Camaroneses recebem com atraso de 30 anos casa por campanha em Copa

A Copa do Mundo de 1990, na Itália, não foi um primor de futebol. Tanto que, das 21 edições já disputadas, é a que teve a mais baixa média de gols por jogo: 2,21.

A Alemanha foi a campeã, superando por um magro 1 a 0, com um gol de pênalti, a Argentina de Maradona, que eliminara o Brasil nas oitavas de final, também por um magro 1 a 0.

As boas memórias, pelo menos as minhas, ficam por conta da seleção de Camarões.

Lembro-me muito bem de ter assistido à partida de abertura, os camaroneses contra os argentinos (então campeões do mundo), no apartamento em que morava um amigo de colégio, o Luis Eduardo Dix, e o quanto nos surpreendemos com o futebol alegre e ofensivo dos africanos.

Com um gol de cabeça de Omam-Biyik no segundo tempo, em falha do goleiro Pumpido, Camarões registrou uma das maiores zebras da história das Copas, isso tendo terminado a partida em Milão com dois jogadores a menos, expulsos.

Jamais esquecerei a frase de Rivellino, campeão mundial no México-1970, que comentava pela TV Bandeirantes, quando em um contra-ataque os de camisas verdes quase ampliaram perto do fim da partida: “Com nove jogadores, é muito mais time que a Argentina!”.

Era o começo de uma campanha memorável, cujo grande destaque, entre nomes como o goleiro N’Kono, Kundé, Pagal e o cabeludo Makanaky, foi o atacante Roger Milla, que aos 38 anos saía do banco para desequilibrar.

O veterano centroavante, que tinha atuado na Copa de 1982, na Espanha, e atuaria na de 1994, nos EUA, fez os dois gols da vitória por 2 a 1 sobre a Romênia, na primeira fase, e igualmente os dois do triunfo por 2 a 1 diante da Colômbia, na prorrogação, nas oitavas de final.

No segundo dos gols camaroneses nesse último jogo, Milla roubou a bola do goleiro Higuita, que tentou driblá-lo ao sair jogando, e tocou para o gol vazio. Memorável.

Suas comemorações também estão firmes em minhas lembranças: a sambadinha desajeitada à frente da bandeira de escanteio.

A eliminação camaronesa, por quem passei a torcer depois da queda brasileira, só veio nas quartas de final, em uma sofrida derrota para a Inglaterra, 3 a 2 na prorrogação, em Nápoles, no dia 1º de julho.

Os Leões Indomáveis atuaram muito bem, viraram o jogo para ficar na frente por 2 a 1, e os gols de empate e da vitória do English Team saíram em pênaltis –o segundo, inexistente, cavado pelo artilheiro Lineker.

A campanha marcante resultou na promessa do governo de Camarões, presidido por Paul Biya, de presentear com uma casa os “heróis” daquela Copa.

Promessa que ficou no papel por mais de três décadas.

O ministério recebeu à época uma lista com 44 nomes e requereu que ela fosse reduzida à metade –afinal, eram 22 os jogadores a participar do Mundial.

Nesse ínterim, o ministro foi trocado, e a promessa acabou no limbo.

Em junho deste ano, uma associação de jogadores liderada por Bertin Ebwelle, um dos integrantes daquela seleção camaronesa, enviou uma carta a Biya (aos 87 anos ele ainda é o presidente do país, cargo que ocupa desde 1982) para lembrar o que havia sido prometido.

Deu certo, e as chaves de casas modernas na capital, Yaoundé, foram entregues há poucos dias a 19 dos 22 jogadores.

Três deles, todos titulares em 1990, não puderam receber o prêmio porque morreram: o camisa 10, Louis-Paul M’Fédé (em 2013), o zagueiro Massing (em 2017) e o lateral-direito e capitão Tataw (no dia 31 de julho deste ano, apenas 11 dias atrás).