A aversão aguda que domina, descontrola e desonra

Tenho certeza de que todo jogador de futebol teve, quando criança, um time do coração.

Geralmente essa paixão persiste até a vida adulta, e com o uruguaio Washington Aguerre não é diferente.

Só é preciso cuidado para que o amor por determinado clube não prejudique a carreira profissional.

Fã do Peñarol, equipe que defendeu nas categorias de base e à qual ainda é vinculado por contrato, Aguerre está emprestado ao Cerro Largo, uma equipe de menor expressão.

Como todo torcedor do Peñarol, Aguerre nutre um ódio agudo pelo arquirrival, o Nacional, o outro grande do Uruguai, também sediado na capital, Montevidéu.

A aversão ao Nacional fez com que o goleiro de 26 anos não contivesse as provocações aos torcedores.

Ocorreu primeiro em novembro, quando, logo após a vitória do Cerro Largo por 1 a 0, como visitante, no estádio Gran Parque Central, Aguerre afrontou os torcedores do Nacional.

Exibiu insistentemente a mão aberta, os cinco dedos à mostra, em referência aos cinco títulos seguidos (quinquênio) do Campeonato Uruguaio que o Peñarol conquistou duas vezes: nos anos 1950/60 e na década de 1990.

O Nacional tem um único quinquênio, de 1939 a 1943.

O ato de Aguerre não passou impune. Ainda em campo, levou o segundo cartão amarelo e, consequentemente, foi expulso pelo árbitro, por atitude antidesportiva.

Depois, de quebra, recebeu uma suspensão de dois jogos da federação uruguaia.

O goleiro pediu desculpas aos torcedores do Nacional pelo seu ato.

“Não tenho nada contra os fãs do Nacional. O que fiz foi lastimável, nem pude comemorar o resultado do jogo. Pensei muito no que fiz, e não me acrescenta nada”, disse à rádio uruguaia Sport 890.

Mas parece que ninguém acreditou muito nele, incluindo os dirigentes e a comissão técnica do Cerro Largo.

Tanto que, antes da partida de sábado (22), no estádio Centenario, diante do mesmo Nacional, o treinador Danielo Núñez e até o presidente, Ernesto Dehl, advertiram o guarda-metas. “Trate de se portar bem diante do Nacional”, declarou o mandatário.

A desconfiança era justificada.

Durante a partida, Aguerre não conseguiu controlar sua ferrenha ojeriza pelo Nacional.

Quando o Cerro Largo abriu o placar, perto do fim do primeiro tempo, o goleiro vibrou e depois sentou-se no gramado, de frente para a torcida do Nacional, colocando-se em posição de meditação.

Talvez quisesse, com sua atitude zen (à la Haaland, a jovem sensação norueguesa do Borussia Dortmund), passar a mensagem de “paz e amor”.

Se foi isso, ninguém entendeu. E o árbitro Andrés Cunha lhe deu o cartão amarelo.

Para Aguerre, se ficasse nisso, e o time vencesse, menos mal. Ouviria nova bronca dos superiores, possivelmente receberia uma multa. E a vida seguiria.

O camisa 29 (já se foi o tempo em que os goleiros vestiam apenas a 1) comportou-se no segundo gol do Cerro Largo, aos 30 minutos do segundo tempo, e a vitória parecia certa.

Só que, lembrando aquela antiquíssima frase (atribuída hoje, em pesquisas na internet, a um tal Evandro Guedes, mas certamente não é ele o criador), “o jogo só termina quando acaba”.

E já nos acréscimos, aos 47 minutos, quando o Nacional atacava tentando fazer o chamado gol de honra, Aguerre saiu de forma estabanada do gol e atingiu dentro da área, com o pé esquerdo, o meia Castro. Pareceu um golpe de taekwondo.

Aguerre, do Cerro Largo, comete pênalti em Castro, do Nacional, nos acréscimos do 2º tempo. clique e veja os gols do jogo (Reprodução/YouTube)

Pênalti! E o segundo cartão amarelo para Aguerre, seguido do vermelho.

Como o Cerro Largo já tinha feito as três substituições, um jogador de linha, o lateral Ferreira, foi para a meta.

Para levar o gol de pênalti (Bergessio) e, aos 51 minutos, mais um gol, em chute de Yacob. Final: 2 a 2.

Do lado do Cerro Largo, jovem time fundado em 2002, ainda sem nenhum título na elite do futebol, a culpa pelo resultado recaiu, logicamente, sobre Aguerre.

Núñez, o treinador, estava inconformado e repetia: “A mesma coisa! A mesma coisa! Nós avisamos! Nós avisamos!”.

Dehl, o presidente, declarou pouco depois do fim do jogo que já tinha uma decisão tomada a respeito do futuro de Aguerre.

Se era a medida pensada após a partida ou não, ela foi tornada pública nesta segunda (24): o goleiro, para continuar a vestir a camisa do Cerro Largo, terá de se submeter a tratamento psicológico.

“Pensamos mais na pessoa que no jogador, pois, se pensássemos só no jogador, não ficaríamos com ele”, afirmou Dehl  ao site Ovación.

“Sempre acreditei que os clubes de futebol devem cumprir uma obrigação social, ajudar uma pessoa que tem um problema de comportamento.”

Aguerre, que não se pronunciou, foi tomado como desequilibrado, e as evidências mostram que , quando o assunto é o Nacional, ele sim se descontrola, desonrando sua imagem.

Agora, o goleiro decidirá se acatará a proposta do Cerro Largo ou se vai se desligar do time, retornando ao Peñarol, que, devido ao histórico do jogador, terá possivelmente muita dificuldade para voltar a emprestá-lo.