Carrinho é jogada perigosa que deveria ser banida do futebol

Aproveito a citação do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o carrinho, para explicar aos menos afeitos ao futebol esse recurso.

O carrinho é a jogada em que o jogador se atira para a frente ou para o lado, pela superfície do campo ou quadra, deslizando o corpo com o intuito de acertar a bola com os pés, geralmente quando esta é conduzida pelo adversário.

Constitui quase sempre um lance defensivo –mas há ocasiões em que até gol é feito de carrinho (a favor ou contra).

Só que muitas vezes o autor do carrinho não atinge a bola, ou não somente a bola, golpeando também o oponente, o que constitui infração.

Se é dentro da área, essa falta é pênalti, o que dá ao adversário chance enorme de fazer um gol.

Assim disse Guedes, depois de ser criticado publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro no contexto do programa Renda Brasil: “Falei: ‘Pô, presidente. Carrinho, entrada perigosa, ainda bem que foi fora da área, senão era pênalti’.”.

O carrinho é uma jogada, conforme expôs o ministro, perigosa, que não deveria mais existir no futebol. Mal aplicada, torna-se violenta e pode provocar lesão séria no colega de profissão.

Recordo-me do que disse Piazza, ídolo do Cruzeiro, campeão mundial com a seleção brasileira na Copa de 1970, em entrevista a mim concedida em 2010, ao se referir a uma lesão em partida no Maracanã, em 1968:

“Tive uma contusão grave que foi uma torção nos ligamentos do joelho esquerdo e uma fratura do perônio [fíbula] numa jogada do famoso e detestável carrinho que foi utilizado pelo jogador Virgili, da seleção uruguaia, na tentativa de recuperar uma bola”.

Mais recentemente, em novembro de 2019, o português André Gomes, do Everton, teve uma fratura de tornozelo no Campeonato Inglês depois de um carrinho por trás do sul-coreano Son, do Tottenham.

Son, do Tottenham, dá carrinho por trás em André Gomes, do Everton, em partida da Premier League; o jogador português teve fratura na jogada (Oli Scarff – 3.nov.2019/AFP)

Até mesmo Zico, um dos melhores jogadores da história do futebol nacional, foi vítima de um carrinho violento, executado por Márcio Nunes, do Bangu, em jogo do Estadual do Rio, em 1985. O Galinho teve os ligamentos do joelho rompidos.

O carrinho é tão detestável (perfeito esse adjetivo usado por Piazza) que, por ironia, acabou punindo de forma definitiva uma das mais fortes equipes do mundo na Liga dos Campeões da Europa.

No início deste mês, Juventus e Lyon faziam em Turim o jogo de volta das oitavas de final da Champions. Na ida, 1 a 0 para o time francês.

Aos 10 minutos, Betancur, da Juventus, deu um carrinho na área em Aouar, em um ataque do Lyon.

Como afirmou Guedes, carrinho na área constitui pênalti –desde que quem o executa atinja o adversário.

O árbitro alemão Felix Zwayer marcou a penalidade máxima. O problema é que, dessa vez, nitidamente Betancur acertou a bola.

Lance na Champions League, no dia 7 de agosto, em que Betancur, da Juventus, dá um carrinho na área e atinge a bola; a arbitragem, porém, deu pênalti para o Lyon; clique na imagem e veja o lance (Reprodução/Site da Uefa)

Com a presença do VAR (árbitro assistente de vídeo), que consegue ver a jogada na TV, em vários ângulos, e avisar o juiz de campo em caso de um erro “claro e óbvio”, era de se esperar que a marcação fosse revertida.

Mas não. O árbitro de vídeo (Christian Dingert, também alemão) não alertou Zwayer sobre a decisão equivocada.

Achei tão incrível essa falha da arbitragem que fiz contato com a Uefa (entidade que rege o futebol europeu) para tentar um entendimento dessa não marcação.

Queria saber se um erro tão clamoroso não mancha de forma incisiva a imagem do VAR. No meu íntimo, pensei: “Afinal, para que essa porcaria serve?”.

Depois de quase duas semanas de espera, a resposta da Uefa foi: “Não temos comentários sobre esse assunto”.

Apenas para não escrever “sem comentários” acerca de uma resposta tão inútil, escrevo que a conclusão é ser o VAR um tema que causa muito incômodo às autoridades da bola –para obter uma informação da CBF (Confederação Brasileira do Futebol), sobre o custo do VAR no Campeonato Brasileiro, levei três semanas.

Voltando ao carrinho que resultou em pênalti (mal marcado) na Champions League, o Lyon converteu, e esse gol se mostrou vital para a classificação.

O time italiano, liderado por Cristiano Ronaldo, ainda virou para 2 a 1, mas o gol fora de casa serviu como critério de desempate.

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