Torcedores veem traição e queimam estátua de Ibrahimovic na Suécia

A traição é algo comumente tido como imperdoável no futebol.

Virar a casaca, na visão do torcedor que se sentiu lesado pelo até então exemplo de fidelidade ao clube, pode provocar reações extremas.

Se o jogador em questão passa a defender um arquirrival, o cenário é ainda mais nefasto.

Por exemplo, desde que o brasileiro David Luiz se transferiu do londrino Chelsea para o igualmente londrino Arsenal, aguardo o primeiro duelo entre os clubes no Stamford Bridge, a arena dos Blues, para saber quão colérica será a atitude dos fãs do Chelsea.

Esse encontro ocorrerá no dia 21 de janeiro e, caso o zagueiro de 32 anos seja escalado, o mínimo que se pode aguardar – e espera-se que seja também o máximo – são, a cada toque seu na bola, xingamentos e vaias intensas para ele.

O zagueiro David Luiz depois de ter sido contratado pelo Arsenal (Reprodução/Site da Premier League)

Titular da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2014 (foi o capitão no 7 a 1 para a Alemanha), David Luiz era considerado um expoente no Chelsea, tendo vestido a camisa azul por sete temporadas e ganhado com ela uma Liga dos Campeões da Europa, duas Ligas Europa, um Campeonato Inglês e duas Copas da Inglaterra.

Respeitadas as devidas proporções, seria como se Messi trocasse o Barcelona pelo Real Madrid; ou se Harry Kane, artilheiro e torcedor declarado do Tottenham, se transferisse para o Arsenal; ou se Gabigol, hoje um grande ídolo flamenguista, aparecesse com a camisa do Vasco ou do Fluminense.

Pois o vilão do momento é o egocêntrico e polêmico Zlatan Ibrahimovic.

O principal futebolista da Suécia deste século – talvez não da história, pois o país teve notáveis jogadores vice-campeões mundiais em 1958 –, artilheiro de Ajax, Juventus, Inter de Milão, Barcelona, Milan, PSG, Mancheter United e, mais recentemente, LA Galaxy (EUA), irritou profundamente os fãs do Malmö, seu primeiro clube como profissional (1999-2001).

Ao encerrar sua passagem pelo time de Los Angeles, Ibra tornou-se um dos proprietários do Hammarby, adquirindo 23,5% das ações do clube de Estocolmo.

Torcedores do Malmö, cidade natal de Ibra, não gostaram nada desse ato.

O problema, dessa vez, nem foi a rivalidade entre as agremiações, que são de cidades diferentes e de relevância esportiva distinta – o Malmö é o maior vencedor do campeonato nacional (20 vezes), enquanto o Hammarby tem um único troféu, ganho em 2001.

Ibrahimovic participa da inauguração de sua estátua, perto do estádio do Malmö, seu primeiro clube no profissionalismo (Reprodução/Instagram de Zlatan Ibrahimovic)

O que irritou os mais fanáticos seguidores do Malmö foi Ibra ter deixado o time em segundo plano, apenas um mês e meio depois de a federação de futebol sueca ter inaugurado uma estátua do atacante de 38 anos na frente do estádio do clube.

“Hammarby é um clube fantástico, com torcedores apaixonados e respeitado tanto em Estocolmo como na Suécia”, declarou Ibra, que apareceu exibindo uma camisa da equipe.

“Sempre gostei do clube e de seus fãs e estou impressionado com o que tem sido feito dentor e fora do campo. Será divertido e empolgante me juntar ao Hammarby e ajudá-lo a progredir.”

Deixou no ar ainda a possibilidade de atuar pelo time da capital sueca.

Ibra exibe camisa do Hammarby, clube de Estocolmo do qual se tornou sócio e investidor (Reprodução/Twitter do Hammaby IF)

Resultado dessa decisão: o monumento de bronze em homenagem a ele em Malmö foi vandalizado e incendiado.

Sem resquícios de remorso, de acordo com Kaveh Hosseinpour, vice-presidente da torcida organizada do Malmö.

“Foi uma traição e uma provocação. Ele [Ibrahimovic] nos deu uma facada pelas costas, depois veio pela frente com uma espada e nos decapitou”, afirmou à agência Associated Press.

“A estátua agora virou sucata, não tem mais nenhum valor. Deveria ser removida e colocada em algum lugar de Estocolmo, que é o lugar de uma estátua de um investidor do Hammarby, não mais a estátua do jogador de futebol Zlatan Ibrahimovic.”

Ibra, além do talento futebolístico, é também famoso por ser praticante de artes marciais.

Agora tido como persona non grata por parte de Malmö – cidade de pouco mais de 315 mil habitantes –,  não é improvável que tenha de recorrer a essas habilidades, como autodefesa, quando voltar às ruas da cidade em que nasceu, a não ser que pretenda fazê-lo disfarçado.