Escócia quer proibir crianças de até 12 anos de cabecear a bola

A Associação Escocesa de Futebol (SFA) pretende em breve proibir que as crianças com até 12 anos de idade cabeceiem a bola em treinamentos em seus respectivos clubes ou escolas.

O motivo, de acordo com Mike Mulraney, vice-presidente da entidade (que equivale no país do Reino Unido ao que a CBF é no Brasil), é preservar a saúde de meninos e meninas, reduzindo o risco de eles terem posteriormente danos cerebrais que afetariam as funções cognitivas, podendo inclusive resultar em demência.

A ação da SFA é motivada por um estudo divulgado em outubro passado, realizado pela Universidade de Glasgow, a cidade mais populosa da Escócia (com aproximadamente 600 mil habitantes), que apontou que os futebolistas têm 3,5 mais chance de morrer de doenças neurodegenerativas do que a população em geral.

Fizeram parte da pesquisa 7.676 ex-jogadores e 23 mil pessoas que não praticaram profissionalmente o futebol.

Apesar de o estudo não afirmar categoricamente que cabecear com frequência a bola resulta em patologias, ele induz a essa conclusão, o que levou Mulraney a afirmar:

“As crianças, em seu estágio de formação, precisam de proteção. Há um risco real que não pode ser medido agora, mas indubitavelmente há um risco. Não vejo lógica em tomarmos qualquer outra decisão”.

Ao abordar o tema, o jornal The Guardian, da Inglaterra, lembrou que uma pesquisa norte-americana feita na Suécia e divulgada há pouco mais de três anos, com uma base de dados de mais de 100 mil pessoas, concluiu que as que passaram por alguma concussão têm chance maior de ter problemas de saúde mental e menor de concluir o ensino médio e de se graduar no superior.

Constata-se uma concussão quando uma pancada na cabeça gera dores, desorientação e perda de memória, entre outros efeitos nocivos, como tontura, vômito e sonolência excessiva.

O brasileiro Firmino, do Liverpool, tenta ganhar jogada de cabeça contra Egan (12) e Basham, do Sheffield United, em jogo do Campeonato Inglês no estádio Anfield (Paul Ellis – 2.jan.2020/Reuters)

Caso seja mesmo implementada, a providência escocesa não será inédita.

Desde 2016, nos EUA, após determinação da US Soccer (a federação de futebol local), professores e técnicos de futebol que lidam com crianças de até 10 anos não realizam atividades com cabeceios, devido ao temor de ocorrência de lesões no cérebro.

Além dessa medida de proteção às crianças, a SFA pretende fazer lobby na Ifab, o órgão que regulamenta as regras do futebol, para que seja instaurada uma regra que permite a substituição temporária do jogador vítima de concussão durante uma partida, como ocorre no rúgbi.

Caso o atleta, depois da devida avaliação médica, que duraria em torno de cinco minutos, seja considerado apto a jogar, ele retorna ao campo.

Os debates e estudos sobre a relação entre cabecear frequentemente a bola –praxe no futebol– e o estado futuro de demência devem prosseguir, mas há no meio médico quem considere esse um fator óbvio.

“Cabecear a bola de forma repetitiva, dia após dia, semana após semana, é o que leva aos danos que vimos em ex-profissionais [como os britânicos Jeff Astle e Rod Taylor, que morreram em 2002 e 2018, respectivamente]”, declarou Michael Grey, que tem um projeto sobre futebol e demência em uma universidade de Norwich (Inglaterra), ao Guardian.

Segundo ele, as crianças, por terem uma cabeça relativamente maior e pescoços mais frágeis, estão mais expostas aos riscos de lesões.

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