Breno Lopes é o herói mais improvável das decisões de Libertadores

A Libertadores é feita de campeões e de heróis. Nem todo campeão é herói, mas todo herói é campeão.

Caso seja feita uma análise, em toda edição do torneio, realizado desde 1960, pode-se eleger um jogador –às vezes mais de um– responsável pela glória de seu time.

Os mais imbuídos de espírito coletivo dirão que todos os integrantes do elenco vencedor, não somente os jogadores, sendo eles titulares ou reservas, mas o treinador, seus auxiliares técnicos e o resto do estafe (preparador físico, fisioterapeuta, médico, roupeiro etc.) são heróis.

Herói, no caso que quero abordar, é aquele que faz (sem levar em conta as decisões por pênaltis) o gol decisivo, o gol que o deixa como “o” personagem do jogo. Aquele que será eternizado mais que os outros na memória dos torcedores por esse feito.

Em Copas do Mundo, por exemplo, Iniesta foi “o” herói da Espanha em 2010, e Götze, “o” herói da Alemanha em 2014.

Breno Lopes mostra poder de impulsão, ganha de Pará e cabeceia aos 53 minutos e 26 segundos do 2º tempo para fazer o gols do Palmeiras na decisão da Libertadores (Ricardo Moraes – 30.jan.2021/AFP)

Ao marcar de cabeça contra o Santos no Maracanã, aos 53 minutos e 27 segundos do segundo tempo, o gol que deu ao Palmeiras seu segundo título na mais importante competição continental, Breno Lopes tornou-se “o” herói alviverde.

Mas não um herói qualquer entre os vários que a Libertadores acumula. O atacante de 25 anos é o herói mais improvável de todas as partidas que decidiram a competição.

Entenda-se por partida decisiva aquela que encerrou o campeonato, seja jogo único (como ocorre desde a edição de 2019), seja o jogo de volta, seja o jogo de desempate.

Por que Breno Lopes atingiu esse patamar único?

Porque era reserva do técnico Abel Ferreira, não só na final, mas em toda a campanha. Antes da decisão, tinham sido 83 minutos em campo (menos de um jogo completo), espalhados por quatro partidas, sem fazer gol ou dar assistência.

Porque, no jogo que valia a taça, entrou em campo tardiamente, só aos 39 minutos e 28 segundos da segunda etapa. Tinha pouquíssimo tempo para mostrar serviço.

Porque mostrou eficiência altíssima. Tocou na bola, com suas chuteiras amarelas, apenas três vezes –na mesma jogada, que valeu um escanteio ao Palmeiras, executada em quatro segundos, a partir dos 40min7s– antes de anotar o gol de sua vida.

Ou seja, até, após cruzamento de Rony, ganhar na grande área pelo alto de Pará e desferir a cabeçada certeira fora do alcance do goleiro John, Breno Lopes era um “ninguém” em termos internacionais.

Contratado em novembro, quando era destaque do Juventude na Série B, o mineiro de Belo Horizonte até teve algumas chances como titular, no Campeonato Brasileiro, mas demorou dois meses e meio para marcar seu até então único gol, na partida que antecedeu a final deste sábado (30), 1 a 1 com Vasco, no dia 26.

Na história da Libertadores, o jogador que mais se aproximava do título de herói mais improvável, antes da emersão de Breno Lopes, era César, atacante do Grêmio comandado por Valdir Espinosa em 1983, que tinha Renato Gaúcho como craque.

Na decisão contra o Peñarol, em Porto Alegre, César substituiu Caio aos 18 minutos do segundo tempo e, aos 32, em uma cabeçada na pequena área após cruzamento de Renato, fez o gol da vitória por 2 a 1.

Mas César não era um “ninguém”.

Tinha sido titular em três jogos daquela campanha gremista e marcado um gol antes do tento consagrador no estádio Olímpico, que o fez merecedor de ser incluído na Calçada da Fama do tricolor gaúcho.

Os demais jogadores que se celebrizaram como heróis em decisões de Libertadores por marcarem o gol da conquista (como Gabriel “Gabigol” pelo Flamengo em 2019, Danilo pelo Santos em 2011, Joãozinho pelo Cruzeiro em 1976 ou o uruguaio Luis Cubilla pelo Peñarol em 1960, entre outros) não eram improváveis. Eram titulares e “tinham nome”.

Breno Lopes fez o seu nome num início de noite quente do verão carioca, num Maracanã com público reduzido devido a um Brasil atormentado pela pandemia de coronavírus.

Vestindo a camisa 19, ele ficou no gramado de um dos estádios mais famosos e icônicos do mundo por exatos 19 minutos e 36 segundos, já que a partida, depois de sua entrada, teve longo tempo de acréscimo devido a paralisações para atendimento de jogadores (Kaio Jorge e Gustavo Gómez), substituições (três) e a expulsão do técnico do Santos, Cuca.

Com a bola rolando, Breno Lopes correu por 9min54s, tocando na redonda as quatro mencionadas vezes –a última, a que o elevou a herói mais improvável da história da Libertadores.

Em tempo: Para evitar que flamenguistas ou corintianos façam críticas pela ausência de Zico e Emerson Sheik entre os heróis de conquistas de Libertadores, em 1981 e em 2012, explico. Os dois foram sim os responsáveis diretos pelas vitórias, respectivamente, sobre Cobreloa e Boca Juniors. Cada um fez os dois gols nos triunfos por 2 a 0 de rubro-negros e alvinegros. Protagonistas e heróis, sem dúvida. Mas, no contexto deste texto, eles não se encaixam. A comparação, conforme mencionado, é entre jogadores que fizeram “o” gol decisivo (não “os” gols) e que deles não se esperava essa façanha –não são os casos do Galinho de Quintino e de Sheik.