Falta do VAR lesa Portugal nas eliminatórias; Uefa culpa a Covid
Estou longe de ser um fã do uso do recurso da videoarbitragem no futebol.
A demora na tomada das decisões do VAR (árbitro assistente de vídeo), várias vezes de dois, três, quatro minutos, torna o jogo moroso, e é chato demais ficar esperando por um veredicto que, vê-se com frequência maior que a desejada, nem sempre é acertado.
O objetivo proposto para a introdução do VAR –corrigir erros claros e óbvios da arbitragem de campo, em situações específicas– não tem sido cumprido.
Para-se o jogo para checar jogadas quando não é necessário. Qualquer coisinha é motivo para haver a verificação por vídeo.
Assim, não é questão de ser contra o emprego do VAR, mas a favor de que ele seja utilizado adequadamente e parcimoniosamente.
Dito isso, é preciso dizer que o VAR fez falta, e muita, em uma partida das eliminatórias da Copa do Mundo do Qatar, no sábado (27), em Sérvia x Portugal.
Em Belgrado, as duas seleções empatavam por 2 a 2, e o jogo estava nos acréscimos do segundo tempo.
Faltando 15 segundos para o fim, o lateral esquerdo Nuno Mendes lançou a bola pelo alto para a área rival, na direção de Cristiano Ronaldo.
Portugal are denied a clear winner in tonight’s match vs Serbia! pic.twitter.com/z8kdNdYdLB
— Onside Football UK (@OnsideUK) March 27, 2021
O cinco vezes melhor do mundo foi mais veloz que o zagueiro Pavlovic e, com precisão, deu um toque na bola antes da chegada do goleiro Dmitrovic, que saiu de forma atabalhoada.
A bola se encaminhava para o gol vazio, ia entrando, quando, com um carrinho, Tadic –por que o meia-atacante, camisa 10, capitão da Sérvia, estava ali, como um beque, àquela hora, não se sabe– afastou a bola.
Na sequência, Bernardo Silva ainda chutou, e de novo Tadic, na pequena área, interceptou o chute.
Reclamação geral dos portugueses, que consideraram que a redonda havia cruzado a linha do gol na tentativa de Cristiano Ronaldo.
O bandeirinha que acompanhava o ataque luso, o holandês Mario Diks, e que estava muito bem posicionado, junto à linha de fundo, não correu para o meio de campo, ou seja, considerou que a bola não tinha entrado.
Estava errado. Pelo menos em um ângulo exibido nos replays percebe-se, sem margem para dúvida, que ela tinha entrado completamente antes da intervenção de Mitrovic.
A reclamação exacerbada rendeu a Cristiano Ronaldo o cartão amarelo. Revoltadíssimo, o camisa 7 recusou-se a ficar em campo. Fez sinais de que sua seleção estava sendo roubada, jogou a tarja de capitão no chão e foi para o vestiário.

O CR7 diria depois, em postagem em rede social, ao enfatizar que se sente orgulho de capitanear Portugal, escreveu que “há momentos muito difíceis com os quais lidar, especialmente quando sentimos que toda uma nação está sendo prejudicada”.
Ao ver o lance após o jogo, o árbitro Danny Makkelie, compatriota de Diks, dirigiu-se até o treinador da seleção lusitana, Fernando Santos, para pedir desculpas pelo erro.
Que, diga-se, não foi dele. Da posição em que estava, ele não tinha como ver se a bola entrara ou não. Se alguém errou, foi Diks.
Se alguém errou mais, foi quem não providenciou para que o VAR estivesse operante nos Bálcãs.
Aliás, nem Sérvia x Portugal teve o VAR, nem nenhum outro confronto das eliminatórias da Europa para o Mundial de 2022.
Que seja apontado então o culpado: a Uefa, entidade máxima do futebol no velho continente e organizadora do qualificatório europeu para a Copa.
Por que não se está usando o famigerado –que, contudo, nesse caso seria utilíssimo– VAR em uma competição importantíssima, cuja perda de pontos (Portugal deveria ter somado três em vez de um) pode acarretar a não ida ao mais relevante torneio de futebol do planeta?
Feito o contato com a Uefa, veio a resposta.
Pensei que seria relacionada a uma questão de desigualdade esportiva, como publicou o jornal espanhol Marca em texto de Gregor Chappelle:
“Devido ao fato de que nem todos os estádios estavam equipados para o uso do VAR (…), considerou-se injusto usar em alguns e não em outros, então as autoridades decidiram não utilizar para assegurar igualdade de condições”.
Mas não. Não houve justificativa nesse sentido, tampouco de ordem financeira, até porque entra muito dinheiro na entidade –o balanço financeiro de 2019, o mais recente, registrou receita de € 3,86 bilhões, ou R$ 26,2 bilhões, mais que o custo (R% 25,5 bilhões) de todas as obras para a Copa de 2014, no Brasil, segundo cálculo do Tribunal de Contas da União.
A Uefa terceirizou a responsabilidade. Eis o que ela afirmou por intermédio de seu departamento de comunicação:
“Em 2019, a Uefa propôs à Fifa a implementação do VAR nas eliminatórias da Copa [de 2022]. O impacto da pandemia [de coronavírus] nas capacidades logística e operacional fez a Uefa (…) desistir da proposta de implementar o VAR no qualificatório europeu”.
Que a Covid é faz mais de ano um gravíssimo problema mundial de saúde, sendo passível de se discutir se jogadores deveriam estar viajando de um país a outro para disputar partidas de futebol, sem dúvida.
Porém, se jogadores podem viajar, por que os responsáveis por atuar no VAR (árbitros e técnicos para operar o equipamento) também não podem?
E, se não faltava dinheiro, por que não se podia instalar os aparelhos necessários em cada estádio, seguindo os protocolos de segurança sanitária de cada país?
Por essas e outras é que o futebol, que tantas emoções positivas nos traz semanalmente, traz também, não raramente, a sensação de desgosto e frustração, por saber que se pode, com um pouco de organização e vontade, evitar ocorrências que prejudiquem de forma escandalosa uma equipe –seja ela qual for.
Mas é mais fácil botar a culpa na Covid.
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Em tempo: Sérvia x Portugal não tinha o árbitro de vídeo e não tinha outro recurso –o qual tem o meu apoio incondicional– que confirmaria o gol de Cristiano Ronaldo: a tecnologia da linha de gol. Passou da linha? O árbitro recebe a informação em seu relógio. Questionada, a Uefa não explicou a razão de ela não estar presente.