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Se for para trocar Tite, a hora é agora

Os maus resultados da seleção brasileira nos amistosos pós-Copa América serviram para uma parte da mídia pedir a cabeça do técnico Tite.

O Brasil foi, de fato, mal nessas partidas, na qual empatou com Colômbia (2 a 2), Senegal (1 a 1) e Nigéria (1 a 1) e perdeu de Peru (0 a 1) e Argentina (0 a 1).

Nessa última derrota, em Riad, na Arábia Saudita, a seleção foi dominada pela Argentina no segundo tempo e poderia ter perdido de goleada.

Bastou para narradores e comentaristas questionarem incisivamente o trabalho de Tite, sugerindo sua substituição.

Galvão Bueno, da Globo, decretou: “Ou o Tite muda ou tem que mudar o Tite”. Deu a entender que o treinador precisa dar um jeito de fazer a seleção jogar melhor. Se não, rua.

Na ESPN Brasil, Jorge Nicola reclamou da previsibilidade do Brasil e quer um treinador estrangeiro no comando, como Jorge Jesus, do Flamengo, ou Jorge Sampaoli, do Santos. Com Tite, diz, o Brasil “não evolui, só regride”, está sem criatividade, e há jogadores que não merecem estar no time, como Willian, Alex Sandro e Danilo.

Na Fox Sports, Fábio Sormani disse “chega!” em relação a Tite, com críticas efusivas à presença de Éder Militão, Danilo e Willian entre os convocados. Para ele, o atual treinador não tem mais conseguido fazer os jogadores renderem o que deles se espera.

Tudo isso é verdade, porém cabe discussão.

É nítido que o Brasil tem jogado mal, sem criatividade, sem alternativas táticas ofensivamente, sem brilho individual (exceção ao goleiro Alisson, que fez várias defesas contra a Argentina, e a um ou outro lampejo de jogador X ou Y).

Sem quase nada a oferecer, coletiva ou individualmente, a seleção naufraga. Sem o desempenho, tantas vezes cobrado por Tite, o resultado dificilmente vem.

Em sua defesa, o treinador, conforme frisou na entrevista em que anunciou os convocados para os amistosos deste mês, elencou o que alcançou até agora, desde que assumiu, na metade de 2016:

  • a classificação para a Copa do Mundo da Rússia-2018;
  • a conquista da Copa América no Brasil, neste ano.

“Três foram as competições oficiais, com necessidade de resultado e desempenho. Na primeira [eliminatórias], formatamos a equipe e classificamos em primeiro [lugar] para o Mundial. Na Copa do Mundo, quartas de final, saímos [sic] para a Bélgica. Copa América, título”, declarou Tite.

O técnico encara a atual fase, de amistosos, como uma mera preparação para a próxima etapa de jogos para valer, as eliminatórias para a Copa de 2022, no Qatar, que começarão no final de março.

Gostaria de estar vencendo essas partidas, nas quais o Brasil tropeçou? Sem dúvida. Estaria mais tranquilo no cargo, mesmo que insatisfeito com o futebol ruim? Idem.

Aliás, mais que o resultado, a preocupação maior do treinador, dos analistas e dos torcedores é esta: a ausência de um rendimento satisfatório.

Ter os jogadores entrosados ajuda bastante, mas uma equipe ajustada taticamente, e engajada emocionalmente, funciona independentemente da troca de três ou quatro atletas por jogo.

Por alguma razão, a engrenagem montada por Tite está emperrada, enferrujada, defeituosa.

Caso seja falta de comprometimento dos jogadores, o treinador precisa ter a capacidade de estimulá-los.

Quem não correr o suficiente, quem não mostrar a desejada e cobrada intensidade, deve sair, abrir espaço a quem “se mate” em campo pela vitória.

O mesmo precisa ser notado em relação ao momento dos atletas em seus respectivos clubes.

Danilo (Juventus), Militão (Real Madrid), Arthur (Barcelona) e Lucas Paquetá (Milan), por exemplo, ou são reservas ou estão tecnicamente em fase ruim. Não é o caso de dar chance a outros nomes?

Gabriel Jesus, que desperdiçou um pênalti diante dos argentinos, é marcado por Foyth (Ahmed Yosri – 15.nov.2019/Reuters)

Enfim, mesmo que as apresentações recentes da seleção estejam sendo pífias, interromper um trabalho no meio do caminho pode ser temeroso.

Ainda mais considerando que em jogos que valem a performance de Tite é excelente: 17 vitórias, cinco empates e uma única derrota (o 2 a 1 para a Bélgica, na Copa da Rússia).

Agora, se a conclusão da CBF for que é necessário jogar bem e vencer mesmo em amistosos – a seleção faz o último do ano nesta terça (19), contra a Coreia do Sul–, a hora de substituir Tite é esta.

Pior do que trocar um técnico no meio de um projeto – o com Tite visa a Copa no Qatar – é trocar no meio da competição que determina a ida para esse Mundial.

Questão: trocar por quem?

Renato Gaúcho? No Brasil, pelos feitos recentes, é o mais indicado. E ele aceitaria sem pestanejar.

Um dos Jorges, o português Jesus ou o argentino Sampaoli, que são as sensações do momento no Campeonato Brasileiro? Primeiro: eles querem? Segundo: conseguirão impor seus métodos na seleção, na qual não trabalharão dia a dia com os jogadores?

A minha conclusão é que não há um nome, empregado ou não, no Brasil ou fora, que seja unanimidade.

E Tite, quando assumiu o posto na vaga de Dunga, era uma opção de consenso, quase uma unanimidade.

Perdeu essa qualidade agora, mas ainda tem crédito suficiente para dar continuidade ao trabalho, independentemente do placar e da atuação da seleção na partida diante dos sul-coreanos.

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