A precipitação e a incongruência da França na pandemia

O resultado justo, não só no futebol mas em qualquer esporte, é o obtido em campo (ou na quadra, ou na piscina, ou no tatame, ou no ringue, e assim por diante).

Devido à pandemia de coronavírus, campeonatos foram interrompidos no mundo todo no começo de março.

A maioria dos países preferiu esperar o desenrolar do comportamento do vírus antes de definir o futuro dos campeonatos de futebol.

Uma minoria optou por encerrá-los. Um deles foi a França.

O governo declarou no fim de abril que não seria possível a realização de nenhum evento esportivo até setembro e, como consequência, a Liga Francesa de Futebol deu seus torneios por finalizados.

E, faltando ainda dez rodadas para o término da Ligue 1, a divisão de elite, declarou campeão o Paris Saint-Germain, de Neymar, Thiago Silva e Marquinhos.

A equipe parisiense tinha 12 pontos de vantagem para o Olympique de Marselha, além de uma partida a menos, e parecia uma questão de tempo para erguer a taça.

Mas, e quase sempre há um mas (ou mais de um), isso pode ser considerado somente uma indicação, uma previsão. Matematicamente, havia chance de revertério.

Com a decisão, também se definiram os rebaixados (sobrou para Amiens, que tinha chances muito claras de escapar, e Toulouse) e os classificados para as ligas europeias –PSG, Olympique e Rennes na Champions League, e Lille na Liga Europa.

Isso estando o Lille a apenas um ponto do Rennes, em condição de lutar até o fim da Ligue 1 por vaga na principal competição interclubes europeia.

Faz diferença estar na Champions ou na Liga Europa? Claro que sim. Não só de prestígio, mas financeira. O clube que figura na fase de grupos da Liga dos Campeões embolsa no mínimo € 15 milhões (quase R$ 90 milhões).

Houve até quem tentou, sem êxito, reverter a determinação de se encerrar o campeonato.

O Lyon, sétimo na tabela, perdeu sua ação no Conselho de Estado (o mais alto tribunal administrativo na França), que considerou não haver “sérias dúvidas sobre a legalidade” do ato da Liga Francesa.

Os dias se passaram, e o tempo mostrou que a França agiu apressadamente, precipitadamente.

A pandemia perdeu força na Europa, regras de quarentena começaram a ser flexibilizadas, e outras praças começaram a retomar determinadas atividades, o ludopédio incluído entre as esportivas. Sem público, para evitar aglomerações nos estádios.

A Alemanha voltou no meio de maio e foi seguida, nas semanas seguinte, por Portugal, Espanha e Itália, para citar países de maior importância no futebol do velho continente.

E tudo correu bem até agora. Afora a tristeza e o desgosto de não ter torcida nas arenas –nas transmissões televisivas colocou-se, ridiculamente, o som artificial de torcedores–, as partidas se desenvolveram normalmente.

Os clubes e federações trataram de implantar protocolos nos treinos e nos jogos, com o necessário distanciamento dos atletas sempre que possível e testagem constante dos mesmos, e casos positivos de Covid-19 não foram detectados.

Isso mesmo com as celebrações de gols comedidas (com toques de cotovelo e tapinhas na cabeça) sendo paulatinamente abandonadas.

Atualmente, os atletas se amontoam na comemoração, sem nenhum cuidado relativo à contaminação –suor e perdigotos são divididos a granel.

Aliás, uma dúvida me persegue. Haveria jogadores infectados atuando? Se sim, isso está sendo encoberto.

É uma hipótese que nem quero aventar, apesar de já tê-lo feito, pois seria um escândalo, uma tremenda irresponsabilidade das autoridades fiscalizadoras.

Futebol retomado, a Alemanha fez seu campeão (Bayern, para não variar), a Inglaterra também (Liverpool, encerrando jejum de 30 anos).

E as demais ligas, se tudo correr conforme o previsto, farão os seus. Provavelmente Real Madrid na Espanha, Juventus na Itália e Porto em Portugal.

Esportivamente, não haverá reclamação em relação à legitimidade de cada um dos campeões, de cada um dos classificados a competições continentais, de cada um dos rebaixados.

A França deveria ter esperado. De acordo com o jornal The New York Times, o pico de mortes por Covid ocorreu no dia 15 de abril (1.438). Em todo o mês de junho, foram 902, ou 30 por dia, em média.

Em questão de poucas semanas o país veria que, com medidas preventivas adequadas, o futebol poderia ser retomado e que o aborto da Ligue 1 e da Ligue 2 (segunda divisão) teria sido uma ideia ruim, inadequada.

Tanto foi um erro que, apenar do estabelecimento de reinício de atividades esportivas só em setembro, isso não será cumprido.

A temporada 2020/2021 do Campeonato Francês está agendada para começar no dia 22 de agosto.

E as decisões de duas copas futebolísticas da atual temporada, a da França (PSG x Saint Étienne) e a da Liga Francesa (PSG x Lyon), estão confirmadas respectivamente para os dias 24 e 31 de julho, o mês corrente.

E com público! Haverá permissão para que 5.000 pessoas acompanhem essas finais no Stade de France, que tem capacidade para cerca de 80 mil, na Grande Paris.

Aliás, se dependesse do presidente da Federação Francesa de Futebol, haveria bem mais torcedores, “25 mil ou 50 mil”, nas palavras de Nöel Le Graet, que aos 78 anos está bem dentro do grupo de risco para contágio de coronavírus.

Há quem argumente que o atual cenário sanitário no país permitiu essa mudança, uma flexibilização no que se decidira anteriormente.

É um argumento válido, que só reforça a incongruência desmedida em meio à pandemia de quem comanda não só o futebol, mas o próprio governo francês, levando à desnecessária consumação do prejuízo esportivo.

Genuínos trapalhões do planejamento, autênticos campeões da incoerência.

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Em tempo: Quem também se precipitou em meio à pandemia de Covid foi a Holanda, que a exemplo da França encerrou antes do fim, e com muito em disputa entre os clubes, a Eridivisie. Decidiu-se, porém, que a competição ficará sem um campeão. O Ajax, líder à época da paralisação, com a mesma pontuação do AZ Alkmaar, não receberá a taça. E nenhum time será rebaixado ou promovido.