Depois de parar de jogar futebol, goleiro realiza sonho de criança

O tcheco Petr Cech foi um dos grandes goleiros que vi jogar.

Frio, sério e sereno, 1,96 m de altura, estava quase sempre muito bem posicionado, o que passava enorme segurança ao restante do setor defensivo das equipes que representou.

As mais famosas são os londrinos Chelsea, de 2004 a 2015, e Arsenal, de 2015 até este ano.

Pelos Blues, clube que defendeu por mais de 330 partidas, Cech sagrou-se campeão da Champions League em 2012, o principal título de sua carreira, e conquistou quatro vezes o Campeonato Inglês (Premier League) e outras quatro a Copa da Inglaterra, além de três Copas da Liga Inglesa e duas Supercopas da Inglaterra.

No Mundial de Clubes de 2012, não conseguiu evitar que o corintiano Guerrero fizesse o gol, o único da partida decisiva, e acabou como vice-campeão.

Pelos Gunners, ganhou uma Copa e duas Supercopas da Inglaterra.

Um de seus maiores feitos individuais é o recorde de partidas sem tomar gols na Premier League (202). Atualmente ninguém ameaça essa marca.

Cech, que atuou pela seleção da República Tcheca de 2002 a 2016, aposentou-se aos 37 anos, vestindo a camisa 1 do Arsenal, após a final da Liga Europa, no dia 29 de maio, derrota por 4 a 1 justamente para o Chelsea.

Além das qualidades como goleiro, ele fez fama por ter passado a usar, em todos os jogos desde janeiro de 2007, uma proteção na cabeça, da cor preta, igual à utilizada por jogadores de rúgbi.

O motivo: três meses antes, teve uma fratura do crânio decorrente de um choque violento com Stephen Hunt, do Reading – o joelho do meia atingiu a cabeça do goleiro.

O tcheco Cech, com sua famosa proteção na cabeça, defende o Arsenal contra o Liverpool em partida do Campeonato Inglês (Phil Noble – 27.ago.2017/Reuters)

Depois de pendurar as luvas, Cech continuou ligado ao futebol, assumindo no Chelsea, clube com o qual teve maior identidade, a função de conselheiro técnico e de rendimento.

Porém, por mais que o cargo possa ter sua relevância, não foi suficiente para manter o tcheco 100% focado nele.

O lado esportista ainda imperava, e Cech decidiu que poderia revivê-lo de modo a, de quebra, realizar um sonho de garoto: jogar um campeonato de hóquei no gelo.

O hóquei no gelo é muito popular na República Tcheca, e o pequeno Cech dava suas tacadas quando morava em seu país, na cidade de Plzen.

Em entrevista em 2016 à Arsenal TV, ele revelou a razão de não ter seguido carreira no esporte que amava: faltou dinheiro. “Naquela época era preciso comprar todo o equipamento [taco, patins, uniforme], então imagine o lado financeiro disso.”

Em agosto último, Cech participou de um treinamento do Guildford Phoenix, atuando na posição que o consagrou no futebol.

Agradou e, no meio da semana passada, assinou um contrato para atuar pela equipe da NIHL (National Ice Hockey League), sediada na cidade de Guildford, que fica, de carro, a pouco mais de uma hora de Londres.

A NIHL engloba da segunda à quarta divisões do hóquei no gelo na Inglaterra. O Guildford Phoenix tenta o acesso da quarta para a terceira divisão.

“Espero poder ajudar esse jovem time a atingir suas metas para a temporada e tentar ganhar o máximo possível de jogos quando tiver a chance de atuar. Depois de 20 anos de futebol profissional, será uma experiência maravilhosa jogar o esporte que, quando criança, amava ver e jogar”, afirmou ao site do Guildford Phoenix.

A oportunidade não demorou a surgir, e Cech, vestindo a camisa 39, não só fez sua estreia como deixou o rinque aclamado pela torcida e pelos companheiros.

Neste domingo (13), atuando em casa contra o Swindon Wildcats, o Guildford Phoenix, depois do empate por 2 a 2 no período regulamentar, venceu o confronto na disputa de pênaltis.

Cech foi decisivo: fez duas defesas, o que lhe valeu a indicação a melhor jogador da partida.

Com o resultado, o Guildford Phoenix manteve a invencibilidade no campeonato, após três partidas.