Gabão perde jogo depois de jogadores dormirem no chão de aeroporto

No futebol, o Gabão é conhecido por uma razão.

Essa razão se chama Pierre-Emerick Aubameyang. O atacante de 31 anos brilhou de 2013 a 2018 no Borussia Dortmund, da Alemanha, e desde então veste a camisa do inglês Arsenal.

Goleador, sorriso fácil, carismático e brincalhão –já festejou gols colocando máscara do Homem-Aranha, do Pantera Negra e do Batman–, Auba é personagem frequente de reportagens da mídia.

E, se os jornalistas não conseguem monitorá-lo o tempo todo, para obter uma notícia de Aubameyang nesta semana o próprio Aubameyang colaborou.

Na madrugada de segunda-feira (16), o capitão do Gabão postou em rede social uma foto em que mostra colegas de seleção dormindo no chão de um aeroporto às 4h37 da madrugada, com os dizeres: “Não creia. Nós ainda estamos no aeroporto”.

A equipe tinha viajado para a Gâmbia, onde duelaria com a seleção local pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações (equivalente na África à Copa América ou à Eurocopa), que será em 2021 em Camarões.

Só que, ao chegar no domingo à noite ao aeroporto de Banjul, a capital gambiana, a delegação gabonense se viu impedida de seguir para o hotel em que se hospedaria.

Houve discordância em relação aos testes de coronavírus. As autoridades da Gâmbia exigiram dos visitantes a realização dos exames naquele momento, mas houve recusa.

De acordo com os gabonenses, não havia necessidade dessa testagem, pois todos tinham passado pelo procedimento 24 horas antes, na cidade de Franceville, no Gabão.

Diante desse impasse, Aubameyang e companhia foram impedidos de deixar o aeroporto enquanto os dirigentes tentavam se entender, sem sucesso.

Resultado: a madrugada foi avançando, o sono foi chegando, e vários jogadores deitaram e dormiram no chão mesmo.

Somente depois de oito horas de espera, segundo a federação de futebol gabonense, e da intervenção do ministro de Esporte do país é que houve a liberação, sem que ninguém passasse por teste de Covid. Já era manhã na Gâmbia.

Jogador do Gabão improvisa cama, de concreto, em aeroporto na Gâmbia, antes de jogo pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações (Reprodução/Facebook da Federação Gabonense de Futebol)

Aubameyang colocou a culpa na Confederação Africana de Futebol, sendo irônico.

“Belo trabalho, CAF. É como se voltássemos no tempo para os anos 1990. As pessoas precisam saber [o que aconteceu], e a CAF precisa assumir a responsabilidade. Estamos em 2020, queremos que a África cresça, e não é assim que chegaremos lá.”

A confederação, em comunicado, lamentou o episódio e declarou que investigaria “as causas do incidente para estabelecer as responsabilidades e aplicar as devidas sanções”.

Do lado gambiano, o treinador da seleção, Tom Saintfiet, manifestou-se à ESPN e afirmou que o erro foi dos rivais, que agiram de forma incorreta em relação à segurança sanitária.

“É irresponsável jogar sem que os jogadores sejam testados ao chegarem ao país. Quando fomos ao Gabão, fomos testados [para coronavírus] no aeroporto e no hotel, mesmo tendo certificado na chegada que estávamos todos negativos.”

Cada lado fincou posição, e Aubameyang disse que a incômoda situação vivida daria ainda mais ânimo a ele e a seus companheiros para vencer a partida, que ocorreria cerca de nove  horas mais tarde.

Ânimo pode até não ter faltado, mas a falta de descanso adequado possivelmente pesou contra o Gabão. Os donos da casa abriram 2 a 0 (Barrow, duas vezes), e os visitantes só tiveram forças para marcar um gol (Écuéllé Manga), bem perto do fim do segundo tempo.

Com as relações estremecidas, os dois países, contudo, mantêm as chances de classificação.

Há ainda duas rodadas a serem disputadas, em março, e tanto Gâmbia como Gabão estão com sete pontos no grupo. A República Democrática do Congo soma seis, e Angola, um.

Os dois mais bem colocados carimbam o passaporte para o torneio em Camarões.