Uefa cai em descrédito ao encaixar Cristiano Ronaldo no Time dos Fãs

No final de novembro, como é praxe anualmente, a Uefa anunciou em seu site que estava aberta a votação, no site da entidade que comanda o futebol na Europa, para a eleição do Time dos Fãs, edição 2019.

Em uma relação de 50 nomes, todos logicamente de clubes europeus, o interessado em votar tinha que escolher 11, divididos pelos setores do campo. Havia algumas opções de formações táticas, como as tradicionais 4-4-2 e 4-3-3 e também a 3-5-2, a 3-4-3 e a 5-3-2. Ou seja, o limite de jogadores a serem selecionados para o ataque era de três.

Pois qual não foi a surpresa quando, no dia 15 deste mês, a Uefa divulgou o Time dos Fãs em um heterodoxo 4-2-4, com a seguinte escalação:

Alisson (Brasil/Liverpool); Alexander-Arnold (Inglaterra/Liverpool), De Ligt (Holanda/Ajax/Juventus), Van Dijk (Holanda/Liverpool) e Robertson (Escócia/Liverpool); De Jong (Holanda/Ajax/Barcelona) e De Bruyne (Bélgica/Manchester City); Messi (Argentina/Barcelona), Lewandowski (Polônia/Bayern de Munique), Mané (Senegal/Liverpool) e Cristiano Ronaldo (Portugal/Juventus).

De imediato houve reação da mídia esportiva, com a consequente descoberta de que Cristiano Ronaldo teve favorecimento da entidade, que “inventou” um esquema tático inexistente à época da votação (até 9 de janeiro) para incluir o português pela 14ª vez no time do ano –marca que amplia seu recorde–, a 13ª consecutiva.

O que se apurou é que Cristiano Ronaldo, cinco vezes o melhor jogador do planeta (só perde para Messi, eleito seis vezes), esteve entre os 11 mais votados pelos usuários do site da Uefa, porém foi “apenas” o quarto entre os atacantes, o que seria insuficiente para que ele figurasse na equipe de 2019.

E aí, “na cara dura”, a Uefa, sem nenhum aviso, decidiu modificar a regra do jogo, “criando” o esquema 4-2-4. Isso certamente passou por uma discussão interna, com aprovação da cúpula da entidade, pois a divulgação do resultado atrasou seis dias –estava prometida para a data de encerramento da eleição.

O meio-campista excluído para o encaixe do CR7 teria sido o volante francês Kanté, do Chelsea, que, ressalte-se, nem fez temporada tão brilhante, porém conquistou com os Blues a Liga Europa, o segundo torneio em importância no continente, depois da Champions League, vencida pelo Liverpool.

Entrei em contato com a Uefa, a fim de saber o que a entidade tinha a reportar a respeito da alteração na formação tática (para 4-2-4) e solicitando o resultado da enquete –os que mais receberam votos em cada setor (goleiro, defesa, meio-campo e ataque).

A resposta, que, como imaginei, não trouxe a quantidade de votos recebida por cada concorrente, foi esta:

“A formação –que mudou várias vezes ao longo dos anos– para o Time do Ano dos Fãs da Uefa foi escolhida para refletir os votos dos fãs em paralelo com as conquistas dos jogadores nas competições da Uefa. Como resultado, há cinco vencedores da Liga dos Campeões e quatro finalistas da Liga das Nações (incluindo um vencedor) no time”.

Esse vencedor é justamente Cristiano Ronaldo. A Liga das Nações, competição entre países que oferece vagas para a Eurocopa, teve sua primeira edição realizada em 2018/2019, e na final Portugal, atuando em casa, no Porto, derrotou a Holanda.

É fato que, na página em que a Uefa anuncia a votação para o Time dos Fãs, o texto frisa que “atuações nas competições da Uefa terão um grande peso na avaliação”.

É fato também que Cristiano Ronaldo fez os três gols de Portugal na semifinal da Liga das Nações (3 a 1 na Suíça), assim como é fato que essa foi sua única grande atuação na competição –não brilhou na final (1 a 0, gol de Gonçalo Guedes) e não participou de nenhuma das quatro partidas da fase de classificação, ainda em 2018.

Mas é no mínimo pouco transparente não avisar os votantes (foram mais de dois milhões), que não tinham a opção de escolher quatro atacantes (se houvesse, seria sem dúvida a preferida, assim como uma hipotética formação com cinco atacantes), que a entidade poderia, a seu critério e a seu bel-prazer, definir a escalação final.

E a falta de transparência leva ao descrédito. É a imagem que fica do resultado dessa eleição.

*

Em tempo 1: Desde 2001, primeiro ano da escolha do Time da Uefa pelos fãs, jamais houve alteração da escalação para que ela tivesse quatro atacantes. Ou seja, não procede a declaração da Uefa de que a formação “mudou várias vezes ao longo dos anos”. O máximo de estranhamento que se viu foi, devido à quantidade de votos recebida pelos defensores na disputa entre eles, alguns times terem no setor, em vez dos habituais dois laterais e dois zagueiros, apenas um lateral e três zagueiros, ou até mesmo só zagueiros (Sergio Ramos, Piqué, Boateng e Bonucci, em 2016).

Em tempo 2: Eu votei (muito possivelmente pela última vez) no Time dos Fãs, em algum momento no fim de dezembro, e assim escalei os 11, em um 4-3-3: Alisson (campeão europeu); Alexander-Arnold (campeão europeu), De Ligt (semifinalista na Champions, vice-campeão na Liga das Nações), Van Dijk (campeão europeu) e Robertson (campeão europeu); De Jong (semifinalista na Champions, vice-campeão na Liga das Nações), De Bruyne (campeão inglês) e Bruno Fernandes (do Sporting, vice-artilheiro no Campeonato Português e campeão na Liga das Nações); Messi (campeão e artilheiro no Campeonato Espanhol), Mané (campeão europeu) e Cristiano Ronaldo (campeão italiano e na Liga das Nações). De diferente da lista da Uefa, a presença de Bruno Fernandes e a ausência de Lewandowski.