UOL - O melhor conteúdo

VAR no Brasil custa mais que o dobro do que na Espanha

Novidade na primeira divisão do Campeonato Brasileiro deste ano, o uso do VAR (video assistant referee, árbitro assistente de vídeo) tem no Brasil custo bem maior do que em pelo menos dois países europeus.

De acordo com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), o preço pago a cada partida para que o sistema de videoarbitragem seja operacionalizado é de R$ 51 mil, em média.

Essa cifra representa mais que o dobro da verificada na Espanha, país em que o VAR está presente em todas as partidas da primeira e da segunda divisão. Lá, o custo por jogo é de R$ 23,9 mil.

Se a comparação for com a Holanda, a diferença também é enorme, 80% a mais. Na Eridivisie, a divisão de elite holandesa, o sistema custa R$ 28,3 mil por partida.

Em ambos os casos, houve a conversão de euros para reais.

Nas últimas semanas, fiz contato com as principais ligas europeias para questionar quanto custa ter o VAR em ação, incluindo todas as despesas que ele exige, como pessoal, equipamentos, deslocamentos etc.; enfim, a logística da estrutura.

Representantes de Espanha (“calculando por partida, o custo é de cerca de € 5.200”, afirmou Eduardo Sobreviela, coordenador de comunicação da Federação Espanhola) e Holanda (“para 324 jogos, em torno de € 2 milhões”, disse Bram Groot, assessor de imprensa da Federação Holandesa) foram os únicos a revelar os valores.

Monitor no estádio do Mallorca (Espanha) a ser usado pelo árbitro de campo se ele considerar adequado depois de ser alertado de possível erro pelo VAR, o árbitro assistente de vídeo (Albert Gea – 25.set.2019/Reuters)

Na França, a indagação, feita pelo menos cinco vezes por escrito desde 22 de agosto, foi solenemente ignorada.

Federação Italiana, alegando sigilo das informações, e Premier League, a liga responsável pelo Campeonato Inglês (“não divulgamos esses dados”), declararam que não disponibilizariam os custos do VAR.

A Liga de Portugal afirmou, por meio de seu departamento jurídico, que questões relativas à arbitragem ficam “na alçada da Federação Portuguesa”, que “presta todos os serviços de nomeação, observação e avaliação dos elementos das equipas de arbitragem que atuam nas competições profissionais, incluindo os relativos ao VAR”.

Contatada, a federação lusa não se manifestou.

Na Alemanha, a federação empurrou a questão para a Liga de Futebol (DFL), que disse não revelar o custo do VAR, porém, em tom contraditório e evidenciando falta de sintonia com a federação, empurrou de volta o tema para ela.

“Talvez possam dizer a você o custo por jogo do árbitro assistente de vídeo e de seu auxiliar (assistente do árbitro de vídeo). Acredito que a federação forneça esse número caso solicitado”, escreveu Christopher Holschier, chefe de comunicação corporativa da DFL.

Novamente a solicitação foi feita, mas nada de resposta.

Leia também: Árbitro faz sinal de VAR para dar pênalti na Bolívia, país que não usa o VAR

Centro de operações do VAR (video assistant referee) em Colônia, na Alemanha (Ina Fassbender – 5.ago.2019/AFP)

Leia também: VAR falha, e time abandona a final da Champions africana

Em relação à CBF, é elogiável que seja transparente ao expor o custo do sistema, diferentemente do verificado com Alemanha, Inglaterra, França, Portugal e Itália.

Pedi, ademais, à confederação que se posicionasse acerca da disparidade do valor pago aqui, em relação ao desembolsado por espanhóis e holandeses, e recebi a seguinte resposta.

“A CBF entende [o VAR] como um investimento no aperfeiçoamento do futebol, na qualidade do produto apresentado ao torcedor que acompanha no estádio, em casa ou qualquer outro local pelos dispositivos móveis.”

“É importante destacar que qualquer projeto sobre futebol brasileiro envolve um território com dimensões continentais, o que faz do nosso o maior VAR do mundo.”

“Há conversas sobre a evolução do sistema, com central única de revisão das imagens, o que exigiria um investimento inicial muito maior e, em médio prazo, reduziria os custos.”

“Neste momento, a preocupação com a qualidade do espetáculo vem se mostrando correta. Estamos melhorando a cada rodada e a aprovação do árbitro de vídeo comprova o acerto desse pensamento.”

Traduzirei para o leitor o que se depreende dessa prolixidade da CBF:

  • são as grandes distâncias (“território com dimensões continentais”) que aumentam o custo;
  • para que as despesas sejam minimizadas, é necessário investir em um “quartel-general” de VAR (como ocorre na Alemanha, onde todos os jogos são acompanhados pelos árbitros assistentes em uma base instalada na cidade de Colônia, sem a necessidade de haver equipamentos em cada estádio).

Então, se a CBF tem a solução para, conforme exposto, reduzir os custos a médio prazo, que a viabilize o quanto antes – sem a desculpa de não haver verba para tal, pois de pobre a entidade não tem nada.

Em tempo: Houve também tentativas de obter a posição da Hawk-Eye, que cuida da parte técnica do VAR tanto no Brasil como na Espanha e na Holanda, acerca dos motivos da diferença financeira. A empresa não se pronunciou.

Comentários 0

Avatar do usuário

Avatar do usuário

960

Compartilhe:

Ao comentar você concorda com os termos de uso

    Os comentários não representam a opinião do portal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
    Leia os termos de uso