Neymar ruma para 5 anos sem momento de glória no futebol

Eu estava no Maracanã, lotado, naquele sábado, 20 de agosto de 2016.

O time olímpico do Brasil enfrentava o da Alemanha na decisão da medalha de ouro do futebol nos Jogos do Rio de Janeiro.

E naquela tarde/noite Neymar brilhou.

Aos 24 anos, então uma das estrelas do Barcelona, o capitão da equipe dirigida por Rogério Micale abriu o placar, em magistral cobrança de falta.

No segundo tempo, a Alemanha empatou, com Meyer, e endureceu o jogo. Ninguém mais balançou as redes, nem na prorrogação, e a disputa de pênaltis definiria o campeão.

Neymar era o último a bater pelo Brasil. Como só a Alemanha desperdiçara uma cobrança (Petersen), se ele fosse bem-sucedido, daria pela primeira vez o ouro ao país em uma Olimpíada.

E ele foi. Bem ao seu estilo, partiu em direção à bola, desacelerou, retomou a passada e mandou a redonda à esquerda de Timo Horn, que saltou para o lado errado.

Neymar ajoelhou-se no gramado, chorou entre os companheiros, celebrou efusivamente o triunfo. Foi decisivo, foi herói.

E a carreira do mais incensado jogador brasileiro da última dúzia de anos teve ali, em um dos maiores templos do futebol, seu mais recente momento de glória. Faz quase cinco anos.

Pois, no nível de nível de Neymar, glória mesmo é ganhar a Copa do Mundo, ou a Copa América, ou a Olimpíada (com a seleção); é ganhar a Champions League ou o Mundial de Clubes (com o clube); é ser eleito o melhor futebolista do mundo.

Depois do ouro olímpico, Neymar não conseguiu nada disso –suas conquistas restringiram-se ao âmbito caseiro na França.

Viveu uma série de desventuras e, rumo aos 30 anos, parece cada vez mais longe de chegar aos pés do português Cristiano Ronaldo ou do argentino Messi, os ícones máximos da atual geração de craques.

Em 2017, cansado de viver à sombra de Messi em Barcelona e sem ter conquistado o Campeonato Espanhol ou a Champions, decidiu tomar um novo rumo.

Na condição de jogador mais caro do planeta (o PSG pagou € 222 milhões ao Barcelona, marca não superada), partiu para a França, para o Paris Saint-Germain, com a missão de dar o título da Liga dos Campeões da Europa ao badalado clube da Cidade Luz.

Falhou seguidamente.

É verdade que teve lesões que o impediram de atuar em jogos decisivos da Champions em 2018 e em 2019, nos quais viu o PSG ser eliminado.

Porém também é verdade que quando estava em campo, na decisão da competição de 2020 contra o Bayern de Munique, naufragou. Teve uma ótima chance para marcar no primeiro tempo e a desperdiçou. Ademais, pouco fez. Deu Bayern, 1 a 0.

Sem a taça, Neymar ficou também sem o prêmio de melhor do mundo da Fifa, que provavelmente seria dele. Deu Lewandowski, goleador do Bayern.

Neymar à frente do troféu da Champions League, o qual não conseguiu conquistar com o PSG na final de 2020 contra o Bayern de Munique (Matthew Childs – 24.ago.2020/AFP)

Em 2018, a seleção brasileira esperava que seu camisa 10 liderasse a equipe na Copa do Mundo da Rússia para o título que não vinha desde 2002, quando Ronaldo Fenômeno foi o cara.

Neymar teve participação medíocre no Mundial russo, sendo mais lembrado pelo teatro que fazia ao sofrer faltas. Deixou o torneio eliminado nas quartas de final e com a fama de cai-cai potencializada.

Em 2019, além de enfrentar um escândalo na vida pessoal que envolveu a modelo Najila Trindade, voltou a ter uma contusão, que o tirou da Copa América no Brasil.

Sem ele, o Brasil ganhou invicto a competição, tendo no ataque Philippe Coutinho, Gabriel Jesus, Roberto Firmino e Everton Cebolinha (ou Richarlison) e com um futebol na maior parte do tempo convincente.

Neste 2021, Neymar, com o PSG vivo na Liga dos Campeões, tem mais uma chance de reviver o tempo de glória –antes da Rio-2016, ganhara com o Barcelona a Champions (sendo um dos artilheiros) e o Mundial de Clubes, em 2015, e com o Santos a Libertadores, em 2011.

Nas quartas de final, a partir desta quarta (7), o clube parisiense reedita com o Bayern a final do ano passado –nas oitavas, sem o atacante brasileiro, lesionado, eliminou o Barcelona de Messi.

A saber, se Neymar será um fator positivo de desequilíbrio, já que recentemente voltou a exibir sua faceta negativa de desequilíbrio.

No sábado (3), em partida importantíssima contra o Lille no Campeonato Francês –valia a liderança–, Neymar não só não brilhou na derrota por 1 a 0 como, nos acréscimos do segundo tempo, arranjou encrenca com um adversário e foi expulso.

Foi a quarta expulsão do camisa 10 com a camisa do PSG, em três temporadas e meia de clube. Com mais uma, igualará as cinco de sua era de cinco anos como profissional no Santos. Em quatro temporadas no Barcelona, recebeu só um cartão vermelho.

Neymar com a cabeça no lugar e em forma é tecnicamente, inquestionavelmente, um dos melhores no futebol. Sem, volta-se a questionar a sua importância, a sua valia, e o reencontro com os dias de glória, ainda uma dúvida, ganha um tom crescente e fortalecido de incerteza.