora ex-gremista: quatro anos, seis meses e 28 dias. Atualmente, Gusmão treina o Botafogo-PB.

Em tempo 2: Outros treinadores que têm bastante tempo de casa nas principais ligas da Europa são Christian Streich, de 55 anos, no alemão Freiburg desde 29 de dezembro de 2011, e Sean Dyche, de 49 anos, no inglês Burnley desde 30 de outubro de 2012. O aproveitamento de vitórias de cada um é exatamente igual ao de Stéphane Moulin no Angers (37%), só que tanto Streich como Dyche contam com um título no currículo, o de campeão da segunda divisão, no mesmo ano: 2016.