Há 35 anos, Grêmio tirou Flamengo da Libertadores em Pacaembu abarrotado

Mais de 35 anos depois, Flamengo e Grêmio voltam a duelar pela Libertadores da América, novamente pela fase semifinal.

O primeiro jogo é nesta quarta-feira (2), em Porto Alegre, e a segunda partida será no dia 23, igualmente uma quarta, no Rio de Janeiro.

Em 1984, com regulamento diferente do atual, o Grêmio, que defendia o título sul-americano, eliminou o Flamengo, campeão do Brasileiro do ano anterior, em um jogo-desempate realizado no estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, campo considerado neutro.

Considerado neutro porque, na teoria, jogar em São Paulo não é vantagem nem para o rubro-negro carioca nem para o tricolor gaúcho.

Na prática, quem jogou em casa foi o Flamengo, apoiado por uma horda de fãs, entre os milhares que saíram do Rio de Janeiro, em caravana, e os apoiadores na capital paulista, e em cidades próximas, do mais popular clube do país.

Uma invasão em vermelho e preto para empurrar Leandro, Nunes, Andrade, Adílio, Mozer, Tita (o capitão do time, que vestia a camisa 10 que fora de Zico, negociado no ano anterior com a Udinese, da Itália) e o novato Bebeto (que se tornaria campeão com o Brasil na Copa do Mundo de 1994), entre outros. O treinador era Zagallo.

Faço um breve aparte para situar o leitor acerca do formato da Libertadores em 1984.

Por que foi necessário esse jogo extra? Porque, no triangular que definiria o finalista, que incluía também a Universidad Los Andes, Flamengo e Grêmio terminaram empatados em número de pontos.

Os dois brasileiros ganharam duas vezes cada um da equipe venezuelana. Nos confrontos diretos, uma vitória para o Grêmio (5 a 1 no Olímpico), uma para o Flamengo (3 a 1 no Maracanã), o que impôs a necessidade de um prélio a mais, tendo o Grêmio a vantagem do empate devido ao melhor saldo de gols.

Falta a favor do Flamengo no jogo de desempate com o Grêmio, no dia 19 de julho de 1984, no estádio Paulo Machado de Carvalho (Reprodução/YouTube)

Voltando à presença maciça de torcedores no Pacaembu para esse Flamengo x Grêmio, ela é quase anônima. Não tomei conhecimento à época e só soube pelo site Doentes por Futebol, em publicação intitulada “A invasão não divulgada”.

Reproduzo trechos da narrativa de Edson Vinicius, que assinou o texto:

“O público surpreendeu a todos. Inesperadamente, as ruas de acesso ao estádio paulistano foram tomadas por carros e torcedores rubro-negros, com longos congestionamentos se formando. A Polícia Militar precisou pedir reforços, pois o número de pessoas presentes foi muito superior ao calculado, especialmente por se tratar de um jogo sem a presença de times locais e realizado no meio da semana, às 21h”.

“Filas enormes se formaram nas bilheterias. Os vendedores ambulantes e as barraquinhas de cachorro-quente, bebidas e churrasquinho viram seu estoque se esgotar rapidamente. A nação rubro-negra, quinta maior torcida da capital paulista, apoiada por milhares de torcedores vindos do Rio de Janeiro, literalmente tomou de assalto o estádio Paulo Machado de Carvalho, representando mais de 95% do público total de, oficialmente, 53.500 pessoas”.

“A divulgação desse número ‘redondo’ pelos alto-falantes do estádio, aliás, foi seguida de uma sonora vaia de todos os presentes, que acreditavam que o número havia sido minimizado”.

Há também o relato do torcedor flamenguista Amilton Franco, que afirmou ter ido ao duelo da noite do dia 19 de julho:

“Tinha 14 anos e estive nesse jogo. O Pacaembu estava tão lotado que na entrada os fiscais nem pediam mais os ingressos, tamanho era o volume de torcedores para passar na catraca. Flamengo (81) e Grêmio (83) tinham sido campeões da Libertadores e mundiais. Jogaço”.

