Carlos Vinícius, o brasileiro artilheiro na temporada

Neymar, Philippe Coutinho, Gabriel Jesus, Richarlison, Willian, Roberto Firmino.

Esses são os homens de frente que jogam na Europa e têm tido espaço com Tite na seleção brasileira.

A temporada 2019/2020 vai chegando ao fim, em meio à pandemia de coronavírus, e nenhum deles alcançou o topo da lista de artilheiros nos campeonatos nacionais que disputam.

No caso de Neymar, o Campeonato Francês nem chegou ao fim. Foi encerrado faltando um quarto das partidas a serem jogadas, devido à questão sanitária.

No momento da interrupção, Mbappé, companheiro de Neymar no PSG (que foi declarado campeão), e Ben Yedder, do Monaco, tinham 18 gols e eram os principais goleadores da Ligue 1. O mais badalado futebolista brasileiro somava 13.

Philippe Coutinho, emprestado pelo Barcelona ao Bayern de Munique, marcou oito vezes na Bundesliga. O artilheiro do certame, o polonês Lewandowski, seu colega de time, fez 34, ou mais que o quádruplo.

Gabriel Jesus (Manchester City), Richarlison (Everton), Willian (Chelsea) e Roberto Firmino (Liverpool) atuam na Inglaterra, cuja Premier League terminou no domingo (26). Quem mais gols fez, dos quatro, foi Jesus: 14 –um acima de Richarlison e cinco a mais que Willian e Firmino. A artilharia ficou com Vardy, do Leicester, 23 bolas nas redes rivais.

Gabriel Jesus marcou 14 gols pelo Manchester City na Premier League, mas não chegou perto de ser o principal artilheiro da competição (Will Oliver – 5.jul.2020/Reuters)

Querer que um brasileiro esteja no cume em uma liga de ponta na Europa é exigir demais?

Pode-se dizer que sim. É tarefa bem difícil chegar lá. Citarei os mais recentes.

Os fora de série Ronaldo Fenômeno (com o Barcelona, 34 gols em 1996/97, e com o Real Madrid, 24 gols em 2003/04) e Romário (com o Barcelona, 30 gols em 1993/94) conseguiram na Espanha.

Na Itália, Amoroso esteve no topo da tábua de goleadores (22 gols) em 1998/99, defendendo a Udinese.

Na Alemanha, Grafite jogava pelo Wolfsburg quando marcou 28 vezes em 2008/09, e, na França, Nenê (hoje no Fluminense) fez 21 gols com a camisa do PSG em 2011/12.

Na Inglaterra, jamais um brasileiro terminou como o atleta que mais gols fez em um campeonato nacional.

Fora das cinco principais praças futebolísticas, contudo, o Brasil registrará um artilheiro, e inédito, nesta temporada.

E não será em um campeonato irrelevante, mas no de Portugal, que ocupa o segundo escalão em importância, ao lado da Eridivisie (Holanda).

O nome dele é Carlos Vinícius. Ele tem 25 anos, defende o Benfica, um dos grandes portugueses, e será comandado em breve por Jorge Jesus, ex-Flamengo.

A conquista do camisa 95 veio quase em cima da hora, e com a ajuda do VAR (árbitro assistente de vídeo).

Na derradeira partida da competição –que teve o Porto como campeão–, o Benfica empatava com o Sporting por 1 a 1 no clássico de Lisboa até os 42 minutos do segundo tempo.

Escanteio para o Benfica, a bola é rebatida e sobra para Pizzi, do lado direito da grande área do Sporting. Ele cruza, e Carlos Vinícius, que entrara na metade da segunda etapa, acerta um belo sem-pulo de pé esquerdo. Gol.

Mas ele nem comemorou, pois o tento foi anulado por impedimento. A sensação de todos, inclusive dele, era de posição irregular.

Só que em tempos de VAR é assim: comemora-se efusivamente para depois se frustrar; ou não se vibra na hora em que se devia, mas só dezenas de segundos depois.

No caso de Carlos Vinícius, a segunda opção ocorreu. O VAR constatou que ele estava na mesma linha do penúltimo defensor do Sporting, ou seja, em condição legal. Gol legítimo.

Gol esse que foi o 18º do ex-zagueiro das categorias de base de Santos e Palmeiras, hoje atacante, nesta edição do Campeonato Português. Ele se igualou a Pizzi, mas fica à frente do companheiro em um critério de desempate: menos minutos em campo.

O atacante Carlos Vinícius, com a camisa 95 do Benfica, usa máscara de proteção em tempos de pandemia de Covid-19 (Reprodução/Instagram de Carlos Vinícius)

Aliás, esse é um dos méritos de Carlos Vinícius. Sem ser titular absoluto, ele conseguiu balançar as redes pelo Benfica no Português uma vez a cada 99 minutos.

Quase um gol por jogo, considerados os 90 minutos de partida mais os acréscimos. E nenhum deles de pênalti.

Neymar fez um gol no Francês a cada 102 minutos, sendo 4 (dos 13) de pênalti; Coutinho, no Alemão, a cada 177; e Jesus, Willian, Richarlison e Firmino, no Inglês, a cada 144, 229, 237 e 334, respectivamente.

Esse desempenho, apesar de convincente, provavelmente não será suficiente para render a Carlos Vinícius uma convocação para a seleção.

Porém, caso continue rendendo o mesmo nos próximos meses, no início da temporada 2020/21, Tite terá bom senso se decidir lhe dar ao menos uma oportunidade.

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Em tempo: No Campeonato Português, não é tão raro um brasileiro figurar como principal artilheiro. Nesta década aconteceu com Hulk, 23 gols pelo Porto em 2010/11, e com Jonas, pelo Benfica (31 gols em 2015/16 e 34 gols em 2017/18).