Torrent se depara com missão impossível no Flamengo

Não há tarefa mais espinhosa do que substituir em um clube um técnico vencedor.

Se esse clube é o mais popular de um país, a tarefa se torna ainda mais árdua. O nível de exigência sobe para a exosfera.

É o que vivenciará no Flamengo o espanhol Domènec Torrent, de 58 anos, contratado pelo rubro-negro carioca para substituir o português Jorge Jesus, oito anos mais velho, que regressa a seu país natal para comandar o Benfica.

Dado o retrospecto de Jesus, a missão de Torrent deveria ser dada a Ethan Hunt, o personagem principal da série de filmes “Missão Impossível”, interpretado por Tom Cruise.

O agente Ethan Hunt (Tom Cruise) em cena de ‘Missão Impossível: Efeito Fallout’ (Divulgação/Paramount Pictures)

A história mostra a imensa dificuldade que é triunfar várias vezes, em um curto período de tempo, à frente de uma equipe, por mais poderosa que ela seja.

Pois Jesus, no período de pouco mais de um ano à frente do Flamengo, encheu uma mão inteira de títulos, a saber e nesta ordem:

  • Copa Libertadores (final contra o River Plate);
  • Campeonato Brasileiro (pontos corridos);
  • Supercopa do Brasil (contra o Athletico-PR);
  • Recopa Sul-Americana (contra o Independiente Del Valle);
  • Estadual do Rio (contra o Fluminense).

Jesus só não conseguiu erguer com o Flamengo os troféus da Copa do Brasil (eliminação ante o Athletico-PR, nos pênaltis) e do Mundial de Clubes (derrota na final para o Liverpool, por 1 a 0).

Caso, no mesmo intervalo de tempo de trabalho de Jesus, Torrent não ganhe a mesma coisa, ele terá sido pior.

Pode-se supor que o grau de cobrança não seja tão elevado com o recém-chegado, mas é uma suposição que não deve se sustentar.

Futebol é resultado (mais ainda no Brasil, cuja paciência com os treinadores é rara), e é improvável que isso mude com Torrent somente por ele ter sido auxiliar do badalado e vitorioso Pep Guardiola no Barcelona, no Bayern de Munique e no Manchester City.

Ao falar do antigo companheiro, Guardiola despeja elogios. “Ele é incrivelmente bem preparado, tem muita experiência. Não tenho nenhuma dúvida sobre sua capacidade”, declarou o comandante do Man City.

Domènec Torrent, com uniforme do New York FC, posa para foto ao lado de Pep Guardiola, treinador do Manchester City (Reprodução/New York City FC)

Mas a realidade é que Torrent, apesar de quase sexagenário, tem uma carreira inexpressiva como treinador de equipes principais. E um único título, o da terceira divisão espanhola, com o Girona, em 2006.

Antes, passou pelos modestíssimos Palafrugell e Palmós, também da Espanha; depois do tempo com Guardiola (11 anos), migrou para os EUA.

Lá, com o New York FC, somou 29 vitórias, 15 empates e 16 derrotas. Um cartel bom, mas que não empolga e que não rendeu título, nem na Major League Soccer nem na Open Cup (equivalente nos EUA à Copa do Brasil).

Jesus deixou a Gávea com 43 vitórias, 10 empates e míseras 4 derrotas, mais a já citada penca de conquistas.

Dizem que “chegar ao topo é difícil, mas permanecer no topo é mais difícil ainda”. E o sucesso extremo em sequência para um clube, enfatizo, é incomum no futebol. No alto do pódio há meses, será esse o desafio do Flamengo.

Pela lógica, que não é infalível mas é preponderante, Torrent não conseguirá chegar ao fim de seu contrato de um ano e meio. Cairá antes, pela insatisfação da diretoria e/ou da torcida, a não ser que opere milagres –mesmo não sendo Jesus.