Futebol perde Maradona, o mais hábil dos canhotos e genial até na trapaça

É uma conclusão pessoal, como muito no futebol é estritamente pessoal. E é uma questão de mística, nesta definição: quando a lógica é sobrepujada pelos sentimentos.

Depois de Pelé, que é “hors concours”, Diego Maradona foi o mais formidável dos futebolistas. E o mais hábil, eu diria com certa margem, entre os canhotos.

Mais que Rivellino, que, como me disse o também canhoto Tostão, “era uma coisa assombrosa, com a bola era o Maradona” –no sentido de a pelota “grudar” no pé, como um ímã, e ninguém conseguir tirar.

Mais hábil que o romeno Hagi, mais que o holandês Robben, mais que o brasileiro Djalminha, para citar alguns jogadores que fizeram estripulias com a canhota, entre os que pude ver em ação.

E mais hábil que Messi.

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Maradona, aos 45 anos e com o braço esquerdo machucado, e Messi, aos 18 anos, em partida beneficente na Bombonera, em Buenos Aires (Juan Mabromata – 27.dez.2005/AFP)

Messi é gênio como Maradona? Sim. Mas não tem –pelo menos até agora, e já está com 33 anos– uma Copa do Mundo.

Aos 25 anos, Maradona capitaneou a Argentina campeã mundial em 1986, no México, o mesmo México que viu a seleção brasileira mais marcante de todos os tempos, a que faturou o tricampeonato em 1970.

Nessa Copa, Maradona ficou famoso por fazer o gol que ficou conhecido como o “com a mão de Deus”, diante da Inglaterra, nas quartas de final –vitória por 2 a 1.

Genial até na trapaça, o camisa 10, do alto do seu 1,65 m, fez com a mão esquerda um movimento tão coordenado com a cabeça que é necessário ver o replay mais de uma vez, e em ângulos diversos (não tinha VAR na época), para detectar o leve toque irregular que encobriu o goleiro Shilton.

Mas o assombro veio mesmo com o segundo gol, no qual pegou a bola no campo de defesa, enfileirou quatro ingleses em velocidade, dando dez toques na bola –todos eles com o pé esquerdo–, sendo o último, depois de driblar Shilton, o que botou a bola na rede.

Isso tudo num intervalo de cinco minutos.

Dirão que muito jogador já fez gol no futebol partindo, da defesa, com a bola dominada. Mas em Copa do Mundo quantos fizeram? Afora Maradona, lembro-me de Al-Owairan, em Arábia Saudita 1 x 0 Bélgica, na Copa de 1994, nos EUA. E só.

Na semifinal de 1986, Maradona ainda anotou mais dois gols belíssimos contra a Bélgica, os dois gols do jogo, também em curto intervalo de tempo (11 minutos).

Na decisão, “discreto”, limitou-se a, cercado por três alemães no meio-campo, dar um passe magistral, perfeito, para Burruchaga decretar o 3 a 2.

Raras vezes um Mundial viu um jogador em tal plenitude.

Capitão da Argentina, Maradona admira a Taça Fifa no estádio Azteca, na Cidade do México, após a vitória contra a Alemanha Ocidental na final (29.jun.1986/AFP)

Na Copa seguinte, na Itália, em 1990, Maradona não conseguiu por muito pouco, com companheiros menos capazes do que os de 1986, bisar o erguimento da Taça Fifa. Na final, deu Alemanha, 1 a 0.

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Antes, contudo, o craque eliminou o Brasil (treinado por Sebastião Lazaroni), nas oitavas de final.

Foi 1 a 0, e o gol foi de Caniggia, no segundo tempo, em um dos raríssimos ataques argentinos no jogo.

Mas a construção da jogada foi toda de Maradona, que antes de deixar o colega cara a cara com Taffarel passou, partindo do meio-campo, por Alemão, por Dunga, por Ricardo Rocha e tocou a bola entre as pernas de Mauro Galvão (que, desnorteado, trombou com Ricardo Gomes) para o companheiro, totalmente livre.

A jogada de Maradona durou seis mágicos segundos. De humilhar. E de aplaudir.

(Pode essa vitória ser considerada por Maradona uma vingança pessoal contra o Brasil, já que oito anos antes, na segunda fase da Copa da Espanha, ele jogou mal e ainda foi expulso por dar um coice em Batista na vitória brasileira por 3 a 1.)

Ver Maradona jogar (além de encantar pela seleção de seu país, brilhou intensamente na segunda metade dos anos 1980 no Napoli) era de causar devoção. E causou.

Não só em mim, mas em gente que chegou ao nível de fundar uma igreja, a Igreja Maradoniana, na Argentina, na qual as pessoas se juntam para celebrar o “Pibe de Oro” como se fosse um deus.

Pelé e Romário chamaram Maradona de “lenda” no dia em que ele nos deixa, um dia 25, uma quarta-feira de novembro, num ano de imensa tristeza, recheado de perdas, devido a uma pandemia que parece sem fim.

Maradona é mais que uma lenda. É um deus da bola. O melhor pós-Pelé. O melhor que vi jogar.

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