A partida está disponível na internet, e eu a vi na íntegra.

A Globo fez a transmissão, com narração de Fernando Sasso e reportagem de Mario Jorge Guimarães e João Bosco Vaz. Não havia comentarista.

Não havia também várias câmeras no campo. Além da principal, apenas mais duas, uma atrás de cada gol.

E a regra ainda permitia que o goleiro pudesse pegar com as mãos as bolas que lhe fossem recuadas pelos jogadores do próprio time.

Foram 120 minutos (tempo normal mais prorrogação) de muita disputa, muita vontade, com dezenas de carrinhos e faltas (algumas delas bem violentas), e quase nenhuma técnica.

O árbitro José Roberto Wright adverte Casemiro, lateral do Grêmio, com o cartão amarelo (Reprodução/YouTube)

O árbitro José Roberto Wright, que pareceu um pouco acima do peso, foi bastante complacente e distribuiu só quatro cartões amarelos, dois para cada lado.

O gramado irregular do Pacaembu, frise-se, não ajudou ninguém. A bola rolada rasteira vivia quicando, dificultando demais o domínio dos atletas.

No decorrer da partida, o Flamengo, impulsionado por seus torcedores, que gritavam insistentemente “Mengô!, Mengô!”, tinha a iniciativa das ações e buscava estar sempre perto da meta defendida pelo falante e seguro (ao menos nesse jogo foi) goleiro João Marcos, que, ajudado pela boa atuação da raçuda dupla de zaga formada por Baidek e pelo uruguaio De León (capitão gremista), não foi vazado.

O principal jogador do Grêmio, que contava no estádio com o incentivo não só de tricolores gaúchos mas de torcedores de clubes paulistas, era Renato Portaluppi, depois conhecido por Renato Gaúcho, herói do título do Mundial interclubes (Copa Intercontinental) conquistado pelo clube em 1983.

Foi Renato, que volta a duelar com o Flamengo pela Libertadores (é o treinador do Grêmio), que teve a melhor chance do jogo, no segundo tempo. Em um contra-ataque orquestrado com sucesso, ficou frente a frente com o goleiro, sem marcação. Tentou encobri-lo, mas a bola não subiu o suficiente e Fillol agarrou com facilidade.

Renato, o camisa 7  gremista, tenta encobrir o goleiro argentino Fillol, do Flamengo, no confronto em São Paulo (Reprodução/YouTube)

A pressão do Flamengo aumentou no segundo tempo da prorrogação, e Tita teve duas grandes oportunidades, uma desviada por De León e outra defendida por João Marcos. O 0 a 0 prevaleceu.

Dirigido pelo técnico Carlos Froner, que morreu em 2002, o Grêmio enfrentou o Independiente, da Argentina, ainda em julho, pelo bicampeonato da Libertadores.

Não conseguiu. Perdeu em Porto Alegre por 1 a 0, gol de Burruchaga, e empatou em Avellaneda sem gols.

Esse foi o sétimo e último título do Independiente, que se mantém até hoje como o maior vencedor da competição disputada desde 1960.

O Boca Juniors pode igualar o Independiente se ganhar a edição deste ano, a 60ª da história. Disputa a outra semifinal, contra o arquirrival e atual campeão River Plate – no primeiro jogo, nesta terça (1º), no Monumental de Núñez, o River ganhou de 2 a 0.

Em tempo: Na Libertadores, o Flamengo não se deu bem, ao menos até agora, contra o Grêmio. Além da queda em 1984, na edição de 1983 houve dois duelos entre as equipes, na fase de grupos, e o time carioca empatou no Olímpico (1 a 1) e perdeu no Maracanã (3 a 1). Foi eliminado, e quem avançou rumo ao título foi o clube gaúcho.