Surto de coronavírus em time bagunça a 2ª divisão espanhola

A volta do futebol na Europa em meio à pandemia de coronavírus, com as equipes seguindo protocolos sanitários estabelecidos pelos governos e pela cartolagem, parecia um sucesso.

Nada tinha acontecido que pudesse prejudicar, devido à influência da Covid, o desenrolar das competições nas principais praças do velho continente que decidiram pela continuidade –França e Holanda encerraram prematuramente suas ligas nacionais.

A Alemanha concluiu a Bundesliga, e Inglaterra, Portugal e Itália caminham para finalizar seus respectivos campeonatos.

Contudo a Espanha, que retomou as atividades do esporte na segunda semana de junho, encontra-se no momento em uma situação complicada, na segunda divisão –a divisão de elite, com o Real Madrid campeão, terminou normalmente.

Pouco antes da última rodada da Liga Adelante, testes apontaram que uma dezena de jogadores do Fuenlabrada teve resultado positivo para coronavírus.

Quatro deles nem viajaram para Corunha, onde a equipe da Grande Madri jogaria na segunda-feira (20) contra o Deportivo La Coruña. Os outros seis descobriram o diagnóstico de Covid apenas na cidade do noroeste da Espanha.

A manutenção da viagem abriu uma polêmica que prossegue em andamento, com indefinição sobre responsabilidades, entre autoridades do governo espanhol, federação de futebol do país, Liga Espanhola e o Fuenlabrada.

Para o Conselho Superior de Desportos (CSD), “a atuação do Fuenlabrada colocou em risco a saúde de seus jogadores e a saúde pública”. De acordo com o órgão governamental, houve quebra no protocolo de segurança sanitária.

Em sua defesa, o Fuenlabrada sustenta que não incluiu na delegação que embarcou a Corunha aqueles que tiveram diagnóstico positivo para o vírus.

Novos testes foram feitos na manhã da segunda, antes da viagem, e os resultados que apontaram novos jogadores infectados só saíram no começo da noite, pouco antes da partida no estádio Riazor.

Diante desse cenário, e com todos os envolvidos conhecedores dos casos de infecção, concluiu-se que não era seguro realizar o jogo, que foi adiado –não tendo sido ainda remarcado pela Liga Espanhola.

A Liga, aliás, também sofreu críticas do CSD, por suposta omissão –saberia dos primeiros casos positivos no Fuenlabrada desde a noite de domingo e não os levou a conhecimento do conselho.

Em comunicado, a entidade que organiza o campeonato negou falha ou descaso: “Tão logo houve a confirmação de testes positivos comunicamos as circunstâncias para todas as organizações, com lealdade e transparência”.

A federação espanhola de futebol abriu um inquérito para apurar se o Fuenlabrada descumpriu medida(s) sanitária(s). Se houver essa conclusão, o clube pode ser multado, perder pontos na tabela ou até ser rebaixado.

O presidente do clube, Jonathan Praena, insiste que o clube “não cometeu nenhuma negligência”.

O panorama esportivo da segunda divisão espanhola também vive um impasse, que pode terminar nos tribunais.

Segundo o regulamento, na última rodada da competição todas as partidas devem acontecer no mesmo horário, visto que várias podem decidir o futuro das equipes, incluindo acesso, descenso e classificação para o playoff.

O Deportivo La Coruña e o Fuenlabrada estavam nessa situação.

Com a não realização do confronto, e conhecendo-se o resultado dos demais jogos, o primeiro já sabe que não tem mais chance de escapar do descenso, e o segundo, que precisará de um empate para avançar ao playoff, no qual quatro times lutam por uma vaga na elite.

O Elche, que corre risco de ser ultrapassado e ficar fora do playoff, exige da Liga que o Fuenlabrada seja punido com a derrota na partida. Alega que houve irregularidade sanitária.

Um outro argumento do Elche é ter havido “adulteração da competição sem precedentes no futebol espanhol e europeu”. Com o Deportivo La Coruña indo a campo sabendo que está rebaixado, haveria desinteresse de seus jogadores, o que reduziria a competitividade diante de um Fuenlabrada motivado para obter a classificação.

Caso o Fuenlabrada seja punido, será um tremendo baque para uma equipe que deu uma arrancada sensacional desde a retomada da Liga Adelante.

Das dez partidas disputadas, ganhou seis, empatou três e perdeu apenas uma, somando 21 pontos em 30 possíveis. A atual invencibilidade é de oito jogos.

A campanha recente fez o clube almejar o até então impensável: alcançar a primeira divisão, um feito inédito para a agremiação fundada em 1975 e que apenas em 2019 chegou à segunda divisão, da qual sagrou-se campeã.

O coronavírus, que pareceu um aliado do Fuenlabrada ao interromper o campeonato e dar-lhe a chance de se fortalecer e se impulsionar, tornou-se agora um inimigo que pode ceifar um sonho improvável que se tornou possível.