Inépcia e apatia da Alemanha em 6 a 0 implodem máxima de Lineker

“O futebol é um jogo simples: 22 caras correm atrás da bola por 90 minutos e, no fim, a Alemanha sempre vence.”

Essa frase foi dita pelo atacante inglês Gary Lineker depois de a seleção de seu país cair nos pênaltis ante os alemães na semifinal da Copa de 1990, na Itália, que seria posteriormente vencida… pelos alemães.

Ela se tornou uma máxima que impregnou em nosso imaginário a ideia de que os germânicos são tão sérios, tão precisos, tão aplicados, tão frios, tão eficientes que por mais que os adversários se desdobrem será sempre deles, germânicos, a vitória.

Pois nesta semana bastaram 90 minutos (mais alguns de acréscimos) para a frase de Lineker implodir, virar migalhas. Ter crédito zero.

Gary Lineker, um dos melhores atacantes da história da seleção inglesa, é há muitos anos comentarista esportivo (Owen Humphreys – 28.jun.2020/Reuters)

A seleção da Alemanha, em uma das piores apresentações em seus 112 anos de história, levou de 6 a 0 da Espanha. Sova igual não acontecia desde 1931, em um amistoso diante da Áustria.

O massacre ocorreu em Sevilha, e o jogo não era um amistoso, não era uma partida que não valia nada, como aquela há quase 90 anos. Valia a classificação para as semifinais da Liga das Nações.

O mais surpreendente, afora o placar em si, foi a atitude da equipe alemã. Apatia, inércia, desinteresse, inépcia, conformismo. Todos esses adjetivos couberam, juntos ou separados, para qualificar a Mannschaft.

Três gols saíram no primeiro tempo (Morata, Ferrán Torres, Rodri), e no intervalo esperava-se que, no vestiário, o treinador Joachim Löw desse uma sacudida nos jogadores, que reagiriam com honra e brio na segunda etapa.

Se não houve essa sacudida, é um problema. Se houve, também é um problema, pois de nada adiantou.

Mais três gols espanhóis no segundo tempo (outros dois do talentoso Ferrán Torres, um de Oyarzabal), e o que se via era o capitão Neuer, de 34 anos, um dos melhores goleiros do mundo, pigarreando a cada bola na rede, inconformado com a facilidade com que os rivais envolviam a retaguarda alemã.

O capitão da Espanha, Sergio Ramos (cabelo preso), e companheiros vibram com o gol de Rodri (16), o terceiro contra a Alemanha, que ainda levaria mais três (Cristina Quicler – 17.nov.2020/AFP)

Neuer tinha sua razão. Ele não falhou em nenhum dos gols e ainda evitou um vexame muito maior ao defender outras quatro tentativas que tinham a direção certa.

Poderia ter sido 10 a 0. Ou mais, pois a Espanha, que ficou com a bola 68% do tempo, ainda finalizou errado outras 12 vezes.

Já a Alemanha, comprovando os adjetivos a ela atribuídos, ameaçou o gol defendido por Unai Simón duas míseras vezes.

E o guarda-metas de 23 anos, apenas em sua terceira partida como titular da Fúria, nem sujou o uniforme, já que uma das finalizações foi bloqueada e a outra, já com o placar em 5 a 0, no travessão.

Quando uma vergonha assim é empurrada goela abaixo, o que se questiona é: vai mudar alguma coisa?

Ex-craques da seleção alemã, como Schweinsteiger, Klinsmann e Matthäus, notaram algo evidente: a falta de um líder, e de um líder experiente. Uma figura que pudesse instar os companheiros a erguer a cabeça e reagir quando a nau parece estar à deriva.

Só Neuer não basta –Toni Kroos, apesar de ser trintão, é caladão–, e os nomes do atacante Thomas Müller e dos zagueiros Boateng e Hummels pulularam.

Os três, titulares da seleção na conquista da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, também já trintões (31, 32 e 31, respectivamente), receberam no começo de 2019 um comunicado de Löw: não seriam mais convocados pois era hora de abrir espaço para os mais jovens.

É verdade que Boateng e Hummels não foram nada bem na Copa de 2018, na Rússia, quando a Alemanha caiu surpreendentemente na primeira fase. Mostraram-se lentos e bem longe da melhor forma.

Mas talvez seja melhor recorrer a eles enquanto a nova geração (Süle, Tah, Ginter, Uduokhai) está crua e/ou insegura.

Fora dos planos de Joachim Löw na seleção alemã, Thomas Müller comemora gol contra Portugal na Copa do Mundo no Brasil (Dylan Martinez – 16.jun.2014/Reuters)

Em relação a Müller, que reencontrou seu melhor futebol neste ano em seu clube (o Bayern de Munique, atual campeão europeu), é imperativo tê-lo de novo no time.

Ele esbanja garra e determinação. Quando faz um gol, grita, inflama-se, seu rosto fica rubro, as veias saltam no pescoço. Contagia. É um símbolo da raça pouco ou nada vista na atual Alemanha.

Löw, contudo, mesmo na berlinda –a derrota levou setores da mídia e centenas de torcedores a questionarem sua permanência–, reforça que os três descartados não são mais necessários e insiste em seu projeto de reformulação.

Pode dar certo? Pode, afinal no futebol tudo pode, inclusive a Alemanha, em vez de ser humilhada, humilhar (vide o inesquecível 7 a 1 no Brasil seis anos atrás).

E os dirigentes acreditam que dará certo? Sim, como expôs em comunicado o presidente da Federação Alemã de Futebol, Fritz Keller.

“Tomamos uma decisão consciente, de mudança, que envolve uma série de novos jogadores promissores. Esse caminho pode levar a derrotas dolorosas. Tivemos uma noite negra em Sevilha, que nos machucou. Nossa jovem seleção aprenderá com esse amargo revés. O desafio é formar um time forte para a Eurocopa do ano que vem, a Copa do Mundo de 2022 e a Eurocopa de 2024, em nossa casa.”

Ou seja, Löw, no cargo desde 2006, continua prestigiado por ora, mesmo com o moral enfraquecido. Precisará, contudo, achar uma vitamina para um time anêmico que possa, ao longo de 2021, resgatar a honra germânica –e a frase de Lineker.

O treinador da Alemanha, Joachim Löw, que conduziu a seleção ao título da Copa do Mundo de 2014 e que tem contrato até 2022 (Marcelo Del Pozo – 17.nov.2020/Reuters)

Em tempo: Que peso teria esse 6 a 0 se a Alemanha não tivesse sido eliminada pela Espanha? Pois os alemães estiveram perto, muito perto, de entrar nessa partida já com a vaga nas semifinais da Liga Europa garantida. Não ocorreu devido a um gol aos 50 minutos do segundo tempo, de Gayá, no duelo com os espanhóis em Leipzig, em setembro, que resultou no 1 a 1. Tivesse ganhado esse confronto, a Alemanha jogaria classificada em Sevilha, e a goleada, caso de fato ocorresse –pois a motivação da Espanha, se não tivesse chance de avançar, seria outra–, teria muito provavelmente um impacto bem menos violento.